O Giro vai a Israel e há quem não goste

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Cabeçalho modalidadesO reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel pelos Estados Unidos é o tema quente do momento, já que, com os seus benefícios e malefícios, foi uma tomada de posição de política externa norte-americana que obrigará a novos desenvolvimentos no Médio Oriente no futuro próximo. No entanto, não só no mundo da política internacional a questão israelita causa polémica e esta já se alastrou ao desporto, mais em concreto ao ciclismo, através do Giro d’Italia, uma das três Grandes Voltas da modalidade.

Tudo começou quando a entidade organizadora da prova italiana anunciou que a partida em 2018 seria dada em Israel. Desde logo, foi uma inovação, não pelo começo fora do país transalpino, algo já aconteceu várias vezes no passado, mas em especial por ser a primeira vez que uma Grande Volta sairia do continente europeu. Ora, o que a organização talvez não esperasse é que a maior resistência à ideia viesse de grupos sem qualquer ligação ao ciclismo.

Pouco após esta novidade ser tornada pública, várias organizações vieram tomar pedir publicamente que a organização revertesse o plano e não aceitasse levar a prova para um estado que consideram como ‘opressor’. Em causa está, como habitual, a relação atribulada entre Israel e a Palestina e a disputa por Jerusalém, cidade de onde partirá o prólogo da 101ª. edição da Volta a Itália. Poderíamos pensar que o desporto estaria a salvo desta onda da correção política, mas não. Sem dúvidas que misturar o desporto e a política não costuma dar bom resultado, ainda que se perceba que seja uma boa forma destes ativistas alcançarem atenção mediática.

Como seria de esperar, a entidade organizadora do Giro não voltou atrás, até porque está em causa um acordo que envolve vários milhões de euros em contrapartidas e que estes não querem desperdiçar. Ainda assim, numa tentativa de minimizar estragos na opinião pública, aquando da apresentação da rota completa, o material comunicacional apresentava o Giro como começando em Jerusalém Ocidental. Ora, explicando sumariamente, Jerusalém Ocidental é Israel, mas a parte Oriental só o é porque foi ocupada em 1967 e grande parte da Comunidade Internacional não reconhece a soberania de Israel nessa parte da cidade.

Quem não gostou foram os israelitas para quem a cidade é indivisa e sob seu domínio e ameaçaram que retiravam o financiamento se tal não fosse corrigido. Lá está, pior a emenda que o soneto, e lá ficou mais uma vez mal na fotografia o Giro d’Italia que rapidamente cedeu à pressão do dinheiro.

O percurso do Giro 2018 que começará em Jerusalém Fonte: Giro d’Italia
O percurso do Giro 2018 que começará em Jerusalém
Fonte: Giro d’Italia

Perante todo este cenário, há duas questões centrais que têm de ser abordadas.

Primeira, quanto à segurança dos atletas e adeptos. Numa zona já de si instável e perigosa e com sinais de que a tensão pode aumentar ainda mais, estas polémicas só vêm aumentar o receio de que algo possa correr pelo pior. A organização tem de assegurar que os ciclistas e os espectadores estão protegidos e esperemos que o consiga. A verdade é que o Estado de Israel já prometeu um forte dispositivo policial e militar e haverá uma partida alternativa para o caso de algum imprevisto de última hora tornar insustentável a realização do plano A.

Em segundo lugar, coloca-se a divida sobre se, de facto, a prova deveria ou não começar em Israel. Sendo que há um grande leque de opiniões sobre a maior ou menor bondade deste Estado – como de muitos outros, diga-se – parece-me que não há eventos graves o suficiente que justifiquem um boicote tal que até de receber eventos culturais fiquem privados. Além disso, o simbolismo de começar a prova em Jerusalém e acabar em Roma, promovendo a união das culturas nestes tempos tão conturbados é um bom mote que faz bem aquela que deve ser a influência do desporto na sociedade, pela positiva e agregadora.

Numa última nota, é de ver que cada um de nós tem a sua visão sobre a questão Israelito-Palestiniana. Poderia discorrer aqui sobre a minha, mas não acho sensato, penso que isso deve ficar para outras áreas da vida e deixar esta para aproveitarmos um amor que nos une por mais diferenças que tenhamos. Compreendo quem queira recorrer a todas as possibilidades de chamar a atenção para as causas que vê como justas, mas vamos, por favor, deixar o desporto bem longe da política e tentar desfrutar dele ao máximo e focar a nossa energia reivindicativa em corrigir os muitos males que ainda há no ciclismo e noutras modalidades.

 

Foto de Capa: Team Sunweb

José Baptista
José Baptista
O José tem um amor eclético pelo desporto, em que o Ciclismo e o Futebol Americano são os amores maiores. É licenciado em Direito (U. Minho) e em Psicologia (U. Porto).

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