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O simulador onde Nathan Aké é melhor que Franco Baresi | eSports

Pedro Gonçalves de Andrade · 8 min

Foto: FIFA 21

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Se há jogo cuja receção da sua comunidade tem sido atribulada nos últimos anos é o jogo FIFA da Electronic Arts. De streamers do jogo a competidores em torneios oficiais há sempre críticas e desejos de melhorias que nunca se verificam.

Desde o FIFA 19 que a comunidade do FUT (FIFA Ultimate Team) acusa alguns mecanismos do jogo terem demasiado poder. No entanto, é importante lembrar que, acima de tudo, este jogo é uma simulação de futebol e é algo que os programadores do jogo parecem esquecer-se. Ano após ano, jogo após jogo.

No FIFA 19, os jogadores abusavam da habilidade elástico em cadeia e do cruzamento El Tornado, duas habilidades que apenas cartas com cinco estrelas de habilidades técnicas eram capazes de fazer.

No ano seguinte, como tentativa de contrariar este tipo de situações, a EA optou por fazer um jogo focado na defesa. Um jogo onde qualquer habilidade técnica que fosse experimentada acabava nos pés do defesa. Todas as fintas menos uma: o drag back, uma habilidade tão simples que só era necessário ter duas estrelas de habilidade técnica para fazer. Esta finta era pura e simplesmente puxar a bola atrás e depois mudar para outra direção, o avatar podia fazer o movimento para cima do defesa, que mesmo assim ficava com a bola.

Outra situação que foi muito criticada nesta edição do jogo foram os auto-blocks. Nove em cada dez remates que não fossem completamente isolados na cara do guarda-redes eram intercetados pelo defesa de forma automática, ou seja, o jogador não precisava de controlar o avatar que mesmo assim o defesa fazia-se ao lance e conseguia impedir a bola de chegar à baliza.

No fundo, todos os jogos de FIFA 20 pareciam ser jogados num relvado curto e apertado. O que ficou bem notado quando Fnatic Tekkz após perder a final de uma FUT Champions Cup afirmou com todas as palavras que, neste jogo, não interessava quem era o melhor jogador de FIFA e que havia uma dependência de sorte neste jogo.

Por fim, temos o FIFA 21. As primeiras semanas de jogo foram muito bem recebidas. Parecia um jogo mais equilibrado com foco repartido tanto na defesa como no ataque, a IA defensiva era forte, mas não completamente impossível de bater. Os defesas eram capazes de desarmar os atacantes se a finta fosse feita com o timing certo, contudo, se o atacante executasse no momento certo o defesa era bem batido.

Não só havia equilíbrio entre defesa e o ataque, parecia um FIFA onde as qualidades da pessoa que pegava no comando fazia a diferença, e não era a sorte ou a vontade do jogo que definiam o vencedor do jogo.

Mal chegou a primeira atualização, os irrealismos chegaram e o fator sorte voltou a ser diferenciador. Num primeiro momento, foram os step overs. Jogos onde um jogador pegava na bola, e se marcasse primeiro, ficava os restantes minutos a fazer step overs de uma ponta do campo a outra sem perder a bola. A aceleração no seguimento da finta era tanta que não havia hipótese do defesa apanhar.

Ainda esta habilidade não tinha sido corrigida, já outra começava a ser explorada. The Bridge, um movimento técnico introduzido nesta edição do jogo bastante simples. O avatar dava um toque mais forte na bola e acelerava, tal como nos step overs, o aumento de velocidade era tanto que não havia forma dos defesas impedirem.

Os programadores, em vez de equilibrarem esta habilidade, tornaram-na completamente inconsequente, não só o step over tirava velocidade ao avatar, como o arranque a seguir à finta era lento demais para passar o defesa. Justiça seja feita, a correção no The Bridge foi bem feita, quando feita na altura certa batia o defesa, mas, caso contrário, e se o defesa estivesse bem posicionado ele recuperava a bola.

Foi nesta altura que apareceu a pior coisa possível desta edição do FIFA: os passes a desmarcar longos.

De forma resumida, como toda a criatividade ofensiva saiu do jogo, os jogadores começaram a jogar como no FIFA 20: muito recuados atrás, e a jogar no contra-ataque. No entanto, ao contrário do ano anterior, neste ano assim que se pegava a bola na defesa, bastava deixar o dedo no passe em profundidade que o atacante começava a desmarcar nas costas.

E o passe não precisava de ser apontado pelo jogador que o esférico ia lá parar, e apesar de todas as melhorias feitas a IA dos defesas do jogo, nestas situações eles faziam algo muito estranho. Caso se jogasse com dois centrais, os dois abriam, o que dava uma auto-estrada gigante para o avançado correr, o que facilitava o golo aparecer.

A solução que a comunidade FUT encontrou para impedir isto de continuar foi jogar com cinco defesas, sendo que por haver um terceiro central esta linha de passe tornava-se menos clara, mas não desaparecia por completo.

Atenção! Estes passes de 50 a 60 metros rasteiros não eram feitos pelos avatares de Pirlo, Beckham, De Bruyne ou qualquer outro jogador conhecido na vida real pela sua capacidade de passe. Esta questão dos passes leva-me ao maior irrealismo, e o meu maior problema com o jogo. A importância de determinados atributos em relação aos outros e como isso transforma literais lendas do desporto, completamente injogáveis nesta simulação de futebol.

Com jogadores como Varane e Joe Gomez a fazer passes de 60 metros a rasgar a defesa, apesar dos seus atributos de passe serem fracos, uma pessoa poderá pensar que se tentar fazer o mesmo com um jogador que tenha atributos de passe altos. Esse mesmo passe vai ser ainda melhor, mas isso não se verifica, quase que acontece o oposto.

Jogar com Andrea Pirlo, David Beckham e, acima de tudo, Paul Scholes no meio-campo é muito difícil. O mesmo pode ser dito de jogar com Jorginho ou Toni Kroos, com estes dois é virtualmente impossível.

Foto de capa: FIFA 21

O FIFA é um simulador de futebol onde um meio-campo com Marcos Llorente e Federico Valverde é melhor do que um com Verrati e Busquets. A dupla de centrais composta por Nathan Aké e Joe Gomez dá mais garantias que Chiellini e Sérgio Ramos. Na ala direita é melhor ter Lucas Moura que Angel Di Mária.

Fonte: FIFA 21

E, por fim, Harry Kane é pior opção para avançado quando comparado a Rodrigo Moreno. Atenção! Não estou a dizer que Llorente, Valverde, Aké, Gomez, Lucas e Rodrigo Moreno são maus jogadores de futebol, no entanto, parece-me que, na vida real, as outras opções são melhores. Mas neste simulador de futebol isso não se verifica, tudo porque os jogadores que não são selecionados podem ser bons a muitas características, mas falham algumas chave, acima de tudo não têm velocidade.

A EA sabe disto. Tanto que as primeiras cartas especiais que saíram no FUT, na sua edição mais recente, foram os Rule Breakers, onde o especial da carta era literalmente o aumento de determinados atributos e a descida de outros. A carta destaque desta campanha foi uma carta de Harry Kane com 90 de velocidade e menos de remate que a sua carta base.

Eu aqui já critiquei várias edições do jogo, no entanto, esta questão da velocidade vem de há muito tempo. Por exemplo, do FIFA 12 onde a tripla de ataque de Gervinho, Seydou Doumbia e Victor Ibarbo era possivelmente a mais temível do jogo. Tudo porque eram jogadores com imensa velocidade.

Este atributo é tão importante que, como já disse, transforma autênticas lendas do desporto em cartas completamente inutilizáveis. Para mim, onde isso é mais evidente é nos ícones disponíveis no jogo, na medida em que Sir Bobby Moore e Franco Baresi, dois dos melhores centrais da história do futebol, devido à falta de velocidade não são uma opção para quem quer ter uma equipa competitiva de FUT.

Ao olhar para as melhores cartas de cada ícone apenas um terço dos ícones pode ser considerado uma carta de topo na sua posição. Os restantes são utilizados por jogadores casuais que apenas querem jogar pelo divertimento ou então por jogadores que querem jogar com os seus ídolos.

Este ano, um adepto do Manchester United FC se fosse a fazer uma equipa de passado e presente do seu clube escolheria Fred em vez de Paul Scholes ou Roy Keane, Martial em vez de Rudd Van Nistelrooy, David Beckham perderia a sua posição para Daniel James e caso houvesse carta de Gary Neville, jogaria com Wan Bissaka no seu lugar. Isto é apenas o exemplo de um clube de vários que podem ser feitos.

Concluindo, o modo de jogo FUT, para um amante de futebol, é um dos melhores modos de jogo possível. Permite jogar com os nossos ídolos, jogadores do nosso clube e fazer um plantel de sonho para nós.

É a forma de jogar com Ronaldo, Neymar, Messi e Mbappé na mesma equipa, e juntar a estes craques do futebol moderno com lendas do passado como Patrick Vieira, Carlos Alberto e Cannavaro.

Contudo, o foco da EA devia estar em fazer um jogo mais equilibrado, onde habilidade e capacidade ofensiva permitissem lutar contra equipas ultra-defensivas, e onde acima de tudo mais que a velocidade e agilidade definirem se uma carta é boa em jogo ou não, ser a habilidade do jogador na vida real definir se a sua carta em jogo é das melhores do jogo ou não.

Não há volta a dar. Franco Baresi foi melhor jogador que Nathan Aké é neste momento e não faz qualquer sentido que em qualquer simulador de futebol que aspira ter um pouco de realismo, que isto não se verifique no jogo.

Moussa Sissoko é uma opção mais segura para a posição de médio defensivo que Frank Rijkaard ou Gennaro Gattuso. Michael Laudrup, um jogador aclamado como um dos melhores da sua geração e da sua posição, é uma carta em jogo que é pior que Papu Gomez.

E finalizando, Ben Yedder é um dos avançados com mais procura do jogo, nomeadamente, e muito melhor que goleadores como Pippo Inzaghi, Alan Shearer, Christian Vieri, Mirolsav Klose e Marco Van Basten.

Isto significa que – devido à forma como determinados atributos são valorizados em jogo – goleadores, bolas de ouro, vencedores natos, e lendas do futebol mundial são piores opções que um defesa suplente do Manchester City FC, que um médio inconsistente (apesar de também ser campeão do mundo) do Tottenham Hotspur FC, de um médio ofensivo com 33 anos e seis internacionalizações pela sua nação, e de um avançado que tarde se afirmou (e com todo o respeito) não se compara a qualquer uma das lendas que já foram mencionadas.

Artigo redigido por Pedro Gonçalves de Andrade
Pedro Gonçalves de Andrade

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