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Este UFC Fight Night, em Cracóvia, não estava destinado a ser bem sucedido. Apesar do combate principal ser entre dois históricos do MMA, pouco mais atraía neste cartaz. Nem o desfecho mais “desejado”, a redenção de Cro Cop, aumentou a excitação em torno do evento que, por falta de combates significativos no que toca a rankings e títulos das respectivas divisões, conquisto mais bocejos que aplausos. O facto de acontecer entre o Fight Night 63, encabeçado por Chad Mendes e Ricardo Lamas, e o Fight Night 65, protagonizado por Lyoto Machida e Luke Rockhold, dois importantíssimos nomes da categoria de Peso Médio, retirou-lhe a aura que a UFC pretendia.

O primeiro combate da noite foi, sem dúvida, um dos mais interessantes e relevantes do cartaz principal. Joanne Calderwood, a número 6 do ranking de Peso Palha feminino, e Maryna Moroz, estreante, procuraram fazer-se notar à UFC e à campeã Joanna Jedrzejczyk, que assistia das bancadas. Ambas estavam invictas à partida para o combate. Este decorreu de forma rápida: Maryna entrou agressiva e não mostrou medo do jogo em pé de Calderwood. Conseguiu, aliás, impor os seus strikes, encostando Calderwood à rede. Esta fechou um clinch, que foi contra atacado por Moroz, levando a adversária para a guarda e fechando, quase de imediato. Ao tentar fugir, Calderwood acabou por dar mais alavanca a Moroz, que aproveitou e obrigou a sua adversária a desistir aos 90 segundos da primeira ronda. Nos festejos, Moroz dirigiu-se à campeã e fez um gesto de cinto à volta da cintura. Moroz merece já uma oportunidade pelo título? Certamente que não, mas a divisão acabou de se tornar mais interessante.

Após a sua vitória sobre Calderwood, Maryna Moroz (na foto) prontamente desafiou a campeã Joanna Jedrzejczyk. Antevê-se um combate pelo título?  Fonte: UFC
Após a sua vitória sobre Calderwood, Maryna Moroz (na foto) prontamente desafiou a campeã Joanna Jedrzejczyk. Antevê-se um combate pelo título?
Fonte: UFC

O segundo combate foi um dos que mais bocejos arrancou ao público. Os meio médios Pawel Pawlak e Sheldon Westcott protagonizaram um combate com um teor bastante técnico e que decorreu junto à rede, durante a maior parte do tempo. À parte uma projecção e alguns golpes por parte de Pawlak, pouco mais se passou. Na segunda ronda, mais do mesmo, pelo que o árbitro por duas vezes teve de mandar os lutadores para o centro do octógono. À segunda, Pawlak percebeu a mensagem e mostrou-se mais agressivo. Levou a luta para o chão e castigou Sheldon a partir dos cem quilos. O polaco entrou com o mesmo espírito, mas a luta acabou por voltar para a rede. Westcott ficou fatigado e Pawlak aproveitou para levar a luta para o chão, novamente, e castigar mais um bocado Sheldon, que se limitou a aguentar até ao final. Vitória fácil, por decisão unânime, mas não vistosa para Pawel Pawlak. Terá de fazer melhor se ambiciona destacar-se nos rankings da UFC.

Num cartaz principal de apenas quatro lutas, o co-evento principal teve como protagonistas o número 9 do ranking de Peso Meio Pesado, Jimi Manuwa, que vinha de uma derrota contra Alexander Gustafsson, e um ícone dos desportos de combate polacos, Jan Blachowicz. Manuwa, apesar de Jan ter tido alguns rasgos, esteve sempre no controlo da luta. Ao longo das três rondas procurou sempre estar no centro do octógono, encurtando os espaços ao seu adversário. Fez uso dos seus fortes pontapés para desgastar o polaco e conseguir alguns pontos do júri. Na ultima ronda, Jan ainda assustou Manuwa com um pontapé alto, mas este rapidamente recuperou o controlo da luta, conseguindo algumas boas sequências e abrandando o ritmo através do clinch. No final, Manuwa venceu, justamente, por decisão unânime. Foi uma boa resposta à primeira derrota da carreira.

À altura do evento principal havia a sensação de que as coisas não iriam correr bem para Cro Cop. Este não era o mesmo desde a derrota no primeiro combate contra Gonzaga, derrota essa que veio por via de um pontapé alto, mesmo ao estilo do croata. Foi humilhante, sem dúvida. Cro Cop nunca teve muito sucesso na UFC, pelo que acabou dispensado em 2011. Fez mais algumas lutas em circuitos asiáticos, vencendo a maior parte delas – sem a espectacularidade de outros tempos, no entanto. Apesar de tudo, valeram-lhe um retorno à UFC e uma tão desejada desforra contra Gonzaga, número 14 do ranking de Peso Pesado, que lhe atirou a carreira para o seu momento mais baixo.

Cro Cop (por baixo) precisou de sofrer muito às mãos de Gonzaga (por cima) até conseguir arrancar uma vitória, na terceira ronda Fonte: UFC
Cro Cop (por baixo) precisou de sofrer muito às mãos de Gonzaga (por cima) até conseguir arrancar uma vitória, na terceira ronda
Fonte: UFC

Aos 40 anos, Cro Cop mostrou que ainda existe dentro dele algo semelhante aos tempos da Pride. Gonzaga castigou a lenda do MMA na primeira ronda, com destaque para a luta no chão, onde quase fechou uma chave de perna e acabou por terminar a ronda a desferir cotoveladas certeiras. Na segunda esquerda viu-se mais do dominador Gonzaga e o mesmo Cro Cop passivo. Mais uma vez, a maior parte do castigo a Cro Cop deu-se no chão. Para além das tentativas de submissão, Gonzaga desferiu feios golpes a Cro Cop, que terminou a segunda ronda com um visível e profundo golpe no sobrolho.

Foi na terceira ronda que o cenário mudou. Nesta ronda Gonzaga entrou mais lento, levou o combate para a rede e tentou a projecção. Após a falha, desferiu uma joelhada ao corpo de Cro Cop, mas deu-lhe espaço para conseguir a primeira grande sequência, que culminou numa cotovelada que abalou Gonzaga. Ainda que a risco, Cro Cop mandou-se para a guarda de Gonzaga, ignorando o seu poderio a nível de Jiu Jitsu, para trabalhar no ground and pound. Após alguns golpes, conseguiu passar a guarda e, do controlo lateral, desferir alguns socos martelo que obrigaram o árbitro a parar a luta, dada a incapacidade de defesa por parte de Gonzaga. Não foi a vingança, a redenção com que Cro Cop certamente sonhou (a vitória mais saborosa seria, de certeza, através do clássico pontapé alto), mas serviu para terminar o pesadelo de oito anos.

É certo que, com eventos destes, a UFC procura potenciar novos mercados, pelo que aposta em lutadores locais e de alto perfil para a cidade ou país em questão. Tem, no entanto, de ter em atenção que, com um evento principal deste calibre, um reviver de um clássico, o apoio dado pelas lutas que o precedem tem de ser mais forte, algo que não se consegue com lutas que pouco ou nada alteram no panorama dito principal da UFC. Fica, pois, a sensação de que Cro Cop e Gonzaga mereciam um palco maior.

Segue-se, já este Domingo, dia 19, o Fight Night 65, encabeçado por Lyoto Machida e Luke Rockhold. Fiquem atentos à análise no Bola na Rede.

Foto de Capa: UFC

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