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O norte-americano Duplantis

Pedro Pires · 5 min

O norte-americano Duplantis
Foto: World Athletics

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Parece que 2020 não vai permitir a criação de boas recordações. Com a chegada e propagação de um vírus desconhecido e mortal, o mundo parou e o desporto, nomeadamente o Atletismo, não foi, logicamente, excepção.

O Atletismo – um desporto de verão, por eleição – nem chegou a aquecer, como se costuma dizer. Num ano em que muitas estrelas tinham já abdicado da temporada em pista coberta, de forma a preparar da melhor forma possível os Jogos Olímpicos de Tóquio, que estavam previstos realizar-se neste verão, a temporada ao ar livre foi totalmente inexistente.

Ainda assim, no pouco que este ano nos deu, existe um atleta que nunca irá esquecer que foi neste 2020 que bateu, aos 20 anos, por duas vezes, um recorde mundial. Armand Duplantis, também conhecido – como prefere – por “Mondo” Duplantis (alcunha dada por um amigo italiano do seu pai), o jovem sueco que há muito tempo bate recordes, saltou na Vara o que nunca alguém tinha saltado. Seja Bubka, Kendricks ou Lavillenie, nenhum deles passou a 6.17 metros ou 6.18 metros, o atual recorde mundial. E muitas curiosidades há acerca deste “puto” sueco…

MAS, AFINAL, DUPLANTIS É SUECO OU NORTE-AMERICANO?

Muitos poderão ter estranhado o título do nosso artigo. Todos já viram Mondo Duplantis a competir com as cores suecas, e até já o viram conquistar um título europeu, ao ar livre, no verão de 2018, ainda com 18 anos. A verdade é que o uniforme que Duplantis enverga tem as cores suecas, porque ele assim o decidiu.

Duplantis representa as cores suecas, mas poderia ter escolhido outras cores
Fonte: Oslo Diamond League

Nascido no Louisiana, em 1999, Armand é filho do norte-americano Greg Duplantis – que também praticou Salto com Vara, tendo chegado aos 5.80 metros – e da sueca Helena Duplantis, uma antiga atleta de Heptatlo e de Voleibol. Ambos se conheceram quando Helena foi para Louisiana com bolsa escolar e desportiva para frequentar a LSU, e de lá não saiu mais.

Armand Duplantis fala inglês nativo e, embora, já comece a expressar-se em sueco, a sua própria mãe confidenciou que ele não é fluente, sendo o que pior fala a língua em casa (Armand tem uma irmã mais nova e dois irmãos mais velhos, e Andreas também representa a Suécia no Salto com Vara, desde 2009).

Foi aos 15 anos que Armand decidiu que iria representar a Suécia. Apesar de a legislação facilitar a mudança na passagem a sénior, Mondo nunca mais olhou para trás e sempre considerou lógica a sua decisão. O atleta refere que o grande factor a pesar na sua decisão terá sido a ascendência e as raízes da mãe. Já o pai de Armand confidenciou ao NY Times que outros fatores também foram tidos em conta, como o facto de o processo de seleção sueco ser bastante mais acessível do que o norte-americano.

A escolha pela Suécia terá sido, assim, uma decisão lógica e ponderada. Uma decisão legítima, uma vez que, tendo duas nacionalidades, Duplantis teria o direito de escolher representar o país que bem quisesse. No entanto, nos EUA, algumas vozes se levantaram contra a decisão do jovem. Sendo norte-americano, o atleta beneficiou de todos os apoios do sistema escolar do país e, considerando que nem sueco fala, é alguém “mais norte-americano” do que sueco, pelo que deveria retribuir a aposta e investimento do país em si. Isso só a Duplantis dirá respeito, mas na internet não é difícil encontrar exemplos de vozes que ainda hoje se manifestam contra a decisão do jovem atleta.

OS RECORDES COMEÇARAM CEDO A CAIR

Sergey Bubka bateu o recorde mundial, pela primeira vez, aos 29 anos. Renaud Lavillenie aos 25. Armand Duplantis aos 20 anos. Muitos vêem aqui motivos para pensar que a fasquia vai subir ainda subir bastante, e, para nós, é difícil de desmentir. Das duas vezes que Duplantis bateu o recorde este ano, ficou sempre a impressão de que o jovem poderia ter ido ainda mais alto. Mas claro que todos sabemos que os recordes são muito lucrativos centímetro a centímetro.

Já com Bubka havia sido assim. O atleta foi várias vezes acusado de subir a fasquia centímetro a centímetro, apenas para arrecadar o prémio monetário, apesar de todos nós sabermos que ele tinha muito mais para oferecer. Essa é uma das razões pelas quais nunca saberemos até onde o ucraniano poderia ter ido. Mas isso não diminui Duplantis, antes pelo contrário. O sueco começou cedo e, mesmo centímetro a centímetro, muitos estimam que o recorde poderá estar 10 a 15 centímetros acima no final da próxima década.

Apesar de tudo, ninguém se diz surpreendido com a ascensão do sueco. Segundo várias fontes, Armand começou a ser introduzido ao Salto com Vara aos seus quatro anos, quando o seu pai o levava para o complexo da LSU (Universidade do Estado de Louisiana) para treinar. Não que tal fosse necessário, uma vez que, por essa altura, já o seu pai tinha instalado no seu quintal tudo o que era necessário para a prática do Salto com Vara.

Claro que tudo isso seria de pouca ajuda, caso Armand não tivesse a aptidão e confiança necessária. Mas ele tinha isso tudo e muito mais. Bateu o seu primeiro recorde de idade aos sete anos, e tem ainda em sua posse todos os recordes de idade dos 7 aos 12 anos, bem como os dos 17, 18, 19 e, claro, sub-20, sub-23 e sénior absoluto. Em termos de títulos também não está mal, não. Foi campeão mundial de sub-18 e sub-20, campeão europeu sub-20 e também já conta com o título sénior europeu para mostrar.

Existe ainda a curiosidade de Duplantis deter vários recordes norte-americanos, mesmo que compita pela Suécia. É que, sendo norte-americano, Duplantis está elegível para bater recordes norte-americanos, numa situação em tudo semelhante à que acontece em Portugal, tendo como exemplo disso os recordes de Jéssica Inchude no Peso, que internacionalmente compete pela Guiné-Bissau.

Nos EUA, a situação causou bastante incómodo, e falou-se muito numa alteração legislativa. No entanto, consultando a lista de recordes da USATF (a associação norte-americana) e, embora o recorde indoor e mundial absoluto de Duplantis ainda lá não conste (a lista é atualizada no final de cada ano), é possível confirmarmos que os 6.05 metros que Duplantis saltou em Berlim são recorde norte-americano. Um recorde norte-americano alcançado em Europeus!

OLHOS NO FUTURO

Por agora, Duplantis vai preparando o futuro enquanto vive uma situação única, tal como todos os desportistas e cidadãos em geral. Em Tóquio, para o ano, espera chegar à glória olímpica e ao primeiro título global da sua carreira, depois de nos Mundiais de Doha, em 2019, ter sido medalhado de Prata atrás do norte-americano Sam Kendricks. Para já, Duplantis treina e salta (alto)… no seu quintal.

Foto de Capa: World Athletics

Artigo revisto por Mariana Plácido

Pedro Pires

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