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A NCAA vai cair?

Diogo Silva · 9 min

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Os anos passaram e a NCAA cada vez mais tornou-se uma competição influente no mundo do basquetebol. A verdade é que à medida que ia conquistando fãs, ia simultaneamente ganhando mais pessoas em desacordo com o que se passava em redor da liga e com o seu sistema. Os jogadores vêm-se queixando da não remuneração pela prática desportiva, não obstante lhes forneça algumas regalias.

Afinal, o sistema universitário dos EUA está em decadência, ou irá transfigurar-se com os recentes movimentos?

O SISTEMA DÚBIO DA NCAA

Neemias Queta vê na NCAA o meio mais eficaz para atingir o «sonho» da NBA
Fonte: NBA Draft

Nos EUA, um jogador que represente uma faculdade, fica com o status de praticante amador e está impedido receber qualquer remuneração da prática que exerce enquanto jogador-estudante. Todavia este status de amador, o jovem atleta se pretender continuar a prática da modalidade numa vertente profissional, num futuro próximo, está obrigado a levar o basquetebol universitário como a sua principal pioridade, de modo a cativar os olheiros da NBA ou de outras equipas pelo mundo fora, seja para ter o seu nome chamado no «draft» da NBA ou para arrecadar um contrato profissional numa equipa fora dos Estados Unidos da América. Entre os exemplos portugueses que saíram da NCAA ou ainda se encontram presentes temos Neemias Queta e Hugo Ferreira, que olham para a NBA como algo verossímil e um sonho próximo de se realizar através da NCAA, mas também Francisco Amiel e Diogo Brito, sendo que estes dois já percorreram a liga universitária norte americana e agora apresentam contratos assinados em equipas profissionais.

De resto, apesar dos constrangimentos, são várias as regalias fornecidas pela NCAA. Alguns deles são a oferta de uma bolsa de estudos paga na íntegra (isto é se o estudante ficar os anos necessários para se graduar), estadia paga, algum suporte financeiro com alimentação incluída (para cerca 59% dos atletas) e ainda facilidade de acesso às instalações da faculdade para a prática desportiva. Aspetos que em Portugal não é de todo viável, dado ao sistema «basquetebolístico» paradoxo e grácil aquando comparado com os norte americanos.

Todavia as benesses às quais os atletas têm o fortúnio de ter acesso, tem sido vários os problemas suscitados nos últimos anos a este sistema universitário nos E.U.A, sendo que o principal problema assenta-se na não remuneração dos atletas, ao passo que a NCAA ganha bilhões anualmente, à custa dos direitos desportivos dos atletas.

O PROBLEMA ERIGIDO POR LAMELO E RJ HAMPTON

Os problemas em torno da NCAA tornaram-se ainda mais salientes, aquando as estrelas Lamelo Ball e RJ Hampton optaram pela via profissional no ano transato, para posteriormente se candidatarem ao Draft da NBA. A narrativa que um jogador não necessita de passar a exames de matemática ou química para fazer uma carreira naquilo que pretende (basquetebol), foi igualmente catalisada, sendo que ao optar por um meio profissional, os jogadores encontraram instalações igualmente boas, às que encontrariam nos EUA.

A lenda e ex jogador dos Chicago Bulls Scottie Pippen, já veio a público apoiar este tipo de escolhas por parte dos jovens norte americanos, justificando que estes jovens podem, optando por esta rota, apenas e só concentrar-se no basquetebol, sem ter que lidar com os livros.

Para além disto, existe a possibilidade do jogador ganhar milhões por ano, ainda antes de entrar na NBA, como é o caso destes atletas, que para além do salário que auferiam nas respetivas equipas (Lamelo Ball atuou nos Illawara Hawks e RJ Hampton nos New Zealand Breakers) ganharam milhões em contratos assinados com marcas desportivas, algo que caso estivessem na faculdade não lhes seria permitido dado ao status de jogador amador.

MESMO TRAJETO, MOTIVAÇÕES DIFERENTES

RJ Hampton observou a necessidade financeira como prioridade, ou seja, estando na Austrália enquanto profissional permitiu-lhe receber um ordenado que na universidade não lhe era permitido, respondendo a certas necessidades de uma forma mais urgente, podendo assim ajudar não só a si, como também a sua família. Outra elucidação que foi dada por estes jovens, ao facto de «escaparem» à faculdade, está ligada à curta carreira que estes têm à sua disposição. Dito isto, uma lesão na faculdade poderia retirar o jovem atleta da possibilidade de estar na «lotaria» do «NBA Draft», o que poderia significar um revés significativo na sua carreira. Assim sendo, numa liga profissional têm sempre a “almofada” do ordenado que auferem, sendo que mesmo lesionados têm alguma segurança financeira.

Por outro lado, Lamelo Ball não tinha tanto essa urgência financeira dado à saúde económica no qual o próprio estava inserido e por isso, o seu desejo foi entrar numa faculdade prestigiada, seguindo um percurso semelhante ao do seu seu irmão Lonzo Ball.

Todavia a sua vontade, as regras da NCAA não lhe permitiam ingressar numa faculdade. Isto, porque quando tinha 16 anos, não só criou a sua própria marca de sapatilhas (vai contra as regras da NCAA), como também viajou para a LKL, enfrentando a sua primeira experiência enquanto profissional, que consequentemente eliminou o seu status amador. Apesar de ser um talento indiscutível entre os melhores da sua geração (2001) e de ter afirmado convictamente que gostaria de ingressar numa faculdade, a NCAA manteve-se fiel às suas leis, mesmo que isso significasse perder uns «belos» milhões de dólares.

Lavar Ball (pai de Lamelo), declarou que seria muito complicado levar seu filho a alguma faculdade, visto que a NCAA pretendia ratificar um ponto, mas atirou ainda que “Melo leva público às bancadas, trás vitórias e consegue entreter, e que deve ser com este tipo de jogadores que um programa universitário deve pretender começar”. Depois de algumas tentativas de persuasão na procura de levar seu filho para a faculdade, Lavar Ball não conseguiu tal feito, tendo mesmo que levar Lamelo para a rota profissional (novamente), desta feita na Austrália, onde fez cerca de meia temporada e afirmou-se como um dos talentos mais promissores da modalidade (este ano está projetado como uma escolha entre os primeiros três do Draft).

O RISCO DE ESTAR NA NCAA COMPENSA?

Outro problema que levou a grandes críticas à NCAA, por parte de inúmeros jogadores profissionais, foi a lesão de Zion Williamson. Isto ocorreu no dia 20/2/2019, aquando o jovem norte americano sofreu uma lesão no joelho após um rompimento incomum de uma sapatilha. Zion, que era então apontado à 1ª escolha do draft (como se veio a suceder mais tarde), foi obrigado a parar e mesmo que o diagnóstico inicial não tenha sido dos mais graves, acendeu uma luz amarela e gerou uma série de críticas entre os astros da NBA ao sistema de basquetebol universitário dos Estados Unidos, controlado pela NCAA.

Nomes de peso como Isaiah Thomas e DeMarcus Cousins aconselharam Zion Williamson a não atuar mais pela faculdade de Duke e a preservar-se para o Draft da NBA. Apesar da lesão, o extremo poste, como foi referido anteriormente, foi mesmo a primeira escolha no Draft de 2019, e recebeu um contrato de mais de 20 milhões de dólares por três anos. Mas importante sublinhar que nem todos têm um desfecho semelhante. Basta relembrar Bol Bol, na medida que o jovem foi projetado como escolha de lotaria até à grave lesão que sofreria pela Universidade de Oregon, caíndo, à posteriori, para uma das últimas escolhas do Draft de 2019. A culpa da lesão não é naturalmente da faculdade, mas imagine-se o dinheiro que Bol Bol não teria ganho até ao Draft, se tivesse optado por uma trajetória profissional.

Apesar do sucesso de Zion, resultado do seu talento incomum e de ser considerado um fenómeno, como foi mencionado anteriormente, tal não se sucede com todos. DeMarcus Cousins (ex jogador dos Lakers) foi bastante duro com a NCAA, ao passo que após a lesão de Williamson proferiu, em entrevista à ESPN, o seguinte: “com a experiência que tenho hoje, acho que o basquetebol universitário é uma m****. A NCAA é uma m****. Meu conselho é: faz o melhor para ti para a tua família.” O internacional norte americano, depois de uns últimos anos muito complicados resultado de várias lesões, conhece bem os prejuízos que uma lesão pode provocar na carreira de um atleta. Cousins admitiu, contudo, ter gostado bastante do período que passou na universidade de Kentucky, não obstante destacou que o retorno financeiro para os atletas é praticamente inexistente por parte da NCAA. O versado poste questionou ainda o valor dos ingressos para o jogo entre Duke e North Carolina (jogo no qual Zion se lesionou) e como é que este dinheiro beneficia os jogadores das respetivas faculdades.

Após ter sofrido várias lesões ao longo da sua vida profissional, o base de 1.75cm Isaiah Thomas, foi outro jogador a criticar o atual sistema da NCAA.

Num «tweet» o base norte americano afirmou o seguinte: “Deixem essas crianças irem diretamente da Escola para a NBA!!! Tem muita coisa em jogo para arriscar jogar o basquetebol universitário quando se tem uma real chance entre os profissionais. Uma lesão pode mudar a carreira. Zion, senta-te o resto do ano e estaremos prontos para te receber na liga dos adultos”, escreveu Thomas, direcionando no fim, o discurso para Zion Williamson.

Desde 2005, a NBA não permite que se candidatem ao Draft jogadores com menos de 19 anos. Também só pode participar quem terminou a escola há um ano ou mais, medida esta que força muitos atletas a jogarem pelo menos uma temporada na NCAA.

Apesar dos vários constrangimentos, os jovens atletas estão cada vez mais recheados de opções, ao passo que a G-League tem incrementado os prémios e valorizado cada vez mais os jovens que pretendem sair da escola diretamente para a sua liga, oferecendo uma plataforma que lhes permita evoluir e dar o salto posterior para a NBA. Depois de Jonathan Kuminga, Jalen Green e Isaiah Todd, espera-se que haja mais jogadores jovens de classe mundial a preterir a NCAA pela G-League.

Isto é, para quem pretende permanecer no país, visto que o sucesso «overseas» de recentes jogadores jovens norte americanos, fomenta uma «onda» de atletas a optarem cada vez mais pela saída para outros países e outras ligas profissionais.

Resultado disto mesmo, a NCAA estuda uma possível mudança nas suas regras, mas chegará a tempo para evitar uma mudança radical de paradigma? É uma questão que nos próximos cinco anos teremos a resposta.

Para finalizar, a tendência é que a NCAA se desvalorize cada vez mais, à medida que scouts vão, cada vez mais, prestando atenção ao que se passa na G-League e fora do país norte americano, sendo que os recentes exemplos de RJ Hampton e Lamelo Ball poderão ainda mais catalisar futuros jogadores norte americanos a optarem por rotas semelhantes.

Foto de Capa: Duke’s Men Basketball

Diogo Silva

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