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Sebastian Vettel e Ferrari: Do conto de fadas, ao divórcio

Luís Manuel Barros · 8 min

Foto: Formula 1

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Caso tenham passado esta semana debaixo de uma rocha (é uma forma legítima de confinamento), foram anunciadas várias mudanças nas equipas para a época de Fórmula 1 de 2021.

Tudo começou com murmúrios vindos da Alemanha de que Sebastian Vettel e a Ferrari não tinham chegado a acordo para uma renovação, sendo confirmado no dia seguinte pela equipa a veracidade dos rumores. Isto ativou a chamada “silly season” sem sequer termos visto os carros em pista competitivamente. Graças a esta mudança, Carlos Sainz foi anunciado na Ferrari, e para o seu lugar na McLaren vai Daniel Ricciardo, mas o artigo de hoje não se foca neles, mas sim em Vettel e na Ferrari.

Um alemão vestido de vermelho trazia memórias de domínio absoluto e, nos primeiros tempos, parecia que a relação tinha tudo para crescer, mas cinco anos depois, chegamos a 2020, e chegamos ao divórcio, sem o tão prometido título. Mas afinal, porque é que surge esta separação?

2014

Para contar a história temos de saltar para 2014. Sebastian Vettel e a Red Bull Racing têm o mundo a seus pés, após a combinação Vettel/Horner/Newey arrecadar quatro campeonatos de pilotos e construtores em anos consecutivos, mas uma mudança radical de paradigma está para chegar – a introdução das motorizações turbo-híbridas -, onde a Renault se desleixou e a Mercedes dominou.

O carro da Red Bull é o segundo melhor carro do ano, mas, surpreendentemente, Sebastian Vettel também é o segundo melhor piloto da equipa, sendo facilmente batido pelo recém-chegado Daniel Ricciardo. Sentindo que está na hora de seguir um novo rumo, Vettel decide seguir as pisadas do seu ídolo Michael Schumacher, e assina pela Ferrari para a época de 2015.

O sonho começou na perfeição
Fonte: Formula 1

2015

A época começou quase na perfeição, com uma vitória logo na segunda corrida, e resultados deveras positivos, tendo em conta que mais ninguém lutava pelo campeonato a não ser a Mercedes. Com esse panorama em vista, o terceiro lugar no campeonato para Vettel, graças a três vitórias e 13 pódios, foi absolutamente fantástico para a equipa, tendo em conta o quão terríveis tinham sido no ano anterior. O ambiente era positivo a caminho de 2016, com muitos a acreditar que seria desta que alguém desafiava a Mercedes, mas…

2016

O carro da Ferrari de 2016 não atingiu as expectativas, pelo contrário, parecia um passo atrás. A Mercedes estava ainda mais dominante, e a Red Bull com Daniel Ricciardo tinha evoluído para um bom nível, e superaram o alemão. Esta foi a época em que começamos a ver sinais de um Vettel muito nervoso, que facilmente deixava as suas emoções vir ao de cima, como os sermões a Daniil Kvyat, que o substituiu na Red Bull, ou a discussão acesa que teve pelo rádio durante o Grande Prémio do México, onde atacou Max Versappen e Charlie Whiting, queixando-se da condução obstrutiva do piloto belga, decidindo de seguida fazer exatamente o mesmo a Daniel Ricciardo, o que resultou numa penalização. Isto foram pequenos sinais que no ano seguinte foram amplificados.

2017

Em 2017, finalmente a Ferrari tinha um carro capaz de enfrentar a Mercedes e, até setembro, Sebastian Vetel liderou o campeonato, mas pelo meio desse período temos o famoso incidente de Baku com Lewis Hamilton.

Tudo parecia correr de feição para Vettel, mas, em Singapura, numa corrida onde tinha todas as condições para se distanciar de Hamilton na liderança do campeonato, devido à fraca performance da Mercedes nas ruas asiáticas, o alemão sai de pole position e aperta Max Verstappen logo nos primeiros metros da primeira volta, criando o caos completo, ao retirar o belga e o seu colega de equipa Kimi Raikkonen da corrida, o que acaba por dar a liderança a Hamilton, que vence facilmente.

A partir desta corrida, tudo o que tinha de correr mal, correu. A esperança já não era a maior, mas problemas de fiabilidade na Malásia e no Japão não ajudaram a luta pelo campeonato. Hamilton acaba por vencer o campeonato no México, e o que parecia ser um campeonato renhido até ao final, tornou-se num passeio para a Mercedes na segunda metade do ano, enquanto olhavam e viam Vettel e a Ferrari a tropeçar para um insatisfatório segundo lugar.

E assim começa uma tradição a cada segunda metade da época…
Fonte: Formula 1

2018

Mas se a Ferrari fez um carro competitivo em 2017, também o conseguia em 2018, certo?!

Sim, sem dúvida que sim, o carro da Ferrari em 2018 não era dominador, mas na primeira metade do ano, na maioria das corridas, era superior. O bólide italiano conseguia um fantástico equilíbrio entre o domínio das retas da Mercedes e a agilidade do Red Bull, conseguindo ser o carro mais rápido nas pistas menos específicas como Silverstone ou Hockenheim.

Por falar na pista alemã, Vettel mais uma vez parecia pronto para transportar uma liderança para a segunda metade da época, mas, em Hockenheim, enquanto seguia confortável na liderança, com a chuva a cair apenas em certas partes da pista, Vettel perde o controlo do carro e embate nas barreiras em frente dos seus fãs caseiros, oferecendo numa bandeja, a vitória a Lewis Hamilton, mais uma vez.

As coisas pareciam más, mas todos estavam confiantes que era apenas uma vez sem efeito, o carro da Ferrari já tinha provado ser superior, a desvantagem seria fácil de recuperar, e começar a segunda metade da época com uma vitória em Spa não é uma má forma de afirmar esse intento, mas foi na corrida seguinte, perante o “mar vermelho” de Monza, que começou algo que iria marcar Vettel durante os próximos tempos, a chamada “Mission Spinnow”.

Sem nenhuma explicação aparente, Vettel perdia o controlo da traseira do carro e entrava num pião. Aconteceu em Monza, numa provável vitória da Ferrari, aconteceu em Suzuka, quando o ritmo do Ferrari na corrida ameaçava a vitória, e aconteceu nos Estados Unidos, quando um Ferrari acabou por vencer essa mesma corrida. Fosse por pressão, ou por algo de errado com o carro, a verdade é que Vettel perdeu pontos essenciais com estes despistes, mas o final de 2018 é também marcado por outra mancha na relação entre o piloto e a equipa: os erros estratégicos.

A Ferrari tropeçava sobre si mesma na segunda metade do ano com erros na qualificação em Suzuka, quando tinham o carro mais rápido ou medo de utilizar ordens de equipa, quando elas tinham mesmo de ser usadas na Alemanha. Consistência, foi a palavra de ordem, e com o acumular de erros da parte da Ferrari, Hamilton mais uma vez venceu o campeonato no México, quando a Ferrari aparentava ter tudo para vencer.

2019

Mais uma vez, o recém-chegado bate Vettel
Fonte: Formula 1

Em 2019, o carro desilude, muito bom em retas, mas bastante mais fraco do que a Mercedes nas curvas e gestão de pneus, mas não é a única mudança. Charles Leclerc segue para a Ferrari, e apesar da fama e velocidade demonstrada anteriormente na Sauber, poucos esperavam que ele fosse incomodar Vettel de imediato, o que aconteceu logo na primeira corrida, na Austrália, e depois no Bahrain, e na China, e em quase todas as corridas do principio do campeonato em que a equipa estava a perder pontos por não se decidir se tratava os dois pilotos como iguais, ou colocava um deles como o número um.

A época continuava, as trapalhadas estratégicas continuavam, e mesmo quando favoreciam Vettel ele não aproveitava, e então a equipa percebeu que Leclerc estava sempre mais perto das vitórias, e a balança de prioridade começou a mudar. Quando isto acontece, começam os erros infantis de Vettel de um lado da garagem, e as vitórias do outro.

Pelo terceiro ano consecutivo, as trapalhadas estratégicas da equipa, aliadas aos erros de Vettel resultaram num ano extremamente negativo para o lado da garagem do alemão. Vamos ser honestos, Charles Leclerc não foi perfeito, por vezes cometeu erros, dos infantis, mas são mais fáceis de aceitar porque estamos a falar de um piloto com dois anos de experiência, e não de um tetracampeão. Desta vez os momentos bons, como a vitória em Singapura, foram muito menos frequentes do que os momentos maus, e colocou uma grande mancha na relação de Vettel com a Ferrari.

2020

Finalmente chegamos a 2020, e não há acordo para renovar após este ano, Vettel irá sair da Ferrari após cinco anos muito conturbados, mas se era o grande sonho dele, porque é que não resultou?

Sebastian Vettel é um piloto que necessita de detalhe, de um nicho no qual ele encaixa, de uma equipa à sua medida, de um carro perfeito para as suas características como piloto. Na Red Bull era isso que ele tinha, era uma equipa cuja personalidade se moldou à sua volta, e carros com níveis altíssimos de “downforce” traseira. Quando esse conforto desaparecia, víamos Vettel a ser exposto, como em 2014 face a Daniel Ricciardo. E atenção, não estou a desvalorizar os quatro títulos de Vettel, de todo, ele vai ficar como um dos melhores da história, é inegável, mas em termos de sobrecarga psicológica, a rigidez da Ferrari talvez seja um pouco demais para ele, tal como foi para outros pilotos ao longo da história, como Prost e até Fernando Alonso.

Na Red Bull, ele sabia que podia confiar totalmente na equipa para lutar por vitórias, eles raramente o desiludiam. Já na Ferrari, receberes uma estratégia após todos os erros ao longo dos anos, de certeza que te deixará com uma desconfiança do que aí vem, e se desconfias da equipa, não confias no carro e os erros aparecem na corrida. O simples facto de, em 2019, a equipa parecer que nem tentou construir um carro que encaixasse com o estilo de condução do Vettel ao de cima, mostra bem a diferença entre os dois ambientes. Alguém tão emocional como o Vettel necessita de conforto, e não o oposto.

Outra das razões óbvias é o facto de Vettel não querer ser transformado num piloto de apoio, o que é perfeitamente compreensível, ele ainda tem muito para dar, mas não na Ferrari, e, honestamente, tirando uma grande surpresa, acredito que o alemão irá retirar-se da Fórmula 1, em vez de descer para o segundo pelotão.

Em janeiro de 2014, ainda antes de começar a era turbo-híbrida, Mark Webber, ex-colega de equipa de Vettel na Red Bull disse que “acho que o Seb fará tudo cedo na vida”, que “conseguirá os títulos cedo e as grandes vitórias, que terá filhos cedo, e que tentará a sorte no carro vermelho, e dirá adeus”. Cá para mim, o Mark Webber é um profeta.

Foto de Capa: Formula 1

Artigo revisto por Joana Mendes

Luís Manuel Barros

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