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Este fim-de-semana a corrida é outra. Aproveitando o intervalo de tempo entre o GP do Canadá e o do Reino Unido é importante falarmos de um assunto que é constantemente debatido no nosso quotidiano: a sustentabilidade.
De uma forma superficial, Fórmula 1 e Sustentabilidade parecem conceitos completamente incompatíveis. Num mundo onde esta transição para o “cada vez mais verde” está iminente, o grande desafio, não só da Fórmula 1 como também da grande maioria dos Desportos Motorizados passa por garantir a sua sobrevivência nesta transformação que além de necessária começa a ser obrigatória.
Tendo na Fórmula 1 a sua grande montra para o mundo, o desporto motorizado é uma das modalidades mais poluentes do mundo. Toda a sua envolvente, desde a construção dos monolugares a toda a infraestrutura e logística necessária para a realização de um grande prémio, acaba por trazer consequências ambientais aos mais variados cantos do globo, onde a categoria rainha do automobilismo marca presença.
A POLÍTICA F1 NET ZERO CARBON
Neste seguimento, é unânime entre pilotos e equipas que a Fórmula 1 precisa de ser mais “verde”, mais democrática e menos elitista. Também a FIA percebeu essa necessidade de tornar o desporto mais sustentável. Para tal, a meta definida pela mesma passa por atingir a neutralidade carbónica até 2030, com a criação de um plano denominado de F1 Net Zero Carbon.
Formula 1 racing has launched a plan to become carbon neutral by 2030, with plans for all races to be sustainable by 2025. 🏎️ pic.twitter.com/McxysV45sK
— Pattrn (@pattrn) November 12, 2019
Atualmente já assistimos a algumas medidas integradas neste plano. A introdução do combustível 100% sustentável é uma delas e constitui um passo importante, de curto-prazo é certo, nesta longa caminhada para a sustentabilidade. Introduzido desde o ano passado, este tipo de combustível (composto por resíduos) é atualmente utilizado pelas diversas equipas que compõem o campeonato.
A ideia por detrás desta inovação é extremamente interessante e benéfica para a Fórmula 1, não só por ser um passo no caminho para a neutralidade carbónica, mas também por possibilitar à F1 constituir-se como uma plataforma para introdução de novos avanços tecnológicos para o mundo automóvel. Avanços estes que depois possam ser transportados para a esfera pública, contribuindo assim para a melhoria das sociedades.
Driving the green revolution #F1 pic.twitter.com/FZlAwT9jMm
— Formula 1 (@F1) October 5, 2021
Este plano que visa uma categoria totalmente sustentável até 2030 acaba por ter, a médio-longo prazo, uma série de iniciativas que se demonstram bastante desafiadoras e ambiciosas, contudo, na minha opinião, também realistas, muito por culpa da tecnologia de ponta que a Fórmula 1 tem à sua disponibilidade.
O grande problema e talvez uma das iniciativas mais difíceis de concretizar esteja relacionada com a maximização da logística e eficiência das viagens.
Desengane-se quem pensa que o problema da enorme pegada carbónica está nos monolugares, pois com os motores híbridos e o biocombustível acabam por significar uma percentagem muito reduzida das emissões de dióxido de carbono.
Segundo a auditoria realizada pela FIA, estes representam apenas 0,7% destas emissões. Sendo que o que acaba por pesar na balança está relacionado com questões alheias à corrida em si, mas que são indispensáveis, como o transporte internacional de equipamentos (45%), as viagens de negócios (27,7%), as fábricas e instalações das equipas (19,3%) e a logística presente nos eventos (7,3%).
Este será o grande desafio: perceber como maximizar toda esta logística que a modalidade envolve, tornando-a o mais eficiente possível.
A CONTROVÉRSIA DA FIA
Contudo, esta visão algo romântica da Fórmula 1 sustentável gera alguma controvérsia, muito por culpa da própria FIA. Esta temporada de 2022, acaba por ter um calendário absurdo em termos de corridas. São cerca de vinte e quatro corridas (22 oficiais), lembrando que o campeonato iniciou dia 23 de fevereiro com os treinos em Espanha e terminará dia 20 de novembro em Abu Dhabi.
Get your diaries out! 🗓
Full details on the 2022 race schedule 👀#F1 https://t.co/83jpzDtDOk
— Formula 1 (@F1) October 15, 2021
Na altura, do tweet da Formula 1 a Rússia ainda integrava o calendário mundial. Podes ver aqui o calendário mais atualizado.
Este alargamento do calendário já seria previsível uma vez que quanto mais provas existirem, mais dinheiro é gerado, mas também porque a popularidade da modalidade tem crescido a um ritmo estonteante. Cada vez mais existe uma procura por parte dos países em garantir que têm um grande prémio no seu território. Para se ter bem noção desta procura, segundo Stefano Domenicali, CEO da F1, existe interesse suficiente para cerca de trinta provas.
Por outro lado, o calendário mais longo, além de causar um cansaço acrescido nos pilotos e nas equipas, é também contraditório relativamente à questão da sustentabilidade. Ao existirem mais deslocações e mais viagens irá existir uma pegada carbónica maior.
Uma vez que o grande desafio passa por esta maximização da logística que a F1 envolve, este alargamento acaba por ser um entrave e uma barreira.
Aumentar o calendário e ter um futuro mais sustentável parecem ser caminhos em direções opostas. Basta olharmos para as rotas definidas no calendário da presente temporada. Logo no primeiro trimestre, tivemos uma rota que começou na Arábia Saudita, passou pela Austrália, Itália e Estados Unidos, terminando em Espanha.
Ora, numa altura em que se procuram soluções que possam reduzir a distância percorrida entre provas, esta sequência não faz qualquer tipo de sentido.
A Fórmula 1 afirma que pensa em como tornar as rotas mais ecológicas, mas depois deparamo-nos com situações como esta.
Estas contradições colocam em cheque a postura da modalidade relativamente à sustentabilidade e geram descontentamento por parte de alguns pilotos e equipas. Sebastian Vettel, uma das vozes mais ativas na F1 e Adrian Newwy (Responsável Técnico da Red Bull) são duas das figuras que já deram a sua opinião, mostrando a sua posição no que à questão da sustentabilidade diz respeito.
“You’ve talked a lot about energy…does that make you a hypocrite?”
“When I get out of the car, of course I’m thinking, is this something that we should do?”
On #bbcqt tonight, F1 driver Sebastian Vettel and the panel discuss the energy crisis.
Join us at 10.40pm on @BBCOne. pic.twitter.com/LVMMs4CuvY
— BBC Question Time (@bbcquestiontime) May 12, 2022
CONSEGUIR SER O DESPORTO MAIS RÁPIDO DO MUNDO, DA FORMA MAIS ECOLÓGICA POSSÍVEL
Em modo de conclusão, creio que este é um tema muito complexo e que envolve uma preocupação e uma vontade constante, por parte dos intervenientes e das entidades competentes, em tornar a Fórmula 1 um desporto cada vez mais sustentável. É certo que o caminho é longo e não se assume fácil, contudo esta política de neutralidade carbónica até 2030 parece ser um passo importante nesta caminhada.
Por outro lado, o posicionamento da FIA relativamente ao alargamento do calendário acaba por ser contraditório com esta meta para 2030 e levantar a ideia, já tantas vezes levantada, de que a Fórmula 1 é dinheiro e somente dinheiro. O que acaba por dar uma má imagem a um desporto que tem atraindo cada vez mais pessoas e ganhando uma popularidade cada vez maior.
Creio que o grande desafio da Fórmula 1 nos próximos anos passa por conseguir continuar a ser o desporto mais rápido do mundo, mas da forma mais ecológica e eficiente possível. Mais do que nunca, o apagar das luzes significa acelerar. Acelerar rumo a um caminho sustentável, assumindo-se como um pilar na transição para um mundo “cada vez mais verde”.













