O futuro da marcha olímpica e o aparecimento da estafeta mista

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Vai surgir uma nova modalidade de marcha nos Jogos Olímpicos. O anúncio foi feito pela World Athletics (anteriormente conhecida como IAAF), órgão que tutela o atletismo mundial, em conjunto com o Comité Olímpico Internacional (COI) no dia 8 de abril. A nova prova olímpica designa-se por Estafeta Mista de Marcha atlética. A prova vai ter distância de maratona (em Paris, serão 42,195 km) e nela participarão 25 seleções constituídas por um homem e por uma mulher que irão correr de forma alternada entre si, com vista a que completem sensivelmente a mesma distância.

“Estamos entusiasmados por ter mais uma prova mista no programa olímpico para demonstrar as habilidades dos nossos atletas femininos e masculinos num só evento. Este formato foi concebido para ser inovador, dinâmico e imprevisível. Acreditamos que será facilmente compreendido pelos fãs, contará com uma competitividade emocionante e, mais importante, garantirá a plena igualdade de género em todo o programa olímpico de atletismo pela primeira vez.” As palavras são de Jon Ridgeon, CEO da World Athletics.

A divulgação das regras da prova mista despertou a polémica em torno da retirada da marcha de 50 km dos Jogos Olímpicos, mudança que vai ter efeito já a partir dos Jogos de Paris 2024. Nos JO de Tóquio, em 2021, só teve lugar a prova masculina, na qual o português João Vieira terminou no quinto posto.  

O marchador contestou a decisão da World Athletics, classificando-a à Lusa como um “balde de água fria”, pelo que Vieira foi ainda mais além:

 “Neste momento, o que se está a ver é que os marchadores não estão de acordo com o que a World Athletics quer fazer. Não fomos ouvidos e isto é, em princípio, o início do fim da marcha em termos de Jogos Olímpicos”- afirmou Vieira.

Uma das principais vozes a favor da introdução da prova feminina no panorama olímpico foi Inês Henriques, antiga marchadora dos 20 km. No ciclo olímpico “Tóquio 2020”, tinha mesmo estabelecido dois recordes do Mundo consecutivos e conquistado o ouro nos Campeonatos do Mundo em Porto de Mós, no ano de 2017 (primeiro ano em que os 50 km de marcha foram abertos às mulheres).

Henriques nunca teve a oportunidade de disputar os 50 km nos JO, uma vez que a modalidade nunca fez parte dos Jogos, no que à vertente feminina diz respeito. Na vertente masculina, o caráter olímpico da prova remete aos JO de Los Angeles, em 1932. Ao invés, Inês Henriques optou por investir, primeiramente, nos 35 km, mas para Paris 2024, a marchadora está focada nos 20 km.

“Se houvesse realmente a intenção de haver igualdade de género, deviam ter introduzido a distância dos 50 quilómetros e não foi isso que fizeram. As medidas que tomaram foi colocar dois porta-estandarte, um homem e uma mulher, mas isso não é nada, na verdade não tem nada a ver com competição igualitária”- Declarações de Inês Henriques, em entrevista à agência Lusa, a 30 de julho de 2001

A atleta disse, na mesma entrevista, que não considera que as provas mistas contribuam para o desporto feminino. Isto, porque apesar de ainda não ser oficial, já se previa a mudança para os JO de Paris, até porque não é a primeira vez que a World Athletics se vê envolvida numa controvérsia relacionada com os 50 km de marcha.

MARCHANDO, MAS POUCO

A decisão constitui uma rutura com uma posição tomada pela World Athletics (quando ainda era IAAF) em 2017, quando a organização se reuniu em Londres para rejeitar a proposta do COI para acabar com a marcha de longa distância.

“O Conselho concordou em não propor a retirada da qualquer disciplina do atual programa olímpico, dado que os atletas já levam um ano de preparação para os Jogos de 2020. Qualquer iniciativa do género será referente ao seguinte ciclo olímpico“, explicou a World Athletics, de acordo com o Record.

Em fevereiro de 2019, a World Athletics divulgou as medidas a discutir no âmbito da reunião do Concelho da World Athletics e consistiam na alteração das distâncias da marcha, dos habituais 20 km e 50 km para provas com 10 e 30 km de extensão, respetivamente. Um dos objetivos passava por garantir que a “equidade entre os sexos” era alcançada.

“Cada membro da RWC (Race Walking Comitee) reconhece que as distâncias mais longas proporcionaram emoção ao longo dos anos, a nível de elite nos Jogos Olímpicos; Jogos ou Campeonatos Mundiais, mas a diminuição dos números ao nível de desenvolvimento e Elites é uma questão que não pode ser ignorada” pode ler-se no comunicado.

A organização reconheceu que a alteração das distâncias podia interferir com a preparação de alguns atletas, mas sustentou-se no período de “pelo menos, dois anos”, para que “a adaptabilidade, força mental e astúcia dos atletas na disciplina” tornasse a prevalecer.  Não obstante, as medidas foram alvo de tamanha contestação que levaram mesmo ao nascimento de um movimento de oposição

#Savetheracewalking

O movimento “Save the Racewalking” teve como objetivo fazer frente às medidas de redução de distâncias anunciadas pela World Athletics, em 2019. A iniciativa contou com a participação de vários marchadores, desde adultos a crianças entre os quais estiveram Inês Henriques e Pedro Miguel Isidro. O movimento classificava as decisões do órgão fiscalizador como um homicídio da disciplina.

As exigências eram as seguintes:

  • Manter os 20 km e os 50 km como distâncias internacionais da marcha até ao fim dos Jogos Olímpicos de 2024;
  • Usar a moldura temporal para testar, adequadamente, a nova tecnologia do calçado;
  • Trabalhar com vista a tornar mais atrativas as provas com distâncias de 20 km e 30 km;
  • Visitar, de novo, o problema, em função do funcionamento (ou não) da nova tecnologia do calçado

O projeto para tornar a marcha de longa distância mais apelativa ao mercado era designado por “Phoenix Project” e consistia num projeto aberto, a atletas, organizações e até a federações, sendo que nenhuma podia impor qualquer tipo de decisão. O rascunho do programa deste projeto continha medidas com o objetivo de assegurar uma melhor promoção da marcha junto do público.

Para este efeito, comprometia-se, no rascunho do seu programa a fazer um recenseamento dos marchadores de cada país, bem como uma recolha de opiniões, sejam dos atletas e do público geral com o intuito de compreender os problemas logísticos, económicos, organizacionais, promocionais e técnicos da disciplina. Para além disto, o “Phoenix Project” visava introduzir o ensino da marcha nas escolas, criando um troféu para equipas de esforço misto constituídas por crianças dos 10 aos 12 anos.

A final desta competição seria disputada numa efeméride a criar, o Dia Mundial da Marcha.

Filipe Pereira
Filipe Pereira
Licenciado em Ciências da Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o Filipe é apaixonado por política e desporto. Completamente cativado por ciclismo e wrestling, não perde a hipótese de acompanhar outras modalidades e de conhecer as histórias menos convencionais. Escreve com acordo ortográfico.

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