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Só há um Évora. Aproveitemos!

Pedro Pires · 9 min

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Se alguém pode, é ele. Se existe uma possibilidade, ele vai fazê-lo. Estamos no quinto ensaio e ainda ninguém saltou acima de 17 metros? Há um homem que nunca irá tremer nessa situação: Nelson Évora! Habituou-nos mal. Já estamos desconfiados. Mesmo quando não lidera um concurso, mesmo quando as coisas não parecem estar a correr-lhe bem, dentro de nós existe uma sensação que ele vai conseguir fazê-lo quando for preciso. À hora certa, quando os olhos do mundo estiverem sobre ele. #The Moment. O slogan dos Europeus de Berlim pareceu feito à medida de Nelson. Ontem, mais um Ouro. Não mais um Ouro. O Ouro que lhe faltava ao ar livre. Por incrível que pareça, Nelson Évora nunca tinha sido campeão europeu ao ar livre! Foi ontem e já nada lhe falta. Sempre que falarem dos maiores do nosso desporto, nunca se esqueçam de falar de Nelson Évora. E coloquem-no bem lá no topo porque esse é o seu lugar. 

Quanto ao concurso, que muitos terão a tentação de classificar como de nível baixo dadas as marcas dos seus adversários, a verdade é que o mesmo não estava fácil e essa dificuldade já se notava na fase de qualificação. Nelson Évora venceu a final com um salto de 17 metros e 10 centímetros (-0.1) à 5ª tentativa, o seu melhor ao ar livre em 2018. Ultrapassava aí o líder do concurso, Alexis Copello, que se ficou pelos 16.93 metros (+0.1). A medalha de Bronze foi para o grego Dimitrios Tsiámis em 16.78 (-0.1), também a sua melhor marca do ano. 

No seu ritual de vitória, Nelson apanhou a areia da caixa e guardou-a numa garrafa, deu uma das sapatilhas ao público e estava visivelmente feliz por mais um título a este nível, este com um sabor muito especial, como o atleta viria a confessar em palavras à imprensa no final, onde mais uma vez fez questão de agradecer aos portugueses, de mostrar o seu orgulho na nossa nação e o quão grato está por levar o nosso nome além-fronteiras. Pelo meio deixou uma alfinetada a Pedro Pablo Pichardo e aos responsáveis pelo seu processo de naturalização, apelidando de “ridículo” a compra de atletas reputados para fins desportivos e pedindo uma maior aposta e melhores condições para os jovens nacionais, sem se esquecer de elogiar a prestação dos seus colegas que competiram em Berlim.

Nelson Évora e Inês Henriques, os dois medalhados de Ouro em Berlim
Fonte: FPA

Aqui, aquela velha máxima, tantas vezes apregoada no futebol, adequa-se na perfeição: as finais são para serem ganhas. No Atletismo não é diferente. Pouco importa a marca com que se é campeão, a marca com que se alcança uma medalha. A medalha é de Évora e para sempre será. O português tem que provar nada a nível de marcas. Já o fez no passado. Provou a nível de marcas, provou a nível de palmarés, provou ao nível da sua capacidade de superação e resiliência. Nelson não tem absolutamente nada a provar no desporto. Um dia os nossos filhos e os nossos netos falarão de Nelson Évora e isso só está ao alcance dos melhores da história. 

O Crescimento de Marta Pen

Marta Pen continua o seu crescimento acentuado na sua distância favorita, os 1500 metros. E como todo o crescimento, por vezes existem dores associadas a esse crescimento. Ontem foi corajosa. Muito. Diz-se que “a sorte protege os audazes”. Ontem não foi o caso. Marta Pen não teve qualquer medo de acompanhar o ritmo elevadíssimo da britânica Laura Muir na frente da prova e fê-lo até onde pôde, sabendo que estava na sua melhor forma de sempre. Mas Muir sabia que não havia ninguém em pista mais rápida do que ela. A sua estratégia foi clara desde o início: impor um ritmo fortíssimo de forma a destruir as suas adversárias cedo e não sofrer eventuais dissabores no final. Resultou. Muir terminou em 4:02.32, com a Prata a ir para a polaca Sofia Ennaoui em 4:03.08 e no Bronze a britânica Laura Weightman em 4:03.75, também chegando ao final já em esforço. Quanto a Marta, esteve bastante bem em prova, estava em zona de luta pelas medalhas na entrada para os últimos 400 metros, mas aí a correr sozinha viu-se ultrapassada pelo grupo que vinha de trás, que não tinha tentado acompanhar o ritmo de Muir. 

Marta Pen arriscou tudo na noite de Berlim
Fonte: FPA

No final, a atleta reconheceu isso mesmo, mas afirmando que estava feliz por ter tentado, não se mostrando arrependida pela estratégia adotada. Terminou na 6ª posição em 4:06.54. Há dois anos tinha sido 5ª, mas as provas não se podem comparar, pois em tudo foram diferentes. Em Amesterdão, esse 5º lugar de Marta foi alcançado em 4:34.41, numa prova taticamente mais lenta.

A estafeta da sorte e do azar

A participação da nossa estafeta 4×100 em Berlim ficou marcada por vários percalços e volte-faces. A presença portuguesa até chegou a perigar, dadas as condicionantes físicas de Carlos Nascimento e Yazaldes Nascimento, a braços com lesões de última hora. Carlos Nascimento apresentou-se ontem em prova, mas Yazaldes não, sendo que a equipa foi constituída por José Pedro Lopes, Diogo Antunes, Frederico Curvelo e Carlos Nascimento. Nas eliminatórias, alguns problemas na segunda transição, não permitiram um tempo melhor, pelo que 39.09 era o tempo que nos colocava como a nona melhor equipa, ficando a um lugar da final. Mas não! A Itália, uma das candidatas, era desqualificada por passagem fora da zona e Portugal estava na final. Os italianos protestaram – sem sucesso – e os polacos também viriam a ser desqualificados, mantendo-se Portugal seguro na final. Na final, um tempo bastante semelhante de 39.07 segundos colocava Portugal como a sétima nação na estafeta 4×100 nestes Europeus. A vitória iria para a Grã-Bretanha em 37.80 a apenas 0.01 segundos do recorde dos campeonatos e no pódio dois recordes nacionais: um para a Túrquia (em 37.98) e outro para a Holanda (com 38.03). 

Finais do último dia

Salto Com Vara (M): Começamos pelos saltos e começamos pela Vara que teve o concurso mais espetacular de Berlim. Armand Duplantis. Já o conhecem, já sabem o seu nome e isso diz muito de um rapaz de 18 anos. Ainda assim, poucos apostariam que pudesse chegar a Berlim e levar o Ouro ao saltar 6.05 metros, uma marca totalmente estratosférica, que o coloca no Olimpo da disciplina! Obviamente que é um novo recorde mundial júnior (fica a dúvida se algum dia alguém o baterá) um novo recorde nacional sueco e torna-se no segundo atleta (igualado) da história ao ar livre.

Aos 18 anos no topo!
Fonte: European Athletics

Nunca ninguém tinha, também, saltado duas vezes a 6 metros ou mais no mesmo concurso ao ar livre e o jovem prodígio fê-lo, somando o título europeu ao título mundial júnior conquistado no mês passado. Na segunda posição, Timur Morgunov quase passa despercebido por culpa do sueco Duplantis, mas não pode. O russo, de apenas 21 anos, saltou a 6 metros e essa marca apenas não daria para o título em duas edições de Campeonatos Europeus, incluindo a de ontem…é caso para dizer “é preciso galo”! Com o Bronze, na terceira posição, o habitué Renaud Lavillenie (ele que é o recordista mundial, conseguido em pista coberta), teve que se contentar com o Bronze, ao fazer o seu melhor salto ao ar livre da temporada, com 5.95 metros. 

Maratona (M): A Maratona realizou-se na manhã de domingo sem qualquer representante português, tanto no masculino como no feminino (e como custa escrever isto) e com a vitória, nesta prova masculina, de um belga com recorde dos campeonatos. Koen Naert com um tempo de 2:09:51 conquistou o Ouro, a sua primeira grande medalha internacional. No segundo lugar, Tadesse Abraham da Suiça em 2:11:24 e na terceira posição o italiano Yassine Rachik, com recorde pessoal em 2:12:09. 

5000 metros (F): Existia uma grande favorita em prova e muito dificilmente não sairia com o Ouro. Sifan Hassan já este ano bateu o recorde europeu da distância e neste domingo bateu o recorde dos campeonatos em 14:46.12, mostrando mais uma vez uma grande versatilidade na meia e longa distância e um domínio claro nos 5000 a nível europeu, ela que no ano passado foi Bronze nos Mundiais de Londres nesta distância. Alguma surpresa no segundo lugar para Eilish McColgan, na sua primeira grande medalha ao ar livre com um tempo de 14:53.05, depois do 6º lugar em Amesterdão. E se o apelido vos diz algo, têm razão. Ela é mesmo filha de Liz McColgan, uma das grandes da história da Grã Bretanha mas que curiosamente…nunca foi medalhada em Europeus! No terceiro lugar, com o Bronze, a vencedora de há dois anos, a turca Yasemin Can, que correu o seu melhor da época em 14:57.63. A prova ficou ainda marcada por um episódio invulgar: a israelita Lonah Chemtai Salpeter, que havia ganho já os 10.000 metros aqui em Berlim, entrava na última volta colada a Sifan Hassan. Á entrada para a última volta, parou, festejou a Prata e só depois se deu conta que…ainda faltava mais uma volta! Viu-se ultrapassada e cair para fora do pódio, com dificuldade em recuperar o ritmo e para mal dos seus pecados, ainda viria a ser desqualificada por uma infração na fase inicial da prova! 

3000 metros obstáculos (F): Para gáudio dos locais, Gesa-Felicitas Krause fez uso da sua experiência internacional para conquistar a vitória nestes Europeus em casa. Habitual finalista em grandes competições, a atleta revalidou o título que vinha de Amesterdão, numa prova em que controlou como quis, nunca parecendo em dúvida que a sua estratégia viria a dar-lhe a vitória, num ritmo muito semelhante ao de há dois anos. Na Prata, a suiça Fabienne Schlumpf em 9:22.29 e a fechar o pódio a norueguesa Karoline Bjerkeli Grøvdalem em 9:24.46.

Maratona (F): A prova feminina ficou marcada pela imagem de Volha Mazuronak a sangrar bastante do nariz numa fase inicial da prova e a bielorrussa viria mesmo a ser a vencedora da prova, mesmo com um erro perto do final do percurso! Terminou em 2:26:22, apenas seis segundos antes que a francesa Clémence Calvin no segundo lugar e Prata, ela que já havia ganho um medalha em Europeus mas nos 10.000 metros de há 4 anos! No terceiro lugar, Eva Vrabcová-Nývltová (garantimos que está bem escrito), terminando em 2:26.31, um novo recorde nacional. 

4×100 (F): A Grã-Bretanha já era a grande favorita à entrada para esta prova e não apenas por ter uma das estrelas do campeonato (Dina Asher-Smith, que levou para casa 3 Ouros), mas por ter um quarteto bastante consistente e, à partida, sem rivais em pista. Ainda assim, quando Dina Asher-Smith pegou no testemunho no último percurso, as dúvidas existiam. Asher-Smith recebeu em 4º. Terminou em 1º, bem lá na frente, demonstrando mais uma vez porque é a líder mundial dos 100 e dos 200 metros e porque é a nova coqueluche da velocidade mundial.

A velocidade britânica brilhou em Londres
Fonte: European Athletics

No segundo lugar, a Holanda finalizou em 42.15 segundos e a Alemanha com mais um pódio, através do Bronze em 42.23 segundos. 

Lançamento do Martelo (F): Anita Wlodarczyk é única. Não há volta a dar. Ninguém coloca em causa a sua superioridade na disciplina, nunca houve nada como ela e não sabemos quando voltará a haver. Ontem os lançamentos que ia fazendo no aquecimento chegariam para o Ouro na competição, o que prova o nível da atleta polaca. Lançou a 78.94 metros, um novo recorde dos campeonatos e a sua quarta medalha de Ouro consecutiva em Europeus! No segundo lugar, com novo recorde nacional francês, ficou Alexandra Tavernier com 74.78 metros e com o Bronze ficou a polaca Joanna Fiodorow, ao lançar exatos 74 metros. 

Foto de Capa: European Athletics

Pedro Pires

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