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«Somos daqueles países em que o basquetebol é uma modalidade super-super secundária» – Entrevista BnR com Nuno Manarte (Parte I)

Vicente Tigre Avelar · 31 min

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Podes consultar a segunda parte da entrevista AQUI

Nascido e criado em Ovar, Nuno Manarte é um ícone do basquetebol na cidade Vareira, onde reina o basquetebol. Praticando basquete desde pequeno, começou a jogar com sete anos e a sua habilidade sempre foi notória. Com um campeonato Nacional de sub-16 ganho em ’92, o seu talento era reconhecido. Assim, em 1992/1993, Manarte começou a sua carreira profissional ao serviço da equipa sénior da Ovarense. Segundo o próprio, em Ovar, o Basquetebol sempre foi o desporto rei, apesar de nos dias de hoje ser um pouco menos. “Na minha altura, ou se jogava basquete ou se jogava basquete. Na escola, quem tinha uma bola de basquete tinha amigos.”

– Início de carreira e referências –

Bola na Rede [BnR]: A tua ligação ao basquetebol já vem desde pequeno e sempre a representar o mesmo clube. Aos 16 anos, integraste pela primeira vez uma equipa sénior. Como foi começar a jogar por uma equipa profissional e como evoluiu o teu compromisso para com o basquetebol?

Nuno Manarte [NM]: Normalmente diz-se que nós, enquanto miúdos, temos sonhos, e é fácil agora para mim dizer-te que o meu sonho se concretizou, porque essa é a verdade. Eu gostava muito de basquetebol. Nesse ano de sub-16, fomos campeões nacionais e foi algo que me deu alguma motivação e confiança. Comecei a ver o jogo de forma diferente. Se bem que na altura não pensava que ia fazer vida do basquetebol… Gostava? Claro. Pensava nisso? Pois pensava, mas, na altura, era um pouco inconsciente nesse sentido. Mas nunca deixei de, aos 13, 14 ou 15 anos, depois dos treinos, ficar a ver a equipa sénior (na altura treinávamos todos no mesmo pavilhão) e pensar “Isto era o que eu gostava de fazer, isto é o que eu realmente gosto”. Mas longe de mim pensar que isso se poderia concretizar. Não era só a minha vontade que contava. Também implicava o meu talento, o meu sacrifício, ética de trabalho, a qualidade enquanto jogador e depois também ter uma oportunidade e corresponder a essa oportunidade. A verdade é que esse campeonato Nacional de sub-16 me deu alguma visibilidade. Também havia mais jogadores de sub-16 com bastante qualidade para a idade. Esse primeiro ano foi um ano de experiência, era tudo novo para mim. Com 16 anos, já jogar a um nível superior era um misto de entusiasmo e dúvida. Era outra realidade.

BnR: Como assim?

NM: De certa forma era mais fácil na altura. Eu apanhei a fase em que ainda só haviam dois Americanos e o resto eram Portugueses na Ovarense. Depois havia jogadores como o Mário Leite, que tinha sido meu treinador de mini-basquete, portanto havia uma relação muito próxima entre os jogadores da formação e os jogadores da equipa sénior. Quer em termos de proximidade e algum afecto também, pois toda a gente se conhecia, como em termos de reconhecimento, se estiveres a jogar com pessoas que, até há pouco tempo, vias a jogar das bancadas. Havia muito essa cultura – uma cultura muito Vareira, fazendo com que fosse fácil tu te ajustares, pois identificavas-te. Havia poucas equipas com mais do que dois jogadores estrangeiros. Era permitido mais um naturalizado, mas fazia também com que o processo fosse mais fácil, mesmo em termos de treinos e comunicação, ou até de viagens. A cultura e a forma de estar não foi algo estranho para mim. Imagino que teria sido mais difícil se fosse uns anos mais tarde, quando já existia a possibilidade de metade da equipa ser estrangeira. A partir daí, foi uma transição facilitada, apesar do primeiro ano ter sido um ano de experiência, até por eu fazer as duas equipas (Juniores sub-18 e equipa sénior). Passava mais tempo na equipa júnior, na qual jogava mais, e na equipa sénior ia aos jogos, equipava e aquecia, mas apenas jogava os últimos minutos, quando os jogos estavam ganhos por muitos pontos, ou quando já não havia a hipótese de ganhar.

Em 1991/1992, Nuno Manarte foi campeão Nacional de sub-16, o ano anterior a integrar a sua primeira equipa sénior
Fonte: Fernanda Manarte

BnR: O teu jogador preferido é o John Stockton. Sentes que o teu jogo refletia isso?

NM: Eu penso que foi mais ao contrário. Só mais tarde é que comecei a ver a NBA. Não víamos na altura, não era como nos dias de hoje. Quando era miúdo, via ao sábado de manhã uma rubrica de João Coutinho, se não me engano, que era sobre NBA. Chamava-se a “Magia da NBA”, que era raro ver. Mas não havia tanta informação. Tínhamos as referências habituais, como o Larry Bird, Magic Johnson e Michael Jordan, mas não era tão fácil identificares-te com quem quer que seja. Então apenas mais tarde, com a definição da minha posição e características enquanto jogador, é que ia valorizando coisas que… não o fazia como forma de espelho, não é? O John Stockton era um jogador low profile, muito discreto, mas que punha a equipa a jogar. Valorizava muito os jogadores que estavam a sua volta, tinha presença em campo, presença defensiva e fazia o chamado “trabalho sujo”, que, muitas vezes, nem dava para perceber. E isso agradava-me! Primeiro por ser um Base de raiz, um Base puro, de pôr a equipa a jogar, que eram as minhas características enquanto jogador – o que fez com que me chamasse a atenção. Passava algum tempo a escrutinar o que ele fazia e porque o fazia, vendo coisas como a forma como ele fazia bloqueios. Uma história engraçada com um americano que jogou cá: o John Tomsich perguntou-me qual o jogador que melhor fazia bloqueios na NBA. À partida, seria um interior, um jogador alto e forte que fizesse bloqueios grandes no diretos e indiretos. E eu, por tanto escrutinar o John Stockton, disse-lhe “é o John Stockton”, pois eles (os Utah) tinham imensas situações de cross-pick com o John Stockton e Karl Malone. Os bloqueios eram bem feitos e ele ainda sacava umas faltas e assim. Mas disse-lhe isso a achar que estava a dizer uma brincadeira, pois pensava isso, e também não tinha uma resposta clara. Achei que, para a sua estatura, fazia bons bloqueios.

BnR: E ele?

NM: Ele ficou a olhar para mim e disse: “Não me acredito que disseste isso, pois eu penso exatamente o mesmo”. O que foi curioso, por causa da coincidência da pergunta dele com o facto de eu escrutinar o jogo de John Stockton, até a forma como ele fazia bloqueios. Penso que seja um pouco por aí. Não era um jogador muito vistoso, e eu valorizei coisas que ele provavelmente também valorizaria. Acho que essa foi a questão principal. O que não significa que não goste do Jordan, do Magic ou do Bird, que também gosto muito por fazer o trabalho sujo e perceber muito o jogo. Sempre foram jogadores que me chamaram a atenção. Penso que, no mundo do desporto, fala-se muito de jogadores que têm imenso talento e realmente é uma parte importante do jogo. Mas fala-se pouco de jogadores que trabalham imenso, que por vezes não têm tanto talento, mas que fazem um trabalho muito low profile e que é fundamental nas equipas, e acho que, principalmente nos dias de hoje, valoriza-se pouco esse tipo de jogadores.

BnR: Ainda por cima numa época em que os jogadores eram maioritariamente altos e fortes… o Stockton era um jogador mais baixo e, na época, a diferença de alturas era mais visível do que nos dias de hoje, em que se joga o chamado small-ball.

NM: Sim, na altura havia as posições muito bem definidas. Tínhamos os postes, extremos e os quatros (extremos postes). Na altura, os três (extremos) eram jogadores muito grandes, era quase quatros. Eram jogadores que ainda iam jogar a poste-baixo, pois tinham algum tamanho. Existiam as posições muito definidas, já que era mais complexo nesse sentido, e apanhavam-se jogadores muito maiores. Nos dias de hoje, o jogo é um pouco diferente. Eu olhava para o Stockton e pensava: “Como é que é possível, no meio de tanta gente grande, acabares um jogo com 20 pontos e 15 assistências? Um jogador com aquele físico ter aquele impacto no jogo na altura?”. Entretanto, nos dias de hoje, é possível ver jogadores com menos físico.

– O primeiro campeonato nacional, o “vício” de ganhar e o desejo de colocar a Ovarense no topo –

BnR: Corria o ano 2000 e tu tinhas sido campeão nacional da Liga Portuguesa. Recordas-te do que sentiste nesse momento, quando deste o segundo campeonato profissional à cidade de Ovar?

NM: Sim, como é óbvio, tenho certas lembranças de todos. Há pouco falamos do campeonato de sub-16, que também o tenho marcado, mas de uma forma diferente. Na altura, jogávamos um basquetebol puro, sem ser a nossa profissão, e por ser com os colegas e os amigos. Era puro gosto pelo jogo e pelo ambiente que íamos criando, o que me marcou muito. Depois, marcou-me também o primeiro na Liga Profissional, pois era um campeonato do qual nós não estávamos à espera. Nesse ano, o Porto dominou a Liga. Nós perdemos todos os encontros com eles, e perdemos bem. No entanto, nós éramos a segunda melhor equipa do campeonato, não havendo muitas expectativas em relação a esse ano. Mas a verdade é que as coisas aconteceram e nós até ficamos um pouco surpresos. É curioso, já que, devido a isso, nunca entramos em nenhum tipo de euforia. A final foi contra o Porto e os dois primeiros jogos foram no Américo de Sá, na altura ainda se jogava lá. Lembro-me de que ganhamos o primeiro jogo com uma bola do David Berbóis no último segundo. Eu quase não a vi. Mal a bola entra, nós corremos para o túnel, para o balneário, pois lá era sempre complicadíssimo. Ainda ficamos um pouco à espera para saber se a bola contava ou não, depois lá soubemos que sim e que tínhamos ganho o primeiro jogo. O segundo jogo já o ganhamos de uma forma mais confortável. Difícil, mas menos complicado. Lembro-me de vir no autocarro à vinda para Ovar e do silêncio, que era estranho. Depois de estarmos a ganhar 2-0 a uma equipa que nunca tínhamos ganho, estávamos a uma vitória de sermos campeões (na altura era a melhor de 5), e lembro-me de, mais tarde, falarmos disso e acharmos aquele silêncio um pouco estranho. Poderíamos estar eufóricos em relação à situação. Talvez nem nós acreditássemos que poderíamos ser campeões. Reconhecíamos que éramos fortes, mas realmente o Porto tinha sido muito superior nessa época, e era uma equipa difícil de alcançar. E eu pensei “Ninguém está a celebrar? Ninguém está eufórico?”. O que pode também significar que a nossa equipa era boa, como é óbvio, mas que tínhamos chegado a um grau de maturidade diferente. Tínhamos entendido o momento como “Estamos a ganhar 2-0, mas ainda não ganhámos nada! Temos de esperar pelo terceiro, para depois festejar”. Fui curioso, porque a equipa foi crescendo ao longo da época. Tivemos um americano na parte final da época, o Nate Johnson, que também veio adicionar alguma qualidade. Chegámos a final no nosso melhor nível. Tirando o primeiro jogo, os jogos foram algo desequilibrados, tendo o terceiro sido muito desequilibrado. Lembro-me de um ambiente no Raimundo Rodrigues indescritível.

Nuno Manarte integrou o plantel de 1999/2000, à esquerda o nr 7, que trouxe apenas o 2º campeonato ganho ao Clube
Fonte: Ovarense

BnR: Tendo apenas 25 anos, como encaraste o teu “próximo passo”?

NM: Eu não sou o tipo de pessoa que me organizo dessa forma. Eu não projeto muito as coisas a longo-prazo. Penso que às vezes o deveria fazer um pouco melhor. Não faço esse planeamento de “Ok, este ano vou sair e vou jogar ali; no ano a seguir, quero ir para o estrangeiro”. Eu não pensava nisso, sempre deixei as coisas acontecerem muito naturalmente. Lembro-me que, após esse ano, aconteceu algo que me marcou em relação àquilo que era a equipa. Nunca fui um jogador determinante nas equipas, era um jogador de papel secundário, que fazia todo o tipo de trabalho que pouca gente faz, e, nesse ano, foi a primeira vez que tive a noção de que, quando a equipa se sai bem e ganha, a tua questão individual também é valorizada. Lembro-me, não só nesse ano, mas noutros nos quais também fomos campeões, de que as condições contratuais subiam bastante. As nossas condições financeiras aumentavam, o que era sinónimo de a equipa estar bem. Este entendimento, que me acompanha desde então, faz-me pensar “Eu não era um jogador determinante, mas, independentemente disso, fazia parte de uma equipa que foi campeã. E, não só fui campeão, como também ganhei coisas individualmente, e a minha situação melhorou“.

BnR: Mas esse pensamento não existe nos dias de hoje?

NM: Penso que seja algo que hoje em dia existe menos. Esta visão coletiva – entender que, não importa se sou eu que meto 20 pontos e a equipa até perde, eu não devo ser valorizado. Tem de ser exatamente o contrário. Em vez de 20, marco 10 pontos, mas equipa ganha e eu faço as coisas que tenho de fazer para ajudar a equipa a ganhar, sejam elas quais forem. Sei que, se a equipa ganhar, eu vou ganhar também. Essa foi uma das coisas que me surpreendeu na altura. Era mais novo e havia coisas que eu não entendia porque ainda não tinha maturidade e experiência necessária. Coisas como a equipa ser mais importante do que o jogador – que é muito bonito de se falar e que se entende, mas, realmente, quando se sente na prática que isso é mesmo real, valoriza-se ainda mais. E a verdade é que, sempre que a equipa ganhava e estava bem, eu também ganhava com isso, e as minhas condições também melhoravam. O argumento de se ser da equipa campeã é depois também reconhecido, pois tu ajudaste para que a equipa lá chegasse.

BnR: Nas temporadas que se seguiram, venceste também uma Taça da Liga 2001, duas supertaças (2001, 2002) e ainda um torneio de campeões em 2005. Este sucesso a materializar-se, com a chegada de títulos ao clube que de antes simplesmente não aconteciam, foi algo que sempre previste para a Ovarense e para ti como jogador?

NM: Não me lembro, porque, provavelmente, não tinha as coisas tão organizadas nesse sentido. Sempre tive uma costela de paixão pelo jogo, claro que gostava de ganhar. Depois de ser campeão e alcançar algo a esse nível, fica-se com o sabor de vencer. É algo em que se “vicia”, que se quer sempre sentir assim. Após se ganhar a primeira vez, depois só se quer é continuar a ganhar. Queres manter essa sensação e ter outra vez esse sentimento. Realmente, nesses anos, a Ovarense investia muito bem no Basquetebol, havia muitos bons orçamentos… mas não era só a Ovarense. Havia muito boas equipas com bons orçamentos, e muitas nem associadas a um clube de futebol. Lembro-me da Telecom que investiu bem; também o Porto, que saiu e depois entrou; o Benfica, claro; e também existia os Estrelas da Avenida. Sendo uma Liga bastante competitiva, não havia, à partida, um candidato ao título que fosse claro. Houve alguns anos em que o Porto, com o Jared Miller, dominava. Mas depois as coisas eram realmente pouco claras, não havia três favoritos como há nos dias de hoje. Havia orçamentos maiores, mas as diferenças de uns para os outros não eram muitas. Acima de tudo, havia muita qualidade em muitos plantéis, muitos com bons jogadores portugueses, provavelmente a melhor geração do basquetebol que houve em Portugal, com o Paulo Pinto, o Sérgio Ramos. Havia muita competitividade. Nessa altura, de facto, ganhamos algumas Taças e torneios, mas nunca chegamos outra vez ao Campeonato. Se bem me recordo, só voltamos a chegar a uma final de campeonato em 2004/2005, frente ao Queluz, mas lutávamos nas finais das taças e torneios de campeões. Competíamos sempre. Mas como existiam equipas com bom nível, era muito difícil ganhar. Na altura, era muito competitivo, não era fácil ganhar como hoje. Por exemplo, numa final-8 da Taça de Portugal, talvez apanhes duas ou três equipas que sejam mais acessíveis e que te façam conseguir descansar nas primeiras rondas. Só nos jogos finais é que tens jogos a valer, na meia-final e na final. Na altura não! Todos os jogos eram “picadinhos”, pois existia um equilíbrio muito grande e era difícil ganhar alguma coisa devido a esse tal equilíbrio. Eu não agendava isto. Agendava voltar a ganhar, ser campeão, ter a mesma sensação e ver a Ovarense no topo. Esse era o objetivo. O clube trabalhava bem, mas havia também outros clubes a trabalhar bem, não havia nenhum segredo para o sucesso. Nesse primeiro ano, houve um alinhar de muitos factores, um processo de crescimento muito grande da equipa, com muito mérito do professor Jorge Araújo e também dos jogadores que foram capazes de alinhar todos num só sentido. Era uma equipa que ainda tinha alguns egos, jogadores que eram inicialmente muito individualistas, e foi engraçado ver como tudo se alinhou no final.

– Os altos e baixos do mítico tri-campeonato –

BnR: Assim chegamos à temporada de 2005/2006: o primeiro campeonato do mítico tri-campeonato (e também o primeiro desde 2000). Recordas-te dessa pré-época? Recordas-te das previsões feitas por ti e pelos técnicos que vos rodeavam?

NM: Lembro-me do final da época anterior, na qual tínhamos ido à final com o Queluz, onde perdemos 3-0. Lembro-me da sensação da impotência, pois tínhamos chegado à final e “morremos na praia”. Deu um gosto amargo, porque entras a época seguinte a pensar nisso. “Foste à final mas és o primeiro dos últimos”. Lembro-me que, nesse ano, o Henrique Vieira fez um recrutamento de quase todos os jogadores que tinham jogado na Liga no ano anterior. Jogadores com qualidade e que se identificavam. A equipa estava bem e com um núcleo de jogadores muito fortes: o Heshimu Evans, o Jared Stephenson, entre outros. A equipa tinha argumentos nesse sentido. O único jogador no qual havia desconhecimento total era o Ben Reed. Uma história engraçada: recordo-me de estar eu e o Nuno Perdigão na padaria em frente ao pavilhão onde tomávamos café e de ver um rapaz de estatura média, um pouco forte e de mochila ao ombro a ir para o pavilhão. Na altura, sem Internet, havia um desconhecimento total das coisas e nós não sabíamos quem era e comentamos “Olha se calhar é este americano que vem e nos vai ajudar a ser campeões”. Quando chegamos ao pavilhão e o vimos, benzemo-nos e pensámos “Estamos feitos”. Mas a verdade é que se veio a revelar fundamental para a conquista do tri-campeonato. Havia realmente expectativas altas face à época anterior, porque, devido ao talento individual, havia bons argumentos. Mas existia o CAB Madeira, que tinha boa equipa nessa ano, e o Queluz, que tinha sido campeão no ano anterior e era muito forte. Íamos lutar para ganhar tudo, como é natural, mas também tínhamos os pés bem assentes no chão.

BnR: Claro.

NM: Lembro-me que esse foi um ano atípico. O Porto estava a um bom nível, o Benfica estava a um bom nível, o Queluz estava a um bom nível e nós ficámos em segundo lugar na fase regular. Mas o que foi curioso foi que o Ginásio Figueirense ficou em 8º e chegou à final, a cinco jogos, quer nos quartos de final, quer na meia final, e nós fomos a 5 jogos com o CAB. Tinham um jogo bastante agressivo, com pressões a campo inteiro e realmente a série mais difícil foi os quartos de final com o CAB. Ganhámos 3-2 com um tiro de Ben Reed no último segundo. Era uma equipa que nos provocava muito desconforto, também pela pressão. Depois íamos acompanhando as outras séries e ganhávamos as nossas e tal. Esses quartos de final prepararam-nos muitíssimo para a meia-final, e foi fácil ganhar ao Queluz naquele ano, pois vínhamos com um ritmo brutal – o CAB obrigava-nos a jogar a esse ritmo. Ah, e claro, depois íamos acompanhado o Ginásio a ganhar ao Benfica, 3-2, a ganhar ao Porto, 3-2, sempre na negra e fora! Não é? E tudo com uma equipa muito limitada, tinham cinco jogadores, às vezes lá jogavam com seis. Mas pronto, depois acabamos por ganhar 3-0, também de uma forma mais tranquila. Era curioso, porque nós, às vezes, sentávamo-nos no café a ver os quintos jogos e dizíamos “Olha já foi este, melhor para nós”, quase como não respeitando o Ginásio, não é? E dizíamos “O Ginásio arrumou o Porto, porreiro, o Ginásio arrumou o Benfica”.Depois apanhamos o Ginásio na final e pensávamos “Eles estão a abrir o caminho para ganharmos”. Nessa fase, as coisas foram mais simples, pois eles têm mérito de ganhar 3-2 mais 3-2. Mas como eles jogam só com cinco jogadores, as coisas em algum momento vão cair para o nosso lado. Penso que a questão física foi muito determinante. Eles tinham feito um trabalho brutal, mas nós também já vínhamos avisados – eles tinha, ganho duas séries, mas com uma equipa bastante inferior (não perdendo o mérito”). Outra curiosa desse ano é que, apesar da equipa ter aspirações, não fomos a final-8 da Taça, perdemos com o CAB. Uma equipa como a Ovarense nesse ano ficar de fora da Taça causou muito burburinho, e, realmente, não conseguimos entrar em nenhuma competição.

BnR: O que aconteceu depois?

NM: Recordo-me de virmos desse jogo da Madeira, em que ficamos de fora da Taça de Portugal, e de haver um jogador que eu também admiro muito, o Ian Stanback. Era um líder silencioso, mas um líder a valer. Ele disse-me, já que eu era capitão na altura, “Noca, tens de marcar uma reunião. Temos de falar só nós, os jogadores”. No treino seguinte, marquei a reunião apenas com jogadores, e falei um pouco no início. Depois entrou o Stanback, que era um líder por exemplo. Não falava muito, mas quando o fazia, toda a gente baixava a cabeça para ouvir. Quando ele falava, falava bem. Lembro-me de que ele trazia um papel e começou a dizer tudo aquilo que ele achava “pim pim isto…. tu aquilo… tu tens de fazer assim e fazes assim… tens de fazer mais, tens de fazer menos…”. Ninguém abriu a boca, e a partir daí… não sei, até hoje não podemos tirar conclusões à repercussão do impacto que isso teve. A verdade é que eu acho que havia um problema de egos nessa altura. Essa conversa foi acesa, foram apontadas algumas coisas aos jogadores olhos nos olhos – coisas que tinham de melhorar -, e ele foi claro e direto com toda a gente, não esteve a “cuspir para o ar”, como se costuma dizer. Ele virou-se mesmo para o jogadores e disse “Tu tens de deixar de fazer isto e fazer assim… tu fazes assim e tens de fazer assim..” e foi muito personalizada a intervenção dele. Como ele pouco falava, nessa vez falou duro. Havia jogadores que vinham de outras equipas e tiveram de desempenhar outro tipo de papel. A equipa, nesse ano, tinha um leque muito forte de jogadores bons, mas que tinham de aprender a jogar juntos. Lembro-me de que isso me marcou, pois achei que a intervenção do Ian foi fantástica. A equipa acabou por nunca se partir, não entrar em conflitos e conseguiu ganhar com alguma facilidade, com outros fatores a mistura. E acabamos por ser campeões.

Manarte sagrou-se Tri-Campeão Nacional pela Ovarense (2006, 2007 e 2008)
Fonte: Ovarense

BnR: Seguiram-se vários anos no “topo do país” com um tri-campeonato (2006, 2007, 2008), algumas taças e super-taças pelos meio e ainda, em 2009, mais uma taça de Portugal. Como foi gerido todo esse sucesso, tanto pela Ovarense, como por outros jogadores que também cá ficaram?

NM: Após esse primeiro ano, já tinha existido um grande investimento e os jogadores que tínhamos já vinham com bastante qualidade. No tri-campeonato, a equipa teve três treinadores diferentes. No primeiro ano, foi o Henrique Vieira, que foi embora; no segundo, foi o Luis Magalhães, que treinou até dezembro do ano a seguir; e depois, foi o Povea. A equipa teve três treinadores em três campeonatos diferentes, algo curioso, mas manteve alguma base daquilo que eram os jogadores. O Ben Reed manteve-se os três anos, o Miranda chegou no segundo e manteve-se para o terceiro, o Cordell Henry fez os dois últimos anos, o Perdigão também fez esses dois anos. Mas havia uma certa consistência: entravam uns, saíam outros. Havia uma necessidade constante do clube ir ajustando, pois ganhas uma vez e depois queres ganhar outra vez. Para isso, podes sempre ajustar a equipa. Também há sempre jogadores que saem, principalmente os estrangeiros. Do primeiro para o segundo ano, houve algumas saídas. Mas do segundo para o terceiro, já houve alguma consistência na continuidade. A equipa tinha atingido um patamar, quer em termos de qualidade, quer em termos de orçamento, que era brutal. No tri-campeonato até se dizia que a equipa era a Dream Team, porque realmente havia muita qualidade. Nunca tinha estado numa equipa com tanta qualidade como no ano do Bi-campeonato, no ano do Magalhães. Tínhamos o melhor poste português da altura, o Elvis, e tínhamos o Graham Brown, o melhor poste estrangeiro. Havia três bases capazes de jogar, mas, de início, havia uma competitividade brutal. A nível de treino, muitas vezes era o Mota (Rui Mota), que tinha vindo do Porto, o 11º jogador e o Neves (Fernando Neves) o 12º. Havia muita qualidade na equipa. Depois ainda havia o espírito do Magalhães de incutir a competitividade em nós e na equipa. Havia treinos duríssimos. Ninguém gostava de perder, nem que fosse só aos lançamentos – havia muito esse espírito. A partir daí, acho que foi tudo muito natural. Foi um projeto de dois, três ou quatro anos, no qual houve alguma consistência. A equipa quis-se manter no topo do basquetebol e acabou por fazer de tudo para ficar. Teve um recrutamento bastante bom. Lembro-me de que o Shawn Jackson também era um líder incrível, da entrada do Miguel Miranda, outro jogador importantíssimo para os campeonatos, e apontávamos ainda para a revalidação do titulo. Os jogadores sabiam que, se fossem para a Ovarense nesses anos, corriam o sério risco de serem campeões outra vez, e era essa a visão.

BnR: Uma visão vencedora com muito sucesso à mistura.

NM: Hoje, toda a gente se lembra dos campeonatos, mas ninguém se lembra de que, no ano do Tri, perdemos a meia final da Taça de Portugal contra uma equipa da Proliga (que, na altura, era o Vitória de Guimarães) por um e nos últimos segundos. Foi uma catástrofe! Depois eles até ganharam uma Taça de Portugal. Penso que foi a primeira e única vez que uma equipa da Proliga ganhou a taça. Ganharam ao Porto na final também por um. Eles tinham boa equipa, mas não deixava de ser uma equipa da Proliga com apenas dois estrangeiros. Aí tudo podia ter abanado, mas a malta tinha já um ADN muito especifico. Lembro de uma coisa curiosa. Numa reunião de jogadores após termos perdido a final, o Ike Nwankwo levantou-se e disse “Alguém se lembra de quem ganhou a Taça em 1990 e tal?”. Ficámos a olhar uns para os outros… “Mas lembram-se de quem foi campeão, não é?”. Realmente é muito mais importante ser campeão do que ganhar uma Taça, e já tínhamos isso como um lema: “Ninguém se vai lembrar de quem ganhou a Taça ou a taça da liga, lembram-se é do campeão”, que é a taça mais importante. Nesses anos todos, sempre tivemos dificuldades em ganhar tudo, o que penso que foi algo que nunca aconteceu na historia do clube. Uma historia curiosa dessa Taça de Portugal de 2009 é que foi a primeira taça que ganhei, e é única que tenho. Em 11 finais da Taça de Portugal, ganhei apenas uma. Na altura também tínhamos a desculpa de o campeonato ser o foco principal, mas penso que, pelo menos no que diz respeito a taças de Portugal, poderíamos ter algo mais. Em 11, era de esperar umas 3 ou 4 pelo menos, não é? Imagina em 20 anos ir a 11 finais e não conseguir ganhar umas 4 ou 5 (seria o normal ter uma percentagem algo superior). E pronto, o foco era mais nos campeonatos. Tanto no Bi como no Tri poderíamo-nos enganar num ou outro jogo, mas seria difícil enganarmo-nos em três jogos.

A única taça de Portugal que ganhou, e apenas a 3ª na história do clube, foi na época 2008/20099
Fonte: Ovarense

BnR: Que altos e baixos te recordas de sentir durante todo esse período?

NM: Falei-te num deles, não é? Tu ganhas uma vez com uma boa equipa, a equipa depois é melhorada, as expectativas aumentam e para os outros tornamo-nos num alvo a abater. Agora falamos com um sorriso nos lábios quando nos lembramos desse Bi-campeonato e do Tri-campeonato, mas foram anos que não foram fáceis. Cada jogo que tu perdias era como se tivesses perdido dez seguidos. Existia uma onda de otimismo na equipa, com expectativas super altas, que eu penso que era normal de as ter. A equipa apelidada de “Dream Team” não podia perder, e toda a gente jogava contra nós o melhor basquete que poderia jogar. Por isso, no caminho, tivemos muitos contra-tempos. Não fomos à final-8 da taça com o CAB; no ano a seguir – já não me recordo, talvez uns anos depois -, perdemos a meia-final da Taça de Portugal com o Guimarães, que foi… quer dizer, nem te imaginas, não é? Nós fomos para Elvas. Nesse dia, estávamos a chegar lá para o jogo da meia final. Tínhamos ganho os quartos e íamos jogar a meia final com o Guimarães. Lembro-me de estarmos a ir para o pavilhão em Elvas, fronteira com Espanha, e de estarem a chegar uns casais de Ovar, que são uns senhores que sempre acompanhavam o Basquete, e dizerem “Ah, viemos hoje e já temos marcado o hotel para amanhã e tal…”. Eram uns seis ou sete. Uns senhores super simpáticos, acompanhavam sempre a equipa. No final do jogo, quando perdemos, as primeiras pessoas que encaramos primeiro foram elas.

BnR: Como reagiram?

NM: Elas batiam-nos nas costas e diziam “Ah… não sei quê… paciência e tal… nós vamos cá ficar na mesma, já temos o hotel marcado e vamos ficar”. Isto para te dizer que foi uma viagem longuíssima, de quase não falar, de te sentires um pouco… não digo envergonhado, porque não tinhas sido mau profissional, nem nada que se pareça. Mas questionavas muitas coisas, não é? Questionavas a capacidade da equipa, pois tinha sido um ponto muito baixo. Não é para desrespeitar o Guimarães, que, na altura, tinha uma equipa bastante boa para a Proliga, mas, realmente, nós devíamos ter passado por cima deles. Eles também tiveram mérito, como é óbvio, mas isto gerou uma onda de contestação muito grande que só parou quando ganhamos o Tri-campeonato. Essa equipa tinha pouca margem de erro, o que é duro. Porque é fácil chegar lá acima, difícil é manteres-te lá. E quando vens de cima para baixo, depois tudo te empurra ainda mais para baixo. Ninguém te ajuda a ir para cima outra vez, porque depois gera-se a onda contrária, a onda negativa que põe as equipas muito para baixo. E a gestão dessas emoções e dessas expectativas não são fáceis. Os treinadores tiveram muito mérito, pois conseguiram que a equipa tivesse um trilho muito claro e que tivesse os focos bem apontados em relação àquilo que queríamos: mais do que ganhar uma taça, era ganhar o campeonato.

– A experiência nos campeonatos europeus, a cultura do basquetebol na Europa e a despedida –

BnR: Agora gostava de abordar um ponto em que as equipas portuguesas têm pouco sucesso, que é a nível de campeonatos europeus. Tiveste a oportunidade de jogar alguns, pré-eliminatórias e fases de grupo. O que mais recordas desses tempos e o quão diferente era o nível de basquetebol?

NM: Bem, têm várias fases. Lembro-me do ano que iniciei, 1992/1993, em que a equipa já tinha essa oportunidade de jogar ligas Europeias. Uma primeira fase com apuramentos; numa fase mais tardia, já entravamos em fases de grupos. Mas, realmente, tirando uma ou outra excepção, existia uma diferença muito grande no que toca à qualidade do basquete. Já na altura havia uma diferença em relação aos orçamentos das equipas, e estamos a apontar para cima. Nós ganhávamos contra equipas que jogavam um basquetebol inferior, como a Áustria, o Luxemburgo, por aí. Mas sempre que apanhávamos uma equipa de Espanha, de Itália, Alemanha ou França, que, ainda hoje, são os melhores campeonatos da Europa, nós tínhamos imensas, imensas dificuldades.

BnR: Eram muito superiores?

NM: Notava-se, realmente, que já havia uma qualidade bastante superior, um ritmo bastante superior. Já eram profissionais há muitos mais anos do que nós. Havia um conhecimento muito mais claro em relação ao que era jogar basquetebol na Europa. Existiam jogadores com muitas experiências de Ligas europeias, e nós depois éramos levados. Porque o clube até podia estar a jogar as ligas Europeias há cinco ou seis anos, mas os jogadores tinham as primeiras experiências. Lembro-me disso, das coisas boas de viajar. Desde muito cedo viajei bastante, conheci outras culturas, e tudo isso teve impacto, tanto a nível cultural como desportivo, em termos da outra realidade europeia do basquete. Lembro-me de me sentir um profissional nessa altura, porque nós jogávamos sábado, domingo descansávamos e segunda viajávamos. Éramos profissionais ao mais alto nível e era espetacular. Era treinar e jogar, treinar e jogar… e gostaria que agora fosse assim, que ainda houvesse essa possibilidade de encarar o basquete dessa maneira. Era experiência que ias ganhando. Numa fase inicial, era sempre muito difícil. Havia muitas dificuldades, duvidavas das tuas capacidades… penso que eu e todos. Mas depois também sentias que isso tinha um impacto em ti diferente, fazia-te crescer enquanto jogador, fazia crescer a equipa. Era aquela velha máxima de, quando se joga Europa e campeonato, o campeonato era prejudicado, pois tínhamos piores performances – era verdade. Mas depois, passado duas ou três semanas de teres sido eliminado, a equipa entrava num ritmo completamente diferente. Trazias toda essa bagagem Europeia que te fazia crescer ou crescer, não havia outra hipótese. Mas o que mais me marcou foi jogar a Euroliga.

BnR: Porquê?

NM: A Ovarense na Euroliga não ganhou nenhum jogo. Estivemos encostados em três ou quatro, mas não há vitórias morais. O que mais me marcou foi haver um ano em que jogámos cá com o Olympiacos, perdemos por 49 e tínhamos equipa de Euroliga. Uma equipa interessante, preparada para jogar, a um nível inferior, mas preparada. E o Olympiacos veio cá jogar e, desde o minuto 1′ até ao minuto 39′ ou 40′, jogaram como se estivessem a perder. E a coisa que mais me marcou na altura foi pensar “Porra, caramba, vocês estão a ganhar por 40. Relaxem um pouco”. Hoje penso nisso e percebo que eles é que tinham mentalidade de campeões. Respeitavam o jogo e respeitavam a equipa. Independentemente de estarem a ganhar por dez, ou perder por dez, a mentalidade era sempre a mesma. Passaram por cima de nós por completo, desde o minuto 1′ até ao minuto 40′. Isso marcou-me, porque eu estava a jogar no minuto 40′. Eu estava em campo e parecia que era a minha equipa que estava a ganhar por 40. Eles estavam a pressionar campo inteiro, a fazer tudo, a roubar bolas e tal. Ganhar por 40 não chegava para eles, eles queriam ganhar por o maior número possível de pontos. E eu pensei “Isto é que é jogar ao mais alto nível, isto é que é mentalidade de campeão!”. Foi o que mais me impressionou na altura.

BnR: Recordas-te de mais alguma coisa dessa altura?

NM: Toda envolvência de um jogo do Real Madrid, ou de um Olympiacos. Quando vais lá jogar, andas na rua, e lembro-me de, no PAOK, as pessoas conhecerem-nos. Saíamos do aeroporto e as pessoas pediam-nos autógrafos – as pessoas locais, por serem o tipo de fanáticos que têm cadernetas autografadas com os jogadores e todas as equipas, e que depois fazem uma coleção. Eles conhecem-te, eles sabem o teu nome. Havia um fanatismo na Grécia, em Espanha… sempre muito bom. Principalmente na Grécia, havia um fanatismo muito grande, não só em relação aos jogadores Gregos, mas também em relação ao basquetebol no geral. Tinham um conhecimento do jogo brutal. Jogavam num pavilhão que leva umas 10 mil pessoas. Era tão grande que havia uma pista de atletismo à volta do campo. Não encheu, como é óbvio, mas eles entendiam o jogo. Todo o burburinho que havia, quando fazias uma má jogada, como se o público dissesse “Este jogador é tonto”… eles entendiam, sabes? Quando fazias uma boa jogada, eles também aplaudiam e sabiam reconhecer. Havia uma cultura de basquetebol muito específica a esse nível. Os jogadores de basquetebol já eram muito idolatrados, mesmo antes de terem o sucesso que têm agora. São ídolos para os miúdos. Abrem-se os telejornais com o basquetebol em Espanha e na Grécia. Nós somos daqueles países em que o basquetebol é uma modalidade super-super secundária. É verdade que hoje não temos razões para isso.Podemos dizer que os Espanhóis foram campeões do mundo, pois foram, mas já havia esta cultura antes de eles terem todo este sucesso – provavelmente, uma coisa também ajuda a outra. Eles gostam do basquete, o desporto ganha mais visibilidade, também atrai mais empresas, o que faz com que a qualidade também aumente. É o efeito bola de neve. Isto tudo impressionava-me, pois eu era um miúdo que morava na rua do pavilhão e que, de repente, se pôs a olhar para cima, com todas estas experiências, umas condições de treino, com pavilhões e coisas que, se não fosse o basquetebol, não teria oportunidades de ver e conhecer. Se calhar nunca imaginei que um dia chegaria a esse nível.

Manarte despediu-se das 4 linhas num jogo de apresentação da pré-época de 2012/2013
Fonte: Nuno Manarte

BnR: Já és treinador da Ovarense desde a temporada de 2012/2013, sendo que fizeste uma transição rápida de jogador para treinador. Lembro-me do teu jogo de despedida e de toda a envolvente do tributo do clube pela tua partida como jogador. Nesse momento, o que é que sentiste? Sentiste que foi a altura certa? Alguma saudade?

NM: Senti uma tristeza enorme. Antes desse jogo – não tenho vergonha nenhuma de te dizer -, as lágrimas caíram-me dos olhos. Estava em casa, a preparar aquilo que ia dizer. Disseram-me que tinha de dizer algumas palavras, e eu achava aquilo um momento tão importante que não queria deixar escapar ninguém. Cada vez que escrevia uma frase, lembrava-me de algum momento e as lágrimas caíam de uma maneira descontrolada. Sou um tipo emocional, mas perder o controlo em relação a algo é sempre complexo. E chorei bastante a pensar nesse momento… já era na época a seguir e já estava como adjunto do Carlos Pinto. Essa transição para mim foi, por alguns motivos, fácil de acontecer, mas foi difícil de a suportar. Eu gostava de jogar, gostava de treinar. Ainda hoje, se me dizes “Oh pá, vamos correr?”, eu digo não, só por obrigação. Mas se me dizes “Vamos ali jogar um basquetezito?”, eu vou todos os dias, se for preciso. É algo de que gosto e que me faz sentir bem e realizado. No último jogo, nos Açores, tive noção de que aquele podia ser a minha última partida (também porque tive lesões muito fortes). No meu íntimo, soube que, provavelmente, iria acabar.

BnR: Porque é que sentias isso?

NM: Tive uma época muito difícil em termos de lesões. Não me via com capacidade para recuperar e atingir níveis já atingidos antes. Também já tinha 36 anos. Foi uma noite durissíma para mim. “O que faço agora? Vou deixar de fazer aquilo que mais gosto”. Quando chegas ao topo de algo, tudo o que vem a seguir é sempre pior, e isso assustava-me. “O que me vai preencher agora?”. E assustava-me nunca encontrar algo que me fosse preencher tanto, a nível profissional, como ser jogador. A verdade é que não encontrei. Ser treinador é bem pior do que ser jogador, garanto. De certa forma, acabei por ser empurrado, quer em termos físicos, quer profissionais. Nesta fase, tinha sido um ano em que o clube tinha decrescido imenso o orçamento. Não podíamos ter dois bases e um deles estar condicionado em termos de treino. Eu também compreendi. Já não via o basquetebol para estar a fazer apenas dois ou três treinos por semana e não ir aos treinos da manhã, por exemplo, pois a minha lesão do joelho já não tinha melhorias. Por um lado, já via dessa maneira, mas por outro tinha sempre a expectativa de que poderia acontecer algo, ou de que alguém me ía ajudar, de certa maneira, a fazer mais um ano ou dois. Apesar de um grande amigo meu me dizer que conseguia fazê-lo, as outras 99 pessoas disseram para eu deixar, o que me levou por esse caminho. Hoje entendo que foi a decisão certa. Não valia a pena estar a arriscar mais um ano, porque a verdade é que também tenho família – tenho dois miúdos e tenho me de preocupar com o futuro deles. A Ovarense também sugeriu a hipótese de ser adjunto do Carlos Pinto, e assim custou menos, porque competi, de certa forma, também, mas como treinador. Não é a mesma coisa, mas competes na mesma e tens a adrenalina. No dia em que fizeram a apresentação, senti aquela tempestade de sensações, que eu já tinha posto de parte no verão, de novo. Veio tudo ao de cima: voltar a calçar e equipar para jogar aquele minuto e meio com pessoas a ver era quase como um miúdo numa loja de doces. Acabou por ser um dia e uma despedida bonita.

Artigo revisto

Vicente Tigre Avelar

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