

Desde a década de 90 e do mítico Escocês Voador, Graeme Obree, que não se via algo assim. Quando começamos a analisar os detalhes, a história de van Schip (ainda) não tem o mesmo romantismo, mas a forma como vai irritando os patrões do desporto já lhe valeu um lugar especial na história recente do Ciclismo.
Primeiro, os básicos. Especialista na pista (disciplina em que alcançou até dois títulos mundiais), foi também aparecendo na estrada como um forte rolador capaz de bons resultados esporádicos e chegou a militar no segundo escalão em 2018 e 2019 ao serviço da Roompot. Com o covid, acabaria por voltar a prestar atenção primordialmente à pista.
Recentemente, porém, deixou de ser a qualidade das suas exibições velocipédicas a lhe dar destaque, com o foco a passar para a forma. Conhecido também por levar o equipamento ao limite e por posições na bicicleta menos convencionais, esta sua singularidade desencadeou a ira da UCI e dos seus comissários.
Tanto que, depois de uma desqualificação no final da época transata, esta época já leva duas. Três desqualificações em menos de um ano é obra. E, parece que qualquer motivo serve, já que para cada uma foi dada uma razão diferente: medidas irregulares da bicicleta, posição irregular na bicicleta, e levar um bidon dentro da parte da frente da camisola.
E, se o ridículo já se não tivesse encarregado de tirar a piada à situação, a última instância tratou de o fazer com contornos surreais, já que terá sido chamada a polícia para o placar e impedir que continuasse na corrida.
Tudo isto deixa a nu dois dos principais problemas da UCI nos dias de hoje.
Um deles é da proporcionalidade (ou falta dela) tanto na criação como na aplicação das normas. O organismo que regula a modalidade deveria preocupar-se em criar regras gerais, focadas na segurança dos atletas e no ambiente competitivo justo. Em vez disso, entretém-se a procurar definir aleatoriamente qual é o tamanho das meias dos ciclistas ou a proibir posições generalizadas como as chamadas “patinhas de cão”.
O outro, ainda mais grave, é o da constante aplicação seletiva dessas mesmas normas. Uma das desqualificações de Van Schip foi por utilizar uma posição proibida que regularmente vemos outros ciclistas utilizar e escapar com um mero aviso. Da mesma forma, não faltam exemplos de sprinters menores relegados por manobras constantemente utilizadas por Jasper Philipsen, mas este, como é uma das estrelas do desporto, escapa constantemente impune. Que as regras nasçam iguais para todos é uma das bases fundacionais da nossa sociedade. Que no Ciclismo isso seja uma miragem é o pecado maior da UCI.
Por fim, há que mencionar que o título deste texto talvez seja exagerado. Afinal, não faltam coisas mal no Ciclismo e a UCI tem muitos outros erros para corrigir. Mas, se resolvesse estes estaria tão bem encaminhada para comandar um desporto mais justo para os seus competidores. E, no caso particular de Van Schip, é o Ciclismo que perde quando ostraciza os seus inovadores, ao invés de os celebrar.

