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Podes consultar a segunda parte da entrevista AQUI

Nascido e criado em Ovar, Nuno Manarte é um ícone do basquetebol na cidade Vareira, onde reina o basquetebol. Praticando basquete desde pequeno, começou a jogar com sete anos e a sua habilidade sempre foi notória. Com um campeonato Nacional de sub-16 ganho em ’92, o seu talento era reconhecido. Assim, em 1992/1993, Manarte começou a sua carreira profissional ao serviço da equipa sénior da Ovarense. Segundo o próprio, em Ovar, o Basquetebol sempre foi o desporto rei, apesar de nos dias de hoje ser um pouco menos. “Na minha altura, ou se jogava basquete ou se jogava basquete. Na escola, quem tinha uma bola de basquete tinha amigos.”

– Início de carreira e referências –

Bola na Rede [BnR]: A tua ligação ao basquetebol já vem desde pequeno e sempre a representar o mesmo clube. Aos 16 anos, integraste pela primeira vez uma equipa sénior. Como foi começar a jogar por uma equipa profissional e como evoluiu o teu compromisso para com o basquetebol?

Nuno Manarte [NM]: Normalmente diz-se que nós, enquanto miúdos, temos sonhos, e é fácil agora para mim dizer-te que o meu sonho se concretizou, porque essa é a verdade. Eu gostava muito de basquetebol. Nesse ano de sub-16, fomos campeões nacionais e foi algo que me deu alguma motivação e confiança. Comecei a ver o jogo de forma diferente. Se bem que na altura não pensava que ia fazer vida do basquetebol… Gostava? Claro. Pensava nisso? Pois pensava, mas, na altura, era um pouco inconsciente nesse sentido. Mas nunca deixei de, aos 13, 14 ou 15 anos, depois dos treinos, ficar a ver a equipa sénior (na altura treinávamos todos no mesmo pavilhão) e pensar “Isto era o que eu gostava de fazer, isto é o que eu realmente gosto”. Mas longe de mim pensar que isso se poderia concretizar. Não era só a minha vontade que contava. Também implicava o meu talento, o meu sacrifício, ética de trabalho, a qualidade enquanto jogador e depois também ter uma oportunidade e corresponder a essa oportunidade. A verdade é que esse campeonato Nacional de sub-16 me deu alguma visibilidade. Também havia mais jogadores de sub-16 com bastante qualidade para a idade. Esse primeiro ano foi um ano de experiência, era tudo novo para mim. Com 16 anos, já jogar a um nível superior era um misto de entusiasmo e dúvida. Era outra realidade.

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BnR: Como assim?

NM: De certa forma era mais fácil na altura. Eu apanhei a fase em que ainda só haviam dois Americanos e o resto eram Portugueses na Ovarense. Depois havia jogadores como o Mário Leite, que tinha sido meu treinador de mini-basquete, portanto havia uma relação muito próxima entre os jogadores da formação e os jogadores da equipa sénior. Quer em termos de proximidade e algum afecto também, pois toda a gente se conhecia, como em termos de reconhecimento, se estiveres a jogar com pessoas que, até há pouco tempo, vias a jogar das bancadas. Havia muito essa cultura – uma cultura muito Vareira, fazendo com que fosse fácil tu te ajustares, pois identificavas-te. Havia poucas equipas com mais do que dois jogadores estrangeiros. Era permitido mais um naturalizado, mas fazia também com que o processo fosse mais fácil, mesmo em termos de treinos e comunicação, ou até de viagens. A cultura e a forma de estar não foi algo estranho para mim. Imagino que teria sido mais difícil se fosse uns anos mais tarde, quando já existia a possibilidade de metade da equipa ser estrangeira. A partir daí, foi uma transição facilitada, apesar do primeiro ano ter sido um ano de experiência, até por eu fazer as duas equipas (Juniores sub-18 e equipa sénior). Passava mais tempo na equipa júnior, na qual jogava mais, e na equipa sénior ia aos jogos, equipava e aquecia, mas apenas jogava os últimos minutos, quando os jogos estavam ganhos por muitos pontos, ou quando já não havia a hipótese de ganhar.

Em 1991/1992, Nuno Manarte foi campeão Nacional de sub-16, o ano anterior a integrar a sua primeira equipa sénior
Fonte: Fernanda Manarte

BnR: O teu jogador preferido é o John Stockton. Sentes que o teu jogo refletia isso?

NM: Eu penso que foi mais ao contrário. Só mais tarde é que comecei a ver a NBA. Não víamos na altura, não era como nos dias de hoje. Quando era miúdo, via ao sábado de manhã uma rubrica de João Coutinho, se não me engano, que era sobre NBA. Chamava-se a “Magia da NBA”, que era raro ver. Mas não havia tanta informação. Tínhamos as referências habituais, como o Larry Bird, Magic Johnson e Michael Jordan, mas não era tão fácil identificares-te com quem quer que seja. Então apenas mais tarde, com a definição da minha posição e características enquanto jogador, é que ia valorizando coisas que… não o fazia como forma de espelho, não é? O John Stockton era um jogador low profile, muito discreto, mas que punha a equipa a jogar. Valorizava muito os jogadores que estavam a sua volta, tinha presença em campo, presença defensiva e fazia o chamado “trabalho sujo”, que, muitas vezes, nem dava para perceber. E isso agradava-me! Primeiro por ser um Base de raiz, um Base puro, de pôr a equipa a jogar, que eram as minhas características enquanto jogador – o que fez com que me chamasse a atenção. Passava algum tempo a escrutinar o que ele fazia e porque o fazia, vendo coisas como a forma como ele fazia bloqueios. Uma história engraçada com um americano que jogou cá: o John Tomsich perguntou-me qual o jogador que melhor fazia bloqueios na NBA. À partida, seria um interior, um jogador alto e forte que fizesse bloqueios grandes no diretos e indiretos. E eu, por tanto escrutinar o John Stockton, disse-lhe “é o John Stockton”, pois eles (os Utah) tinham imensas situações de cross-pick com o John Stockton e Karl Malone. Os bloqueios eram bem feitos e ele ainda sacava umas faltas e assim. Mas disse-lhe isso a achar que estava a dizer uma brincadeira, pois pensava isso, e também não tinha uma resposta clara. Achei que, para a sua estatura, fazia bons bloqueios.

BnR: E ele?

NM: Ele ficou a olhar para mim e disse: “Não me acredito que disseste isso, pois eu penso exatamente o mesmo”. O que foi curioso, por causa da coincidência da pergunta dele com o facto de eu escrutinar o jogo de John Stockton, até a forma como ele fazia bloqueios. Penso que seja um pouco por aí. Não era um jogador muito vistoso, e eu valorizei coisas que ele provavelmente também valorizaria. Acho que essa foi a questão principal. O que não significa que não goste do Jordan, do Magic ou do Bird, que também gosto muito por fazer o trabalho sujo e perceber muito o jogo. Sempre foram jogadores que me chamaram a atenção. Penso que, no mundo do desporto, fala-se muito de jogadores que têm imenso talento e realmente é uma parte importante do jogo. Mas fala-se pouco de jogadores que trabalham imenso, que por vezes não têm tanto talento, mas que fazem um trabalho muito low profile e que é fundamental nas equipas, e acho que, principalmente nos dias de hoje, valoriza-se pouco esse tipo de jogadores.

BnR: Ainda por cima numa época em que os jogadores eram maioritariamente altos e fortes… o Stockton era um jogador mais baixo e, na época, a diferença de alturas era mais visível do que nos dias de hoje, em que se joga o chamado small-ball.

NM: Sim, na altura havia as posições muito bem definidas. Tínhamos os postes, extremos e os quatros (extremos postes). Na altura, os três (extremos) eram jogadores muito grandes, era quase quatros. Eram jogadores que ainda iam jogar a poste-baixo, pois tinham algum tamanho. Existiam as posições muito definidas, já que era mais complexo nesse sentido, e apanhavam-se jogadores muito maiores. Nos dias de hoje, o jogo é um pouco diferente. Eu olhava para o Stockton e pensava: “Como é que é possível, no meio de tanta gente grande, acabares um jogo com 20 pontos e 15 assistências? Um jogador com aquele físico ter aquele impacto no jogo na altura?”. Entretanto, nos dias de hoje, é possível ver jogadores com menos físico.

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