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10 conclusões que tiramos da Maratona de Londres

Pedro Pires · 13 min

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No domingo passado realizou-se uma das Maratonas mais aguardadas da história. Dois elencos recheados de estrelas e de homens e mulheres capazes de desafiar os limites do corpo humano. Já muito se falou sobre o que em Londres aconteceu e que resultou na vitória de dois quenianos no masculino e no feminino. No entanto, há conclusões a tirar de uma prova que poderá marcar o ano desportivo em estrada e nós aqui as apresentamos.

1. Kipchoge é o Rei

Parece incontestável neste momento. Eliud Kipchoge correu dez Maratonas na sua carreira, venceu nove. A única que “perdeu” foi o segundo lugar na primeira Major da carreira em Berlim. Tirando a Maratona do Rio (onde correu em 2:08:44, tempo que é facilmente explicado pelo clima da cidade brasileira), sempre correu igual ou abaixo de 2:05:30. É uma máquina que parece não falhar. Em termos de regularidade a este nível, apenas Wilson Kiprotich parece ser um nome a entrar na discussão de quem é o maior de todos os tempos. Mas Kipchoge caminha para ser o líder incontestado e parece focado em não deixar margem para dúvidas. No domingo começou com os pacers mais rápidos, “respeitando” o absurdo ritmo imposto de início. Bekele no final da prova revelou que foi o próprio Kipchoge a pedir esse ritmo e que ele não concordou. O queniano correu em ritmo de recorde mundial até onde deu (o parcial de meia foi corrido a 61:00, o mais rápido de sempre!), mas a tempo percebeu que as condições climatéricas de Londres aconselhavam alguma prudência.

A lenda Kipchoge
Fonte: Virgin Money London Marathon

Não é que um tempo de 2:04:17 seja um tempo lento (é na verdade, o terceiro mais rápido de sempre em Londres), mas a dada altura Kipchoge controlou a prova, agarrou-se à liderança, entendendo que não era dia de tentar o recorde mundial, sendo “apenas” mais um dia para cimentar a sua superioridade. Entrou como favorito e saiu como vencedor e sabemos como isso na Maratona não é uma tarefa fácil. Especialmente aqui, esta semana, onde tantos queriam a glória. Kipchoge alcançou a sua terceira vitória em Londres, algo antes alcançado apenas por Dionicio Cerón, Martin Lel e pelo nosso António Pinto.

2. Mo Farah pode ser competitivo entre os grandes

As dúvidas existiam antes do começo da prova. Mo Farah, um dos maiores nomes da longa distância em pista, nunca foi um atleta extraordinariamente rápido (comparado com os maiores) nessas distâncias, optando tradicionalmente por ser mais tático. Sabia-se que Mo poderia ser rápido, pelas indicações que chegou a dar em determinadas alturas da sua carreira (não esquecer a sua habitual ponta final nos 5.000 e nos 10.000 e que correu os 1.500 em 3:28.81, recorde europeu). Mas não se sabia até que ponto um ritmo altíssimo em Londres, aliado às expectativas criadas sobre si e com os holofotes sobre si, poderia afectar o atleta na primeira vez que apostava exclusivamente na estrada. A dada altura da prova, confesso que cheguei a pensar que Mo Farah estava a morder o isco. Pensei que era uma “armadilha” de Kipchoge para o quebrar através do ritmo elevadíssimo e que o britânico estava a ir na conversa. Ainda não estou convencido que não o fosse. Mas na verdade, Mo Farah surpreendeu. Manteve-se no grupo da frente, aguentou até onde pôde numa luta que foi durante largos minutos a três, mas depois deixou ir Kipchoge e Kitata. Não deixou de ser competitivo, mas soube perceber que aquela não era a sua batalha (para já) e o próprio admitiu ter terminado totalmente de rastos.

Mo Farah no final da sua prova, satisfeito e esgotado
Fonte: Virgin Money London Marathon

Acabou em 2:06:21, naquele que é um novo recorde britânico (que demorou 33 anos a cair, sendo que pertencia a Steve Jones), no terceiro lugar do pódio e, mais importante do que isso, passando uma mensagem clara que não vem para a estrada apenas para fazer dinheiro. Vem para ser competitivo ao mais alto nível. Como o agente de Mo Farah tão bem o disse no final da prova “nunca trabalhei com alguém com maiores “bolas” do que Mo  Farah”. Para bom entendedor.

3. A carreira de Kenenisa Bekele na Maratona é uma montanha russa

Era apontado como o único atleta capaz de bater Kipchoge e falhou redondamente o seu objectivo de prova. Bekele, que se confessa obcecado pelo recorde mundial, não o contava bater nesta prova. Fez menção ao mesmo no futuro, mas a sua estratégia para esta prova era clara: vencer. Desde cedo que se demonstrou desconfortável com o forte ritmo imposto na frente da prova e acabou por ficar para trás. Viria a ser sexto e no final da prova o etíope viria a dizer que não era sua intenção ter corrido no grupo da frente, uma vez que sabia que eram passagens irrealistas e suicidas as pedidas. Mas correu. Muito por culpa do segundo grupo de elite nunca ter, de facto, existido. Tentou ir no tal grupo da frente e nunca se encontrou na prova. O atleta que ainda é o recordista mundial dos 5.000 e dos 10.000 metros em pista, tinha corrido oito Maratonas até este momento. Havia vencido duas (uma delas a 6 segundos do recorde mundial), tinha desistido em três e tinha terminado uma vez em segundo, uma vez em terceiro e uma outra vez no quarto lugar. Desta vez, foi sexto, em 2:08:53, naquela que foi a sua pior classificação em provas onde chegou ao final. Várias vozes afirmando que Bekele não impõe o mesmo esforço que outros maratonistas de elite no seu treino se têm levantado e fica a dúvida se esse será o factor que tem feito a diferença em relação a Kipchoge, depois de em pista Bekele ter atingido patamares que Kipchoge nunca conseguiu.

4. Shura Kitata está para ficar

Foi o “surpreendente” atleta no pódio, mas só deixará completamente espantado alguém que ande muito distraído. É certo que a concorrência em Londres era de peso, mas Shura Kitata não pode ser tratado como um desconhecido, como parece ter acontecido em algumas análises feitas a seguir ao evento. Já tinha corrido abaixo das 2h06 e em 2017 havia vencido em Roma e em Frankfurt que, mesmo não sendo Majors, são Maratonas de elevado prestígio. Tem ainda 21 anos e o segundo lugar alcançado aqui em Londres, em 2:04:49, deixa antever um futuro muito promissor. Treinado por Haji Adilo, sabemos que está em boas mãos e olhando para a média de idades de quem manda nas Majors na actualidade, não será de surpreender se virmos Kitata a agarrar o testemunho num futuro muito próximo.

5. Vivian Cheruiyot pode vencer a este nível em estrada

No ano passado, estreou-se em Maratonas aqui mesmo, em Londres, com um excelente 4º lugar e com bastantes áreas para melhoria identificadas. Mais tarde, venceu a Maratona de Frankfurt. Voltava este ano a Londres não como uma das duas principais favoritas, mas claramente como uma das atletas a ter debaixo de olho. Tendo-se estreado na Maratona apenas aos 33 anos, Vivian Cheruiyot sabe que não terá uma carreira demasiado longa pela frente em estrada e ela mostrou não ter tempo a perder. A atleta que, recorde-se, é a actual campeã olímpica nos 5.000 metros e que se estreou em Jogos Olímpicos há 18 anos atrás em Sidney (!), não só veio vencer a Londres como veio fazê-lo em grande estilo, tornando-se a quarta atleta mais rápida da história da Maratona, baixando o seu recorde pessoal em mais de 5 minutos (!) numa prova com condições climatéricas muito especiais e com os maiores nomes presentes.

As três atletas do pódio de Londres
Fonte: Virgin Money London Marathon

Cheruiyot foi aquilo que sempre nos habituou ao longo da sua carreira: bastante inteligente na forma como geriu as circunstâncias da prova. Sabia que o ritmo de recorde mundial não lhe convinha e nem sequer se preocupou em acompanhar o ritmo das atletas da frente, começando até no terceiro grupo. Acreditava que a sua hora chegaria e limitou-se a fazer a sua prova, tendo em mente a prova do ano passado onde quis acompanhar o grupo da frente e apenas o conseguiu fazer no primeiro terço da prova, pagando caro esse esforço inicial. Agora foi diferente. Pouco passava dos 35 km, quando Cheruiyot deu uma sapatada final na prova, ou melhor, percebeu que Keitany estava fora de combate e aproveitou para passar tranquilamente pela sua compatriota queniana, sem que esta conseguisse esboçar qualquer reacção. Quando comparados, os splits de Cheruiyot e Keitany (ao dividirmos a prova ao meio) ajudam a explicar muito do que se passou. Cheruiyot correu em 68:56/69:34. Keitany correu em 67:16/77:11, com um split positivo de quase 10 minutos.

6. Os campeões também caem. E isso inclui Mary Keitany.

Já a tínhamos visto cair anteriormente, mas não deixou de surpreender a forma como Mary Keitany – 3 vezes campeã aqui em Londres – não conseguiu cumprir o que tinha previsto para a sua prova e, principalmente, por não ter ajustado o seu plano. Tendo obtido o recorde mundial (2:17:01) em provas exclusivamente femininas no ano passado, ela sabia que atingindo o recorde mundial absoluto iria, de certa forma, dissipar dúvidas e provar no mesmo recinto que Paula Radcliffe o fez (em 2:15:25) que era capaz de correr mais rápido do que ela. Para tal, pediu e a organização acedeu ao pedido de ter lebres masculinas a controlar o ritmo alto da frente. O ritmo pedido às lebres era de 67.30 à passagem da metade da prova, o que era claramente ambicioso. Mas Mary Keitany cumpriu o plano na perfeição, ao passar até ligeiramente mais rápido e abaixo do parcial para recorde do mundo. Acontece que por essa altura as temperaturas em Londres já atingiam os 23º graus, com ausência de vento, o que tornava todo o objectivo de Mary Keitany ainda mais complicado ou até utópico. Keitany lutou até onde pôde para acompanhar o ritmo das lebres que a dada altura perceberam que ela não iria conseguir acompanhá-los e até se viu os mesmos a trocarem algumas impressões acerca do que acontecia. Numa fase inicial Tirunesh Dibaba (ETH) acompanhava Keitany, mas esta viria a ficar para trás e desistir da prova. Keitany mantinha-se na frente mas com claras dificuldades em acompanhar o ritmo e em controlar a respiração. A partir do momento em que sentiu Cheruiyot nas suas costas, percebeu o que ali vinha. A única reacção que esboçou foi já na meta tentando garantir uma quarta posição que viria a perder para a compatriota Gladys Cherono (KEN). No final da prova, esta era Mary Keitany ajudada para se manter em pé:

7. A ambição deve ser calculada

A frase serve na perfeição para definir o referido no ponto anterior, mas ainda serve melhor para resumir a prova de Tirunesh Dibaba. Dibaba tem muito pouco a provar na sua carreira. Em pista foi medalhada em 4 Jogos Olímpicos e 5 Mundiais. No ano passado, alcançou um segundo lugar na Maratona de Londres com um fantástico tempo de 2:17:56, por detrás de Keitany, tornando-se a terceira mais rápida de todos os tempos. Mais tarde, venceria em Chicago a primeira Major da sua carreira. Tudo parecia apontar para termos uma Dibaba em grande forma em Londres e assim pareceu numa fase inicial acompanhando o ritmo de Keitany e das lebres da frente. E esse pode ter sido o seu maior pecado.

Dibaba e Keitany procurando acompanhar o elevado ritmo imposto pelas lebres
Fonte: Virgin Money London Marathon

É fascinante a possibilidade de um recorde mundial e é um dos maiores sonhos de qualquer atleta de elite, especialmente quando já de tudo um pouco se ganhou, como acontece com Dibaba. Mas deve-se escolher quais os melhores palcos para se travar as melhores batalhas. Correr em Londres, este ano, da forma como as duas favoritas correram era, no mínimo, arriscado e revelou-se mesmo uma missão impossível. Dibaba terá aprendido a lição, pois ao quilómetro 30 vimo-la a fazer algo pouco habitual. Parou quando ia na segunda posição, andou uns metros e retomou a corrida num ritmo lento. O desfecho era previsível. Pouco depois abandonou a prova.

8. A Maratona continua a ser uma das provas mais imprevisíveis

Pode parecer uma frase feita, mas continua a ser a mais pura das verdades. Embora todos os nomes do pódio tenham sido mencionados na nossa antevisão, a verdade é que se nos perguntassem as nossas previsões para o pódio, eu teria acertado apenas em 3 dos 6 atletas, sendo que em apenas dois faria a previsão certa em termos de lugares do pódio (Kipchoge e Mo Farah). Claro que o que aconteceu em Boston uma semana antes não é algo comum e não se irá repetir muitas vezes ao longo da nossa vida. Mas dentro dos atletas de elite, existe um conjunto relativamente alargado de atletas que podem sair com a vitória ou, pelo menos, com um dos lugares do pódio. A duração da prova, o percurso, as condições climatéricas, a preparação, a tática utilizada, os ajustes, os contratempos, tudo isto deve ser tido em conta em qualquer desporto, mas numa prova como a Maratona, os pormenores podem fazer toda a diferença. E se domingo vimos Bekele e Keitany fora do pódio, não deixaria ninguém de boca aberta se os víssemos no lugar mais alto do pódio em Berlim ou Chicago. Essa é a beleza do desporto em geral, do nosso desporto em particular e ainda mais de provas com estas características. Algum dos atletas em actividade irá bater o actual recorde mundial? Acredito que sim. Será Kipchoge? Acredito que sim. Mas quem o poderá afirmar com certeza? Afinal, quando Keitany comandava a prova em Londres e quando Dibaba começou a andar, as Odds na SkyBet davam 80 libras por cada libra apostada em Cheruiyot. Quem diria…

9. O clima é o factor que faz a maior diferença na obtenção de marcas

Este é um ponto polémico e não consensual. Afinal como vimos no ponto anterior existem vários factores que em conjunto podem explicar melhores ou piores resultados face ao esperado. Explicando: reconhecendo essas circunstâncias e particularidades de cada prova, parece cada vez mais claro que entre atletas de elite, treinados ao mais alto nível, com uma correcta preparação e com uma clara estratégia de prova, O factor que poderá fazer uma maior diferença na obtenção de marcas são as condições climatéricas. Não é o único e não queremos ser mal interpretados. Mas num dia com as condições ideais, acredito que estaríamos hoje a falar na queda de pelo menos um recorde mundial, senão mesmo, dos dois. Poderíamos falar do cataclismo que aconteceu em Chicago uma semana antes. Mas seria demasiado fácil pegar por aí. Sabemos que as vitórias de Desi Linden e Kawauchi nunca teriam acontecido noutras condições e que os mesmos, de certa forma, foram menos afectados pelas condições do que outros atletas. Não. Pegamos mesmo aqui em Londres e nos parciais de meia: 1:01 na prova masculina e 1:08:56 na prova feminina. Ambas as provas se desenrolavam abaixo de parciais de recorde mundial, tínhamos em ambas as provas atletas com a preparação ideal, atletas rápidos, que queriam cravar ainda mais o seu nome na história. As temperaturas (aliadas à ausência de brisa) trataram do assunto. Para se bater um recorde mundial não basta aos atletas serem perfeitos. É também necessário que tudo ao seu redor esteja perfeito. No dia em que isso acontecer, o recorde voltará a cair.

10. As notícias da morte do Quénia foram exageradas. Muito.

Muito falado nas redes sociais (em especial no Twitter) até por alguns especialistas da matéria tinha sido o declínio do Quénia nas Maratonas, especialmente depois do que aconteceu na Gold Coast nos Jogos da Commonwealth (0 atletas nos dois pódios) e na Maratona de Boston (apenas 1 atleta nos pódios). O Quénia terminou aqui com duas vitórias – Kipchoge no masculino e Cheruiyot no feminino – e mais uma medalha de Prata na prova feminina para Brigid Kosgei em novo recorde pessoal (ela que correu 3 Maratonas em 6 meses…). Nos Jogos da Commonwealth, a equipa queniana, claramente de segunda linha, foi ainda fustigada pelo calor intenso da Gold Coast, factores que ajudam a explicar o que aconteceu. Em Boston, Geoffrey Kirui e Edna Kiplagat eram favoritos e candidatos a defender os seus títulos, mas as condições adversas mudaram tudo o que se poderia esperar da prova, tornando-a totalmente imprevisível. Em Londres, tudo voltou ao normal. E se é verdade que existem novos actores a considerar no panorama da distância, a verdade é que no top 10 masculino, o Quénia colocou 5 homens e no top 10 feminino colocou 4 mulheres.

O início da prova masculina
Fonte: Virgin Money London Marathon

Como jeito de conclusão, deixem-me referir que esta Maratona pode assim ser o ponto de viragem para muitos dos atletas presentes na mesma, dadas as marcas obtidas. Ainda assim, sendo a Maratona uma prova com enorme imprevisibilidade, como já referido, o que hoje é verdade pode mudar significativamente na próxima grande prova. Os limites humanos, esses, continuarão a ser postos à prova.

Foto de Capa: IAAF

Pedro Pires

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