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Poucos fizeram aquilo que Rockhold fez sábado passado. Lyoto Machida, antigo campeão da categoria de Peso Médio-Pesado, foi dominado por completo. Se isso não parece nada de transcendente, recorde-se: Machida já lutou com os campeões Jon Jones e, mais recentemente, Chris Weidman. Se perdeu? Sim. Se foi dominado? Nunca de forma contundente. Machida sempre foi um mestre em frustrar o adversário e  em atraí-lo para uma armadilha, anulando assim o seu plano de jogo.

Rockhold chegou, imprimiu o seu jogo no combate sem grande dificuldade, fez Machida, que é faixa preta em Jiu Jitsu, parecer um amador no jogo de chão, e venceu. A descrição simplista com que refiro o processo é um retrato fiel do combate, que será analisado ao pormenor mais adiante.

Se o evento da semana passada, encabeçado por Cro Cop e Gonzaga, deixou bastante a desejar, o de esta semana foi uma verdadeira alegria de se ver, com combates empolgantes e que, de facto, têm interesse no panorama geral da UFC.

E, de facto, não havia melhor forma de dar começo ao cartaz principal: a controversa Paige VanZant e Felice Herrig protagonizaram um excelente combate, mais a primeira do que a segunda. VanZant estava sob o escrutínio de jornalistas, fãs e até mesmo lutadores, após ter suplantado muitas outras lutadoras, mais experientes e com melhor recorde de vitórias, por um contrato com a Reebok, patrocinadora oficial da UFC.

VanZant apenas tinha uma luta na promotora, cinco em toda a carreira, ostentando um recorde de quatro vitórias e uma derrota, pelo que muitos ficaram com a impressão de que apenas o conseguira por ter bom aspecto. Pois bem, VanZant desfez todas as críticas com um combate brilhante e uma vitória assertiva. Dominou as três rondas, do início ao fim, sem aparentes dificuldades, castigando Herrig maioritariamente no chão, via ground and pound, terminando todas as rondas desta forma.

Herrig ainda fez algumas tentativas de submissão, mas nunca pôs VanZant em perigo, limitando-se mesmo a aguentar as pancadas da jovem de 21 anos, que visivelmente lhe causou grande fadiga com o seu estilo frenético. No final poucas dúvidas restavam de que Paige VanZant é um caso sério na categoria feminina de Peso Palha.

Resta saber se a UFC vai lança-la já para um combate com a campeã Joanna Jedrzejczyk – o que seria um erro, pois VanZant ainda não está ao nível da campeã, apesar de valer muito enquanto “produto” – ou se vai ter paciência e coloca-la gradualmente em combates mais difíceis, esperando assim que esta se desenvolva. Esta seria, à partida, a decisão mais sensata. Independentemente da escolha, VanZant é jovem e tem um futuro brilhante pela frente. Espera-se mais do mesmo.

O segundo combate não ficou atrás do que lhe antecedeu. Sobre este podemos retirar uma conclusão: Max Holloway é um caso (muito) sério. Desde as duas derrotas seguidas em 2013, com Dennis Bermudez e Connor McGregor, que tem sido sempre a subir para o havaiano. O combate contra Cub Swanson, à data o número 5 do ranking de Peso Pena, traduziu-se em vitória – a maior da sua jovem carreira.

O domínio contra um dos mais temíveis strikers da divisão foi avassalador e afastou-o do estatuto de promessa para o de (quase) confirmação. Se a primeira ronda teve um Swanson mais à imagem de si mesmo – a bater forte -, as restantes duas foram um retrato pouco fiel daquilo que tem sido a sua carreira, muito por mérito do adversário.

A guilhotina que deu a vitória a Max Holloway (calções azuis) e, efectivamente, o catapultou para um lugar de verdadeiro destaque na divisão de Peso Pena Fonte: UFC
A guilhotina que deu a vitória a Max Holloway (calções azuis) e, efectivamente, o catapultou para um lugar de verdadeiro destaque na divisão de Peso Pena
Fonte: UFC

A segunda ronda terminou com uma forte mão por parte de Holloway, que se fez sentir em Swanson. À entrada para a terceira isso notou-se: Holloway entrou com uma boa investida e era agora mais capaz de conectar golpes em Swanson. O início do fim deu-se com um pontapé forte ao corpo de Swanson, que o deixou abalado. Após uma tentativa de submissão por parte de Holloway, os lutadores levantaram-se, só para mais tarde o havaiano acertar em Swanson com uma boa sequência, que lhe criou espaço para fechar uma guilhotina, responsável pela derrota do veterano.

A vitória catapultou-o nos rankings e cria um panorama interessante de possíveis combates: provavelmente enfrentará Ricardo Lamas, que recentemente perdeu contra Chad Mendes. Se vencer estará muito próximo de lutar pelo título, que, se tiver como dono Conor McGregor, que irá tentar tirá-lo de José Aldo, será uma das mais interessantes desforras dos últimos tempos na UFC.

O co-evento principal deste Fight Night deixou um sabor agridoce. Não foi, de todo, um combate mau. Longe disso, até. No entanto, Ronaldo “Jacaré” Souza tinha como original adversário Yoel Romero, que se lesionou na semana anterior ao evento. Chris Camozzi – que foi vencido por “Jacaré” na estreia deste na UFC e acabou dispensado após ter perdido quatro combates de seguida – assinou com a promotora apenas para substituir Romero. O estatuto de ambos os lutadores é bastante diferente, pelo que “Jacaré”, ganhasse ou perdesse, daria sempre um passo atrás.

O combate, esse, não tem muito que se lhe diga: entrada de Jacaré, Camozzi fecha a guarda, Jacaré passa a guarda, fica nos cem quilos e de seguida nas costas. Camozzi tenta inverter, deixa o braço, Jacaré fecha armlock e Camozzi desiste verbalmente. Dois minutos e meio de combate nos quais Jacaré nem suou, apenas cumpriu calendário. Tivesse esta vitória sido contra Yoel Romero e certamente Jacaré Souza estaria na liderança por uma luta pelo título de Peso Médio. Mas Luke Rockhold aproveitou esta ocasião e fez o seu trabalho.

Parece comum, ultimamente, dizer que lutador X ou Y fez a luta da sua carreira. Apesar de Rockhold já ter sido campeão da Strikeforce (título que venceu contra Jacaré Souza) esta foi, verdadeiramente, até ao momento, a luta da sua carreira.

O domínio sobre Lyoto Machida e a sensação de impotência que este nos transmitia devem-se inteiramente ao mérito de Rockhold e não ao demérito do brasileiro. O início do fim do brasileiro deu-se com uma forte direita de Rockhold, que o abalou. A partir daí foi one-man show: Rockhold anulava todas as tentativas de ganhar posição vantajosa de Machida, passando com relativa facilidade dos cem quilos para as costas, para a pressão na rede, para as costas, e assim sucessivamente. Rockhold fazia o que queria, castigava Machida através de ground and pound e tentava submissões com relativa facilidade, com destaque para um Mata-Leão no final da primeira ronda.

Rockhold (calções pretos) banalizou Machida em todas as fases da luta, levando a luta para onde queria, quando queria, como queria. A vitória lança-o para ao título Fonte: UFC
Rockhold (calções pretos) banalizou Machida em todas as fases da luta, levando a luta para onde queria, quando queria, como queria. A vitória lança-o para ao título
Fonte: UFC

A campainha salvou o antigo campeão de Peso Meio-Pesado no primeiro assalto, mas o mesmo não aconteceria no segundo assalto. Rockhold entrou com noção do estado de Machida, que no final da primeira ronda, à ida para o canto, não tinha noção do espaço e do que se tinha passado. Posto isto, Rockhold castigou-o desde o início, com bons pontapés ao corpo. Machida ainda não estava recuperado do castigo da primeira ronda, pelo que com uma direita e, literalmente, um empurrão foi ao chão, dando as costas a Rockhold, como forma de se defender, o que permitiu ao californiano fechar novamente um Mata-Leão, desta vez com sucesso.

Rockhold banalizou Machida e catapultou-se para um combate pelo título. “Eu fiz a minha parte. Weidman, vai fazer a tua”, disse Rockhold. Se para Jacaré este Fight Night foi uma lose-lose situation, para Rockhold foi precisamente o contrário: se no confronto entre o campeão Weidman e Belfort ganhar Weidman, antevê-se um combate em Madison Square Garden, o primeiro da história da UFC em Nova Iorque (este estado não considera legal o desporto de MMA); se Vitor Belfort vencer, antevê-se uma desforra para Rockhold contra a única mancha no seu currículo na UFC. Independentemente do resultado e da escolha do candidato, seja Jacaré ou Rockhold, a divisão de Middleweight está bem entregue.

Foto de Capa: UFC

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