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2020: Uma pista coberta diferente

Pedro Pires · 4 min

2020: Uma pista coberta diferente
Foto: World Athletics

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A propagação do Coronavírus obrigou a uma mudança de planos e já não teremos Mundiais de Pista Coberta em 2020. Mas o que será que isto significa na prática?

UMA TEMPORADA INDOOR SEM GRANDES CAMPEONATOS

Os rumores já circulavam nas redes sociais com alguma insistência e a presente situação de propagação do Coronavírus deixava óbvio que a China não iria ter condições de receber os Mundiais que estavam previstos para março deste ano em Nanjing. Várias hipóteses estiveram em cima da mesa: o cancelamento total do evento, passando a próxima edição dos Mundiais Indoor a ser apenas em 2022; a alteração de sede do evento; o adiamento para o ano seguinte.

Entre estas opções, o adiamento foi a solução escolhida pela World Athletics, que se decidiu pela manutenção da sede em Nanjing (na China), adiando o evento para 2021. A Federação Internacional confirmou que outras cidades manifestaram interesse em organizar o evento em 2020, mas a Federação decidiu que o melhor seria não deixar cair Nanjing, que tinha feito todo o trabalho de preparação.

Para isso terão contribuídos diferentes fatores: 1) Sendo um ano especial (Doha acabou tardíssimo e há Tóquio em agosto), muitos atletas da nata da elite já tinham decidido não realizar esta temporada de pista coberta, focando-se em exclusivo na temporada ao ar livre; 2) Cerca de seis semanas parece manifestamente insuficiente para montar toda a estrutura necessária para a realização dos Campeonatos. A isso haveria que acrescentar a logística de todos os agentes envolvidos e garantia que tudo estaria pronto a horas; 3) O facto da World Athletics ter agora uma apertadíssima ligação com a China – sendo que o Wanda Group é o seu principal parceiro – poderá ter contribuído para a tomada de decisão de não deixar Nanjing sem campeonatos.

A decisão – que, na nossa opinião, acaba por ser a mais sensata e razoável – torna a temporada 2020 de pista coberta numa temporada totalmente atípica e não menos será a de 2021. Pela primeira vez desde 1969, não existirá um grande campeonato em pista coberta a fechar a temporada para os atletas europeus, que sempre estiveram habituados a Europeus ou Mundiais a fechar esse período. Também 2021 será um ano especial, pois, com esta decisão, Nanjing irá receber os Mundiais duas semanas depois de Torun (na Polónia) receber os Europeus de pista coberta. Esta situação aconteceu por três vezes na história, sendo que a última foi em 1989. Mas quais serão as reais implicações da não-realização de Mundiais Indoor este ano?

PODE SABER A POUCO…

Noah Lyles é um dos atletas que já tinha confirmado que não iria fazer indoor em 2020
Fonte: World Athletics

É impossível de o esconder: sem a realização de grandes campeonatos, ficará sempre a faltar algo a esta temporada de pista coberta no que diz respeito ao desporto de elite.

É verdade que muitas das estrelas já tinham anunciado que iriam apenas apostar na temporada ao ar livre; é verdade que outros mais atletas apostaram em fazer um número limitado de meetings, mas não tinham intenção de ir aos Mundiais (principalmente pelos receios do vírus que já existiam…); é verdade que todos os atletas russos estavam impedidos de competir em Nanjing, devido aos desenvolvimento do caso de doping estatal; é verdade que Nanjing tem uma alta probabilidade de ter Mundiais de maior qualidade em 2021 do que iria ter este ano – além dos Olímpicos no verão, já os Mundiais ao ar livre haviam terminado muito tarde. No entanto, os riscos de termos ainda menos gente interessada no circuito são agora bem maiores.

Já se realizaram dois meetings da World Athletics Indoor Tour (WAIT) e já há listas disponíveis para mais, mas, apesar de alguns bons nomes e bons duelos em perspetiva, os field sabem, no geral, a pouco. E ainda há o risco dos atletas presentes terem agora menos motivação. A World Athletics ainda não revelou, também, se quem conseguir a qualificação neste período terá qualificação garantida para os Mundiais (agora) de 2021, existindo, assim dois períodos de qualificação. Não anunciou como fica a situação dos wild cards para as disciplinas que irão fazer parte do circuito da WAIT em 2021 (à partida, essas disciplinas deram os wild cards para Nanjing no ano passado), existindo ainda muitas interrogações.

Talvez, no fundo, nem mude assim tanto. Já se sabia que seria um indoor relativamente fraco e com os olhos todos postos no verão. No entanto, não pensem que isso significa que não teremos resultados de elevado nível. Só nos últimos dias tivemos algumas performances verdadeiramente dignas de registo.

Paulo Conceição está numa forma fantástica e bateu o recorde nacional
Fonte: FPA

Se a nível nacional, todos ficámos boquiabertos com os grandes recordes de Paulo Conceição na Altura (2.28 metros) e Auriol Dongmo no Peso (18.31 metros), a nível internacional, a Altura feminina também esteve em destaque. A jovem ucraniana Yaroslava Mahuchikh bateu o recorde mundial júnior em pista coberta (2.02 metros) e a russa (campeã mundial) Mariya Lasitskene respondeu já com 2.04 metros em Moscovo!

Mahuchikh já bateu o recode júnior e é concorrência para Lasitskene
Fonte: World Athletics

Nos 800 metros, a escocesa Jemma Reekie não só bateu o recorde britânico, como o fez correndo o tempo mais rápido em pista coberta dos últimos 14 anos (1.57.91)! Também no Triplo Salto masculino, o atleta da Burkina Faso, Hugues Fabrice Zango, parece querer dar continuidade à sua grande temporada 2019, tendo saltado 17.77 metros em Paris, subindo a 4.º (igualado) a saltar mais longe na história indoor do Triplo.

Posto isto, não há motivos para adormecermos por dois meses e acordarmos apenas na temporada ao ar livre. As listas poderão não ser sempre as mais apetecíveis – principalmente, a nível de profundidade – mas os grandes resultados podem aparecer a qualquer altura e em qualquer lugar.

Foto de Capa: World Athletics

Revisto por: Jorge Neves

Pedro Pires

Redação Bola na Rede · ver artigos