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Quo vadis, Joni Brandão?

José Baptista · 4 min

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No já longínquo ano de 2010, a Liberty Seguros/Santa Maria da Feira era “a equipa” no que ao desenvolvimento de jovens talentos do ciclismo português dizia respeito. Nesse ano, num grupo onde surgiam também Amaro Antunes (agora na Pro Continental polaca da CCC) e Fabio Silvestre (que já passou pelo World Tour), o líder principal era um tal de Jóni Brandão. 

Nesse ano, seria segundo na Volta a Portugal do Futuro, 34 segundos atrás do russo Alexander Ryabkin, mas vingar-se-ia no ano seguinte, conquistando finalmente a prova rainha para os Sub-23 nacionais, aí apoiado pelos gémeos Gonçalves, José (a correr na Katusha e 14º no último Giro d’Italia) e Domingos (atual campeão nacional de crono e de fundo). Parecia encontrado o futuro grande nome do ciclismo português e foi sem supresa que se viu Jóni embarcar numa aventura no estrangeiro para a época seguinte, na Burgos.

Depois de um ano de aprendizagem por terras de nuestros hermanos, voltou a casa, mas desta vez para os profissionais, assinando pela Efapel-Glassdrive, um dos mais fortes conjuntos do pelotão português, e começou a afirmar-se. Começou por se mostrar com um sexto posto no Tour de Azerbaijan, para pouco depois conquistar aquela que ainda hoje é a maior vitória da carreira, o título nacional de fundo. Destacar-se-ia ainda na Volta a Portugal como um dos mais combativos dessa edição e ajudando Rui Sousa a chegar ao podium final. 

A partir daí, o trepador português foi trilhando o seu caminho individual e, finalmente, passou a ser ele o líder dos amarelos para a maior prova do calendário nacional, chegando ao quarto posto em 2014 e sendo vice-campeão em 2015. 

Tudo parecia bem encaminhado para Joni Brandão se tornar num dos nomes grandes do ciclismo nacional e a dúvida era se o ciclista de Travanca se juntava ao crescente contigente nacional no estrangeiro ou se fazia mais uma época em Portugal para conquistar a tão ansiada vitória na Volta.

Ficou-se pelo território já conhecido e, se a época começou da melhor maneira com um terceiro posto fora de portas na Vuelta a Castilla y Leon e vitórias na etapa mais dura e na Geral do GP Beiras e Serra da Estrela, o caso mudaria de figura na Grandíssima. Como muito acontece no ciclismo, os organizadores das provas estão dependentes das câmaras que pagam para receber o pelotão e esse ano marcou o início de um período em que, por essas mesmas razões, a Volta deixou de ter chegada ao Alto da Torre.

Joni não se deixou ir abaixo pela falta do elemento que mais o beneficiaria na Volta e lançou-se num ataque de proporções épicas na Torre, tentando chegar isolado à meta. Infelizmente para ele, o poderio da W52/FC Porto era demasiado e não teve hipótese de o contrariar, acabando por ter de se contentar com o quinto posto da Geral, mas levando para casa a camisola da montanha.

Para o ano de 2017, Joni finalmente mudou de ares, mas ainda não foi desta a esperada ida para o estrangeiro. Na verdade, o seu destino foi Tavira e o Sporting CP. De verde e branco e acompanhado por Alejandro Marque e Rinaldo Nocentini, partia para a Volta a Portugal como um verdadeiro favorito e já se ansiava por uma batalha emotiva entre os leões e o duo azul e branco de Amaro Antunes e Raul Alarcon.

No entanto, há alguns dias da Volta, o clube de Alvalade informou que Joni não iria à Volta, tendo sido vítima de uma doença não especificada e que o obrigaria a um longo repouso. Ora, este foi um dos piores momentos da carreira do ciclista, mais que por falhar o seu objetivo da época, porque a péssima forma de comunicação do Sporting colocou o mundo do ciclismo com uma forte suspeita sobre Joni Brandão e de que a doença, seria na verdade uma suspensão. 

Não seria a primeira vez que tal aconteceria, com ciclistas a desaparecerem das corridas para uns meses mais tarde se descobrir que haviam acusado doping. Aconteceu, por exemplo, com Sergio Ribeiro e o mesmo se passou este ano com Vicente De Mateos num caso muito estranho e que ainda levanta muitas dúvidas sobre a credibilidade do espanhol.

2018 está ser o ano do quase para Joni Brandão. No GP JN, perdeu a amarela no último dia.
Fonte: Federação Portuguesa de Ciclismo

Perante tudo isso e já com 28 anos, esta época assumia uma importância fulcral para Joni Brandão, mas até agora tem sido marcada pelos “quase”. Com o segundo lugar nos Campeonatos Nacionais, terceiros postos no GP Beiras e Serra da Estrela e no GP Joaquim Agostinho e com o GP JN perdido no último dia para António Carvalho quando tudo parecia encaminhado para uma importante vitória nessa histórica prova nacional. Agora, na Volta, é segundo a meio da prova e parece o único ainda com possibilidades de importunar Alarcon.

Não há dúvidas da qualidade de Joni Brandão e que este é um dos melhores trepadores portugueses do milénio, mas faltam-lhe as vitórias para comprovar esse estatuto e o que fará daqui para a frente marcará a forma como será lembrado.

Com ainda vários dias duros para decidir a Volta a Portugal 2018, o líder do Sporting CP/Tavira terá de ir buscar forças para finalmente quebrar a hegemonia dos rivais nortenhos e envergar a amarela final em Fafe. E, consiga-o ou não, talvez seja tempo de voltar ao estrangeiro tentar realizar o potencial que tem em outros (e maiores) voos.  

Com o vazio criado pela retirada de Rui Sousa, Joni pode também tornar-se o herói do povo nos quentes agostos nacionais, mas corre o risco de seguir pelo mesmo caminho no que à falta do primeiro lugar do podium diz respeito. Será esse o seu destino?

Foto de Capa: Volta a Portugal

José Baptista

Redação Bola na Rede · ver artigos