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Tour de France #1: Pogacar no comando e Van Aert quase com a «verde»

Miguel Monteiro · 11 min

Foto: Tour de France

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AS VICISSITUDES DO TOUR BATEM À PORTA DE UNS, O ESTADO DE FORMA DE OUTROS É INQUESTIONÁVEL

Ao fim de nove dias de competição, a classificação geral da 109.ª edição do Tour de France começa a aproximar-se daquela que poderá ser a classificação geral final da maior competição velocipédica do mundo, com os voltitas em melhor forma a figurarem já nos 15/20 melhores classificados.

Daqueles que à partida partiam com aspirações a terminar nos 10 melhores desta prova duríssima de três semanas, já há quase uma dezena de ciclistas que ou já não tem hipóteses de cumprir esse objetivo ou terá de se servir de táticas quase imaculadas para o conseguir.

No que à primeira situação diz respeito, temos os casos de: Guillaume Martin (Cofidis), Jack Haig (Bahrain-Victorious) e Rúben Guerreiro (EF Education-EasyPost), vítimas do Covid-19, de uma queda na etapa do empedrado (etapa 5) e de um problema de saúde não precisado, respetivamente.

Já em relação há segunda situação, temos os exemplos de: Daniel Martínez (INEOS Grenadiers), que após uma soberba primeira parte da época, tem vindo a baixar o seu nível, mostrando-se especialmente débil na última etapa antes do dia descanso, tendo chegado nesta tirada a mais de 15 minutos do grupo dos principais favoritos à vitória final; Ben O’Connor, que partiu para a Grande Boucle com o intuito de repetir o top 5 de 2021, algo que se afigura agora quase impossível após ter sido vítima dos infortúnios da etapa do setores de paralelo, tendo vindo a sofrer as sequelas dessa jornada nos dias posteriores, estando em avaliação a possibilidade de partir para a segunda semana da prova; Rigoberto Urán (EF Education-EasyPost), o muito regular colombiano que raramente brilha, mas está usualmente sempre entre os melhores, o que não tem acontecido nesta edição, estando já a sensivelmente dez minutos de Tadej Pogacar (UAE Team Emirates), que naturalmente enverga a camisola amarela; e Jakob Fuglsang (Israel-Premier Tech), que não está a “transpor” a sua boa classificação geral na Volta à Suíça para a Volta à França, vendo-se obrigado nas próximas duas semanas a redirecionar a sua estratégia para a “caça de etapas”, não lhe faltando qualidade para isso.

Enquanto uns veem os seus sonhos ser esmagados e se apercebem de que o seu esforço de meses poderá vir a ser em vão, outros ainda não têm nada perdido e mostram-se com o vigor necessário para pelejar pela vitória no Tour de 2022. Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard (Jumbo-Visma) estão num primeiro plano, a INEOS Grenadiers, encabeçada por Geraint Thomas e Adam Yates, está num segundo plano.

Após nove dias de competição, o esloveno Tadej Pogacar conta já com duas vitórias de etapa e tem-se mostrado superior à concorrência, não tendo até ao momento exibido debilidades. Porém, estão ainda para vir as grandes etapas de alta montanha, o terreno predileto do dinamarquês Jonas Vingegaard, que está a menos de um minuto de Pogacar e está apoiado por uma equipa ideal, capaz de dominar em qualquer terreno e que tem Primoz Roglic como um trunfo valiosíssimo, tendo este já perdido quase três minutos para o líder da Emirates, mas, tendo em conta a sua qualidade intrínseca, pode vir a tornar-se o elemento decisório desta Volta à França.

Tanto a Jumbo como a Emirates têm ainda de ter em consideração a experiência e a variedade de opções da INEOS, sendo que os britânicos Geraint Thomas, ex-vencedor do Tour, e Adam Yates são respetivamente o terceiro e o quarto da classificação geral, ambos a menos de um minuto e meio de Pogacar, e estando o estreante Thomas Pidcock também a pouco mais de 20 segundos de Yates, no sétimo lugar, podendo este passar a constituir desde o início da segunda semana uma “cartada” estratégica da equipa.

Chegados ao primeiro dia de descanso, o top 10 é completado pelos franceses David Gaudu (Groupama-FDJ) e Romain Bardet (Team DSM); pelo atleta mais regular do ciclismo espanhol, Enric Mas (Movistar Team); pelo norte-americano Neilson Powless (EF Education-EasyPost); e por um dos ciclistas mais aclamados do pelotão internacional, Nairo Quintana (Team Arkéa Samsic).

“O FILHO DE UM AGRICULTOR” SURPREENDEU TUDO E TODOS E VESTIU A MAILLOT JAUNE NA DINAMARCA

Este ano o Grand Départ deu-se com um prólogo técnico e chuvoso de 13,2 km pelas ruas da capital dinamarquesa, Copenhaga, com muito espetáculo e suspense até ao último minuto.

Já era sabido que este prólogo não decidiria o vencedor final do Tour, mas poderia já deixar alguém arredado da luta pela classificação geral, devido a alguma queda que o piso molhado pudesse provocar, como consequência direta da chuva. Felizmente, à exceção de um par de ciclistas que tiveram algumas dificuldades em se manter durante todo o percurso em cima da bicicleta, não houve ninguém a ter problemas de maior gravidade.

No que à luta pela primeira camisola amarela diz respeito, a discussão parecia estar encerrada quando Wout Van Aert (Jumbo-Visma), com um tempo de 15:22, conseguiu bater por cinco segundos o tempo do campeão mundial de contrarrelógio, Filippo Ganna (INEOS Grenadiers) e resistiu por dois segundos à investida de Tadej Pogacar. Contudo, estava ainda para partir o belga Yves Lampaert (Quick-Step Alpha Vinyl Team), que apesar de não estar sempre entre os melhores nos esforços contra o cronómetro, já é sabido que, em contrarrelógios curtos/prólogos, é capaz de bater qualquer um nos seus melhores dias e foi assim que aconteceu. O “filho de um agricultor”, como o próprio se descreveu, ativou o modo “hipersónico” na segunda metade do contrarrelógio e bateu o tempo de Wout Van Aert por cinco segundos, tendo sido o primeiro a envergar a camisola amarela desta edição da prova de três semanas.

A ESPERANÇA É A ÚLTIMA A MORRER

A segunda etapa, também percorrida na Dinamarca, coroou aquele que é, porventura, o maior sprinter da atualidade, o neerlandês Fabio Jakobsen (Quick-Step Alpha Vinyl Team), que após ter estado às portas da morte há cerca de dois anos, quando teve uma queda gravíssima na primeira etapa da Volta à Polónia de 2020, que o deixou completamente desfigurado, mostrou que nunca se deve atirar a toalha à chão, independentemente das circunstâncias. Este sprint, ganho por Jakobsen, à frente de Wout Van Aert, que com as bonificações passou a ser o novo líder da classificação geral, e de Mads Pedersen (Trek-Segafredo), foi uma exibição da valentia e da velocidade de ponta do neerlandês, que recompensou o leadout exímio dos colegas de equipa.

GROENEWEGEN NO ÚLTIMO MOMENTO

A terceira etapa foi a última em território viking, marcada mais uma vez pela imensidão de gente acumulada ao longo de todo o percurso da etapa, tendo os dinamarqueses respondido com curiosidade e entusiasmo à possibilidade de assistirem à Volta à França no seu próprio país. Esta jornada foi mais uma vez dedicada aos velocistas, que tinham de gerir muito bem o momento do seu sprint por este se encontrar num falso plano. Aquele que melhor o soube fazer foi Dylan Groenewegen (Team BikeExchance-Jayco) que, com uma equipa quase exclusivamente dedicada a ele, conseguiu partir para os últimos 200 metros suficientemente bem colocado e ultrapassar Wout Van Aert milimetricamente no risco de meta.

VAN AERT A SOLO, VESTIDO DE AMARELO

A quarta etapa, a primeira em território francês, com final em Calais, no papel, deveria ser discutida num sprint em massa. Porém, a Jumbo, atentando para a existência de uma dificuldade curta para puncheurs nos últimos 15 km da etapa, decidiu lançar um ataque coletivo avassalador nessa colina, de modo a deixar os sprinters puros sem capacidade para seguir o ritmo. Assim, Nathan Van Hooydonck e Tiesj Benoot prepararam a ofensiva e Van Aert arrancou sozinho a quase 12 km para a meta para vencer isolado e expandir a sua liderança na classificação por pontos.

A ISRAEL ARRISCOU E “PETISCOU”

A quinta etapa, com um percurso que incluía a passagem por 11 setores de empedrado, coroou o australiano Simon Clarke (Israel-Premier Tech), que obteve em janeiro um contrato profissional numa equipa de ciclismo, na Israel, já depois do término do período regular do mercado de transferências, quando este já pensava que se teria de dedicar a outro ofício. Esta foi uma aposta ganha pela Israel, já que Clarke conseguiu superiorizar-se na fuga do dia a um especialista em sprints reduzidos resultantes de fugas, Taco Van Der Hoorn (Intermarché-Wanty-Gobert Matériaux) e a um já vencedor de etapas na Grande Boucle, Edvald Boasson Hagen (TotalEnergies).

Em relação aos principais favoritos à vitória final, o destaque pela positiva foi Pogacar, que ganhou pouco mais de 10 segundos à maioria da concorrência, e os menos afortunados, vítimas de quedas, foram Roglic, O’Connor e Haig.

A ACELERAÇÃO DE POGACAR DEIXOU OS ADVERSÁRIOS SEM HIPÓTESES

A sexta etapa, com quase 220 km de extensão e com final em Longwy, bastante semelhante ao da terceira etapa do Tour de 2017, vencida por Peter Sagan (TotalEnergies), era propícia tanto para ciclistas da classificação geral com um bom “punch” como para velocistas resistentes a maiores dificuldades, como Van Aert, Michael Matthews (Team BikeExchange-Jayco) ou Sagan, quando estava em melhor forma. A etapa acabou por ser discutida num sprint num grupo reduzido, sem a presença de Van Aert, que decidiu dar espetáculo e passar o seu último dia com a maillot jaune na fuga. No final, o sprint foi ganho por Pogacar, que bateu Matthews e Gaudu com facilidade, passando a vestir a camisola amarela.

ELE É DONO DISTO TUDO

A sétima jornada coincidiu com o primeiro final em alto, na La Super Planche des Belles Filles. Este final tem sido nos últimos anos disputado pelos ciclistas constituintes da fuga do dia e grande parte do pelotão pensou que assim sucederia novamente. Todavia, Pogacar estava com ideias distintas e decidiu ir à procura da vitória de etapa, com o auxílio dos seus colegas de equipa, que trabalharam para isso.

À entrada para o último quilómetro da etapa, o alemão Lennard Kamna (BORA-hansgrohe), o último resistente da fuga, possuía aproximadamente 40 segundos de vantagem sobre o pelotão, mas as ordens de Pogacar eram claras- que Rafal Majka, o seu colega de equipa, impusesse um ritmo alto no grupo dos favoritos, que ele finalizaria- e quando já todos pensavam que a vitória era do alemão, Vingegaard, o seu principal adversário, atacou a menos de 200 metros do final, apanhando Kamna e deixando todos os adversários para trás, à exceção de Pogacar, que contra-atacou e, quase sem precisar de respirar, levantou os braços vestido de amarelo, tendo aproveitado esta vitória para anunciar a criação de uma fundação para ajudar em pesquisas relacionadas com o cancro, a Tadej Pogacar Cancer Research Foundation.

VAN AERT VOLTA A VENCER

A oitava tirada, com final em Lausanne (Suíça) tinha um final semelhante ao da sexta etapa. Desta vez, Van Aert, que não decidiu integrar a fuga do dia, teve a sua equipa a trabalhar para si no pelotão, na companhia da BikeExchange, de Matthews, e acabou por vencer o sprint num grupo reduzido, à frente de Matthews e Pogacar, quase que garantindo, desde já, a vitória da classificação por pontos.

JUNGELS ESTÁ MESMO DE REGRESSO


A última etapa antes do primeira dia de descanso do Tour, a introdução às grandes etapas de alta montanha, ficou marcada pelo regresso de Bob Jungels (AG2R Citroen Team) ao mais alto nível, já anunciado no rescaldo da Volta à Suíça. O luxemburguês parece estar finalmente livre dos problemas de saúde que o afetaram nos últimos dois/três anos, tendo mostrado toda a sua classe ao atacar a mais de 60 km da meta, tendo deixado os seus companheiros de fuga para trás na descida do Col de la Croix, aumentado a sua vantagem no vale e mantido uma distância saudável para os seus mais diretos perseguidores e para o pelotão nas últimas duas subidas, tendo tudo isto culminado com uma merecida celebração em Châtel les portes du Soleil. Chapeau, Bob!

Foto de Capa: Tour de France

Miguel Monteiro

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