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Por vezes parece que quanto mais improvável é algo, mais provável isso se torna. Para a imprensa, para os adeptos, para a quase totalidade dos fãs de UFC, Rafael dos Anjos nunca teve hipótese contra um Anthony Pettis, que iria passear, enquanto esperava pelo combate “a sério” com Khabib Nurmagomedov. A realidade é que Dos Anjos atropelou (isso mesmo, atropelou) Pettis e, com ele, toda a categoria de peso Leve.

O cartaz principal do UFC 185 presenteou-nos com grandes combates. O primeiro teve como protagonistas Chris Cariaso, antigo pretendente ao título de Flyweight, e Henry Cejudo, medalha de ouro em Wrestling nos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, e invicto na carreira profissional de MMA. Apesar da maior experiência de Cariaso, Cejudo esteve sempre por cima da luta, mostrando-se superior não apenas no que ao wrestling diz respeito, mas também no jogo em pé, mais propriamente na capacidade de striking. Cariaso nunca conseguiu assumir o controlo do combate contra um Cejudo agressivo e com vontade de levar a luta ao adversário, pelo que a vitória por unanimidade (40-27) é mais do que justa. Se Cejudo, que já demonstrou ter problemas em atingir o peso necessário para combater nesta categoria, conseguir acertar com a balança, é muito provável que venha a ter um combate pelo título de Demetrious Johnson em 2015.

A luta entre Roy Nelson e Alistair Overeem seguiu-se e, ao contrário daquilo que era esperado por muitos, não terminou por K.O. Isto deve-se, provavelmente, muito ao trabalho do holandês Overeem, nono no ranking de pesos pesados, que mudou de campo de treino e, logicamente, de treinador, sendo este, agora, Greg Jackson, o treinador de lutadores como, por exemplo, Jon Jones, campeão da categoria Light Heavyweight e o actual melhor lutador pound-for-pound. A influência de Jackson revelou-se na luta: Overeem deixou de ser o lutador que corria riscos desnecessários em busca de K.O. para passar a adoptar uma postura mais calculista e de controlo dentro do octógono. Os pontapés oblíquos ao joelho e os pontapés ao corpo foram algumas das armas que “Reem” usou, para além de um bom trabalho de mãos, para ir desgastando Nelson que só no final do combate causou real dano e sensação de perigo ao holandês. Apesar de tudo, o americano Roy Nelson mostrou, como já havia feito noutros combates, ter uma resistência à pancada acima do normal. Overeem acabou mesmo por vencer o combate por unanimidade (30-27) e mostra ter uma nova vida dentro do octógono.

O terceiro combate da noite foi, também, um bocado contra a maré daquilo que era esperado. Johny Hendricks e Matt Brown tinham (e têm) todas as características para transformar este combate numa ode ao striking mas, conforme foi dito na antevisão feita pelo Bola na Rede ao evento, existia a possibilidade de Hendricks voltar às suas raízes e optar por utilizar o seu wrestling, primando assim por obter maior controlo da luta, procurando menos finalizar. De facto, Hendricks dominou Brown com derrubes atrás de derrubes, trabalhando mais no chão. Matt Brown nunca mostrou ter jogo para se opor a Hendricks a este nível, pelo que optou sempre por jogar em pé, salvo algumas tentativas, sem sucesso, de submissão no chão. Brown esteve sempre fora de pé num combate que, apesar de não ter sido bonito ou vistoso, acabou por ser uma ode, sim, mas aos aspectos técnicos do MMA. A vitória unânime (30-27) de Hendricks é incontestável e poderá servir de catapulta para um novo combate pelo título de Welterweight.

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Joanna Jedrjczyk (na foto) tornou-se na nova campeã da categoria de Strawweight feminino após vencer Carla Esparza, sendo a primeira polaca a conquistar um titulo na UFC Fonte: UFC
Joanna Jedrjczyk (na foto) tornou-se na nova campeã da categoria de Strawweight feminino após vencer Carla Esparza, sendo a primeira polaca a conquistar um titulo na UFC
Fonte: UFC

Foi a partir do co-evento principal que as verdadeiras surpresas surgiram. A campeã Carla Esparza defendia o seu título contra a temível e invicta Joanna Jedrjczyk. Apesar do que diziam as casas de apostas, Joanna foi vista por muitos como a provável vencedora deste combate. Previa-se, portanto, um combate renhido e uma luta de estilos: o wrestling de Carla Esparza e o Muay Thai de Jedrjczyk. O que se passou foi, no mínimo, surpreendente. O combate começou com algum clima de teste mútuo. Esparza tentou o primeiro takedown, defendido pela polaca. E outro, novamente defendido. À terceira acabou por conseguir, mas Joanna rapidamente se recompôs. Esparza acaba por tentar outro takedown, novamente defendido. Entre tentativas de takedown, Joanna trabalhava o seu jogo em pé, criando claras situações de perigo com o seu striking. Ao final da primeira ronda era visível que Joanna estava por cima do combate.

No entanto, seria de esperar que a campeã mostrasse de que material é feita. A verdade é que nunca o fez. Joanna entrou agressiva na segunda ronda e com a mesma estratégia da primeira: defender as tentativas de derrube, atacar em pé. A forma como Joanna banalizou Esparza na sua especialidade, e mesmo no geral, é a verdadeira surpresa deste combate. Na segunda ronda, Esparza parecia mais uma lutadora amadora do que uma campeã. Joanna ia encurtando os espaços e castigando Esparza. Acabou por a atingir com um murro de direita cruzado que a abalou, seguido de uma cotovelada e uma sequência devastadora de socos que obrigou o árbitro a parar o combate. A incrível prestação de Joanna fez com que tudo parecesse fácil e valeu-lhe o título de Strawweight. A divisão tem um novo fôlego.

O combate só teve um sentido: o de Dos Anjos. Controlou o combate de início ao fim, vencendo o título por unanimidade Fonte: UFC
O combate só teve um sentido: o de Dos Anjos. Controlou o combate de início ao fim, vencendo o título por unanimidade
Fonte: UFC

A derradeira surpresa (ou não) da noite deu-se no último combate, em forma tanto de Rafael dos Anjos como de Anthony Pettis. O campeão, Pettis, entrou no combate com a promessa de que se tornaria num dos melhores pound-for-pound da UFC, que iria dominar a divisão, fazer história. Toda a promoção que o campeão teve gerou uma aura à sua volta que, em última análise, acabou por criar uma responsabilidade à qual este não conseguiu corresponder. A verdade é que o campeão, até à altura, teve apenas uma defesa de título desde que o conquistou, em Agosto de 2013.

Agora, todas as promos que se fizeram para Pettis parecem descabidas. Rafael dos Anjos esgueirou-se até ao combate do título – aparentemente todos se esqueceram de que, das últimas 9 lutas, Anjos apenas perdeu com Khabib Nurmagomedov, ganhando as restantes 8 de forma dominante. Dos Anjos entrou seguro e com vontade de dominar o combate, encurtando os espaços a Pettis desde início. Anjos procurava a luta, e não o contrário. A partir do primeiro derrube o combate foi todo de Dos Anjos. O cenário acabou por ser o mesmo em todas as rondas: o brasileiro a dar pouco espaço a Pettis, a desferir poderosos socos intercalados com takedowns, que acabava por aproveitar para controlar no chão, gerindo cada uma das suas pancadas e desgastando Pettis. Finalizadas as três primeiras rondas, estava à vista de todos que o combate era de Anjos. Pettis sabia que tinha que ditar o ritmo, tentar controlar o centro do octógono; sabia que finalizar era a única chance de vencer o combate. Nunca o fez. Muito por culpa de Dos Anjos, Pettis não conseguiu impor-se. Ia absorvendo os golpes do brasileiro mas pouco mais do que isso. Este último não correu riscos e procurou dominar também no último round, acabando por apostar muito em jogo de chão, gerindo bem o tempo. Terminada a ronda já se sabia o resultado: Dos Anjos tornou o improvável provável e sagrou-se campeão de peso Leve, com todo o mérito. Esta foi, provavelmente, a sua melhor prestação dentro do octógono e uma das que vai marcar a UFC para anos vindouros.

Resta saber que futuro espera Dos Anjos: Khabib Nurmagomedov e Donald Cerrone vão defrontar-se em Maio, no UFC 187, sendo que o vencedor será o próximo adversário de Dos Anjos, desta vez pelo título. Alguém se atreve a fazer previsões?

Foto de Capa: UFC