Na semana passada, a ESPN lançou uma série de artigos relacionados com a saúde mental na NBA. Um dos artigos (cinco no total) focava-se na maneira como reagem e como conseguem os árbitros viver o seu dia-a-dia como os “inimigos” dos adeptos. Tanto lá como aqui, em Portugal, o árbitro serve para descarregar as frustrações da vida ou para arcar com a culpa de uma derrota. E estes têm de aceitar e calar, sem que alguém alguma vez se preocupe com eles. Algo que pode levar à loucura, tal como explicava numa entrevista incluída no artigo, Joey Crawford, conhecido ex-árbitro da NBA.

Durante os vários anos que estive relacionado com o basquetebol de formação, fiz um pouco de tudo. Comecei como jogador, arbitrei dezenas de jogos, fui treinador e serei, para sempre, adepto. São diferentes funções que nos permitem ter diferentes perspetivas, sendo algo que muitos dos que se envolvem no desporto de formação já fizeram. Para os que nunca tiveram esse tipo de envolvimento, deixo este meu testemunho para que, talvez, possamos começar a tratar um pouco melhor aqueles que permitem que os nossos jovens pratiquem desporto federado.

“António, tens de te impor porque estamos a ser roubados!”. Ouvi esta frase várias vezes como treinador de formação. Mas o que é que eu tinha de fazer? Proteger o meu bolso porque o árbitro é um conhecido carteirista? Ou ir vigiar o parque de estacionamento porque a “cena” deles é mais carjacking? Estranhamente, nenhuma das duas. Na realidade, o árbitro é um ser bem mais frio e calculista. O árbitro, pelo menos o de basquetebol na formação em Portugal, acorda cedo a um domingo de manhã, viaja até a um frio pavilhão e fica ali quase duas horas seguidas a arbitrar jovens, muitas vezes sozinho, a falhar propositadamente cada decisão que toma de modo a poder irritar o máximo de pessoas na bancada possível. Depois disso, vai até casa (se der tempo), almoça à pressa e volta à tarde para mais duas a quatro horas do mesmo. Como disse, frios e calculistas nos crimes que cometem, estes artistas.

Kobe Bryant com o ex-árbitro Bob Delaney
Fonte: National Basketball Referees Association

Na maioria das vezes, estes árbitros não têm sequer um curso de arbitragem. Estão ali como voluntários, porque o clube precisa. E, muitas vezes, as críticas ao seu trabalho vem de gente que pertence ao seu clube, que no dia-a-dia convive com eles. Eu não me coloco moralmente acima de ninguém, até porque como jogador, treinador e adepto, várias foram as vezes que critiquei e disse o que não devia a estes mesmos voluntários. E sabia que, sempre que me voluntariava para arbitrar, iria ouvir o mesmo que eu tinha dito. Daí também me conter um pouco mais do que os outros nas minhas críticas. O que levava ao tal “António, tens de te impor porque estamos a ser roubados!”, que tantas vezes ouvi vindo das bancadas.

E antes que vejam isto pelo lado errado, este texto não é uma crítica aos pais, aos treinadores ou aos jogadores. Os pais estão lá para apoiar os seus filhos, os treinadores para fazerem os jogadores evoluir e os jogadores para se divertirem (pelo menos no papel). Mas sobram sempre os árbitros. Os intervenientes sem adeptos. Os voluntários ou os que recebem pouco. Tão importantes quanto desvalorizados.

É importante começarmos a perceber que eles não são o nosso saco de pancada, o muro das lamentações e muito menos imunes aos insultos e impropérios que soltamos quando exaltados. Eles vão errar, mas não é porque, premeditadamente, decidiram que a nossa equipa tinha de perder. Seja porque não sabem mais, porque tomaram uma má decisão ou porque, pasme-se, erram como qualquer ser humano. E isso vai acontecer várias vezes. A maneira como lidamos com esses erros, como adeptos, pais, treinadores ou jogadores é que irá afetar as horas, os dias ou os meses seguintes de quem arbitra o jogo. Positiva ou negativamente.

Foto de Capa: National Basketball Referees Association

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro

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