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Fórmula E: Com os protões, marchar, marchar!

Luís Manuel Barros · 6 min

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Vivemos, atualmente, num mundo diferente, um mundo mais afastado, onde as pequenas interações e carinhos estão colocados de lado em favor do bem comum. Os arrepios na espinha só possíveis com a presença física num concerto, num cinema, numa corrida, tudo isso foi retirado subitamente da nossa vida, e é a isso que, durante uns tempos, teremos de chamar normal.

O mundo do desporto motorizado teve a necessidade de se adaptar a essa mesma realidade, e após uma paragem quase total de todos em março, os meses de Julho e Agosto marcaram o regresso do cheiro a gasolina e pneu queimado. O tema principal desta análise não se enquadra com o cheiro a gasolina por uma simples razão, é o principal campeonato de veículos eléctricos do mundo, a Fórmula E.

Ao contrário das principais categorias do desporto motorizado, a época de Fórmula E já levava consigo cinco corridas realizadas antes da paragem por completo devido à pandemia, e da alteração de calendário, que nos retirou de todas as fantásticas urbes visitadas pela categoria nesse mundo fora, afunilando-se o calendário para seis corridas finais em Berlim.

O campeonato começou ainda em 2019 com duas rondas seguidas em Daria, na Arábia Saudita. A sensação transportada destas primeiras corridas foi a de um campeonato equilibrado ao nível do anterior, com diferentes pilotos capazes de vencer diferentes corridas a qualquer momento. Os campeões DS Techeetah não aparentavam estar tão competitivos como em épocas anteriores, o que mudaria na corrida a seguir, no Chile, com o segundo lugar de António Félix da Costa a confirmar que ainda havia muito para dar pela equipa dourada.

Uma visão de tempos melhores
Fonte: Formula E

O feito seria repetido na corrida seguinte na cidade do México, mas desta vez Jean Éric Vergne era capaz de fazer companhia a Félix da Costa nos pontos. Esta ascensão de não pontuar na primeira corrida para serem a equipa mais consistente em todo o tipo de circuitos, foi fulcral no resultado final da época, e o domínio demonstrado em particular por António Félix da Costa, que regressava ao topo do pódio em Marraquexe, agarrando a liderança do campeonato com uma vantagem de 11 pontos para o único homem que parecia capaz de o ameaçar, Mitch Evans (Jaguar).

A corrida de Marraquexe ficaria marcada como a última em meses, pois seria a partir daí que o mundo se isolava, sendo cancelados praticamente todos os eventos desportivos a realizar. O lugar do piloto passava para o cockpit virtual, com várias corridas virtuais solidárias da parte da Fórmula E. O maior acontecimento deste período foi, sem dúvida, a suspensão de Daniel Abt (Audi) pela sua equipa, após colocar um piloto virtual profissional a substitui-lo no seu compromisso numa dessas corridas virtuais. Para o seu lugar entrou o bicampeão da DTM, René Rast, sendo que Abt, já parte da mobília da equipa alemã, entrava para os eternos “backmarkers” a Nio Racing.

Pelo meio de tudo isto, e do ensurdecedor silêncio dos desportos motorizados durante o confinamento, chegavam novidades, o campeonato seria terminado em pouco mais de uma semana, com seis corridas em Berlim, em três configurações de pista diferentes. Obviamente, sem público e com todas as regras de segurança, isto era a Fórmula E a querer despachar o assunto da forma mais eficiente e rápida possível.

Era pedido a António Félix da Costa que para confirmar o campeonato apenas fosse calmamente recolhendo os pontos dele, aproveitando a imprevisibilidade da Fórmula E para ser o rapazinho pensador e consistente que, de calculadora na mão, vencia o campeonato. Mas ele não quis nada com isso, o homem estava com tanta sede de vencer, que conseguiu, pela primeira vez na Fórmula E, a pole position, a volta mais rápida e a vitória, para um total de 30 pontos de uma só vez. Com todos os seus rivais mais próximos a não terem uma boa corrida, o português disparou para o topo do campeonato, mas ainda assim não estava satisfeito, e na segunda corrida, vence mais uma vez, da pole, a dominar a corrida, a aplicar um sublime distanciamento social na tabela classificativa, com mais do dobro dos pontos do segundo classificado.

Primeira época notável para a Mercedes
Fonte: Formula E

Só aí é que o português acalmou, e começou a recolher os pontos “necessários”. Max Gunther (BMW) aproveitava para vencer a segunda corrida da temporada, numa fabulosa batalha com Robin Frijns (Virgin), naquela que foi possivelmente a corrida da temporada. Por entre isto, Jean-Eric Vergne regressava aos pódios, após duas corridas horríveis, que foram o exemplo da época inconsistente do bicampeão francês.

Vergne respondia com uma vitória na corrida seguinte, com dobradinha da DS Techeetah, que servia para garantir o campeonato para o António Félix da Costa e para a equipa, a duas rondas do fim.

As duas últimas provas serviram apenas para fazer campeonato e decidir as posições ainda em dúvida. Oliver Rowland (Nissan) estreia-se a vencer na Fórmula E, numa corrida em que se deve destacar a excelente performance de René Rast. Já a prova final, assustou alguns fãs do desporto motorizado, porque no seu primeiro ano como equipa oficial, a Mercedes conseguiu uma dobradinha na Fórmula E, deixando todos os fãs de Fórmula 1 que regozijam na competitividade e imprevisibilidade da Fórmula E, com flashbacks do domínio da marca da estrela.

No final de contas, foi uma época diferente, em todos os pontos de vista. Não foi tão competitiva como outros anos, mas a qualidade das corridas esteve sempre lá, vimos o maior número de equipas de fábrica da história da modalidade, o que fomenta uma ainda maior competitividade nos próximos anos.

O campeão foi o mais dominante das seis temporadas da Fórmula E, e foi português. Foram 158 pontos no total, para os 87 do segundo classificado, Stoffel Vandoorne. Agora é esperar pela próxima temporada, que, desta vez, será ao volante dos espectaculares carros da Gen 3.

Foto de Capa: Formula E

PILOTO DA ÉPOCA

António Félix da Costa – É preciso dizer mais alguma coisa? Foi o campeão mais dominante da história da Fórmula E. Mesmo com todas as regras aplicadas na Fórmula E para “prejudicar” os pilotos do topo da tabela, António Félix da Costa conseguiu ser o mais consistente possível, com o mesmo carro de um bicampeão, que foi completamente dominado esta época. Todos conhecemos a qualidade do António, mas vê-la valorizada com ouro, faz bem ao nosso patriota interior.

DESILUSÃO DA ÉPOCA

Fonte: Audi Sport

Audi – A Audi Sport ABT Schaeffler é uma das equipas originais da Fórmula E. Durante as cinco primeiras temporadas, apenas uma vez terminou em terceiro lugar, sendo que de resto ficava sempre em segundo, e foi campeã em 2018. Nesta época, com basicamente todos os seus rivais diretos do mundo automóvel a competir na Fórmula E, apenas ficou à frente da estreante Porsche, no sexto lugar. A menos experiente BMW fez melhor, a estreante Mercedes conseguiu o terceiro lugar!!! E, acima de tudo, a cliente da Audi, Virgin Racing, conseguiu ficar acima deles no campeonato.

Não sei precisar qual o problema, Lucas Di Grassi perdeu bons pontos devido à sua constante cabeça quente na hora de batalhas roda a roda, mas ele não deixa de ser um ex-campeão pela equipa, Daniel Abt pouco fez na primeira metade da época, sendo que René Rast se mostrou muito mais à altura da equipa.

Uma das equipas mais importantes da Fórmula E, não pode permitir este tipo de quedas quando o desporto se vai tornar cada vez mais competitivo, porque agora as consequências das derrotas, podem ter verdadeiros efeitos no mundo real.

Artigo revisto por Joana Mendes

Luís Manuel Barros

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