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Argentina 0–0 Portugal (GP 1-2): Para ti, Livramento

Duarte Pereira da Silva · 7 min

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“Este é o jogo das nossas vidas”, afirmou o capitão da seleção nacional, João Rodrigues, em antevisão à partida. E era mesmo. Esta é uma geração que já conquistou tudo o que havia para conquistar, exceção feita ao Campeonato do Mundo. 16 anos depois daquele mágico dia em Oliveira de Azeméis (Portugal), os heróis portugueses tentavam escrever mais uma página dourada da história do hóquei português.

CONTRARIAR A HISTÓRIA

O confronto entre Portugal e Argentina mostra-nos que a seleção albiceleste costuma ser mais feliz. Num total de 12 encontros, os argentinos venceram sete, perderam quatro e empataram por uma vez. Se olharmos apenas para os confrontos em mundiais, o cenário é ainda mais negro: apenas duas vitórias portuguesas contra seis da seleção capitaneada por Carlos Nicolía, registando-se ainda um empate.

No entanto, a história recente era mais favorável para os comandados de Renato Garrido. Nos últimos 3 encontros, Portugal venceu dois e empatou outro. Destaque para a vitória no Campeonato do Mundo, em 2017, por uns contundentes 5-0.
A seleção vinha de dois jogos complicados e tentava contrariar a história, em Barcelona
Fonte: FPP

POUCOS SEGREDOS E MUITOS CUIDADOS

Costuma dizer-se que as finais são decididas em pequenos detalhes. No caso destas duas seleções, tal afirmação não podia estar mais correta. É que já não existem segredos entre portugueses e argentinos. Dos dez jogadores sul-americanos, metade joga no campeonato português. Matías Platero, Gonzalo Romero atuam no Sporting; Carlos Nicolía e Lucas Ordóñez no SL Benfica e Reinaldo García veste de azul e branco.

Foi assim de forma natural que as equipas entraram bastante receosas e com bastantes cuidados defensivos. Quase dez minutos já estavam decorridos e não havia ainda qualquer ocasião de golo. Com o decorrer do jogo, essas mesmas cautelas defensivas foram-se perdendo e começaram a surgir as primeiras situações de perigo.

Aos 16 minutos, Romero fez uso de umas das suas principais características e de meia distância acertou no poste da baliza portuguesa. De resto, o jogador do Sporting era um dos mais inconformados com o ritmo pouco animado que a partida estava a tomar.

Numa altura em que a Argentina ganhava um ligeiro ascendente na partida, Portugal deu o primeiro ar da sua graça. Num lance algo semelhante ao que deu em golo frente à Espanha, Gonçalo Alves foi por ali fora e disparou ao lado. Na recarga, Rafa podia ter inaugurado o marcador. Na resposta, e numa das poucas transições da primeira parte, Pablo Álvarez disparou para boa defesa de Ângelo Girão.

Ângelo Girão deixou o jogo em aberto após várias defesas na primeira parte, e não só
Fonte: FPP

Apesar de não existir claro domínio argentino, Renato Garrido não poderia estar satisfeito com a exibição portuguesa. Portugal estava pouco acutilante no capítulo ofensivo e ia permitindo alguns lances de perigo à Argentina. Era preciso mais e melhor.

SÃO GIRÃO, OUTRA VEZ.

Começa a tonar-se demasiado repetitivo, mas a verdade é que Ângelo Girão é quase sempre uma das principais figuras da seleção nacional. Quando faltavam sete minutos para o final da primeira parte, Rafa carregou Reinaldo Garcia pelas costas e a equipa de arbitragem não teve dúvidas em assinalar grande penalidade para os argentinos. Na minha opinião, e apesar de existir um claro aproveitamento do jogador sul-americano, a decisão é correta.

No entanto, São Girão voltou a fazer uma aparição no Palau Blaugrana. Lucas Ordóñez não foi capaz de ultrapassar sua santidade Ângelo Girão. O guarda-redes português deve estar presente em todos os pesadelos do jogador do SL Benfica.

Mesmo no fechar do primeiro tempo, Hélder Nunes esteve perto de inaugurar o marcador. Após excelente passe de Gonçalo Alves, o antigo capitão do FC Porto disparou para boa defesa de Grimalt.

MUITA EMOÇÃO E POUCA RAZÃO

Logo no reatar da partida, Telmo Pinto dispôs de uma excelente ocasião de golo. Henrique Magalhães assistiu o companheiro de equipa, mas este não foi capaz de ultrapassar o guarda-redes argentino. Portugal parecia vir com outra atitude para a segunda parte.

Portugal apareceu com vontade de mudar a imagem dada na primeira parte
Fonte: FPP

Contudo, seria a Argentina a estar mais perto do golo. Numa decisão que me parece errada, a equipa de arbitragem assinalou livre direto após falta de Telmo Pinto sobre Ordóñez. Era a vez de Nicolía tentar passar por Ângelo Girão. Mudou o marcador, mas o destino foi o mesmo. São Girão, outra vez.

Mas as decisões erradas iriam continuar. Era a vez de Portugal ser beneficiado. Lucas Ordóñez fez falta sobre Hélder Nunes e viu o cartão azul. Não estando em causa a falta, o cartão azul parece-me excessivo. No consequente livre direto, o mesmo Hélder Nunes não conseguiu converter. No período de powerplay, a seleção portuguesa foi pouco agressiva e não conseguiu causar qualquer situação de golo. Portugal deveria ter feito mais e melhor nesta ocasião.

TEATRO ARGENTINO COM RESPOSTA DE GIRÃO

A partida aproximava-se da hora de todas as decisões e os argentinos iam ameaçando. Eram diversas as situações de perigo que a Argentina ia criando. Portugal parecia estar a acusar algum cansaço. Os prolongamentos frente à Itália e à Espanha estavam a pesar nas pernas dos internacionais portugueses.

Todavia, haveria tempo para um momento teatral nesta final do Campeonato do Mundo. Peço desculpa aos adeptos do SL Benfica, mas Carlos Nicolía deveria ponderar prosseguir uma carreira no mundo do teatro. Não é de hoje, bem pelo contrário. Já no jogo da fase de grupos, o capitão argentino simulou uma suposta agressão de Hélder Nunes. Não está em causa o valor de Nicolía, mas tudo o resto era completamente dispensável.

Foi assim que o argentino conseguiu tirar a 10ª falta portuguesa e o consequente livre direto. Desta vez seria Pablo Álvarez frente a Ângelo Girão. Mas, para teatro argentino, haveria resposta de São Girão. O guardião português defendeu mais um livre direto e começavam a faltar palavras para descrever as exibições de Girão.
Girão voltou a salvar e manteve Porutgal ligado à correte do jogo
Fonte: FPP

SOFRER A BEM SOFRER

Os argentinos voltaram a entrar melhor no prolongamento. Verdade seja dita, a Argentina foi melhor do que Portugal ao longo de todo o encontro. Nem dois minutos estavam decorridos e Henrique Magalhães carregou Reinaldo García na grande área portuguesa. Carlos Nicolía dispunha assim de mais uma grande penalidade. No entanto, na baliza portuguesa estava o melhor guarda-redes não só da atualidade, mas de sempre. Na primeira tentativa, o jogador do SL Benfica voltou a falhar, mas a equipa de arbitragem mandou, e bem, repetir. Na segunda oportunidade, Ângelo Girão voltou a superiorizar-se a Nicolía.

Após um prolongamento em que as equipas pareciam estar mais preocupadas em não sofrer do que propriamente em marcar, não registaram grandes incidências. Portugal ainda tentou forçar a 10ª falta argentina, mas sem sucesso. Parecia estar escrito nas estrelas que o Campeão do Mundo de 2019 de hóquei em patins haveria mesmo de se decidir nas grandes penalidades.

O COROAR DE UMA GERAÇÃO DE OURO

O primeiro a marcar foi Nicolía. Desta vez, o capitão argentino conseguiu superiorizar-se a Ângelo Girão. Ao fim de muitas tentativas, mas desta vez lá conseguiu. Seguiu-se Gonçalo Alves. Numa execução brilhante, o jogador do FC Porto não vacilou e igualou. Seguiram-se Pascual e João Rodrigues, ambos sem sucesso. De seguida, Pablo Álvarez disparou por cima e Hélder Nunes converteu e colocou Portugal na frente. Lucas Ordóñez e Rafa ainda haveriam de falhar, mas Ângelo Girão defendeu a grande penalidade de Platero e Portugal era o novo Campeão do Mundo.

Passados 16 anos, Portugal é novamente Campeão do Mundo. Um título de inteira justiça. A seleção portuguesa foi obrigada a eliminar a Itália, nos quartos-de-final, e a grande favorita Espanha, nas meias-finais. No jogo decisivo, frente aos argentinos, os comandados de Renato Garrido souberam sofrer e terminaram com um jejum de 16 anos.

O ano de 2019 marca 20 anos desde a morte de António Livramento e esta foi sem dúvida a melhor forma de homenagear essa lenda do hóquei em patins.

Não poderia terminar sem uma nota para Ângelo Girão. O guarda-redes português foi decisivo para esta conquista e alcançou um patamar que poucos podem sonhar. É caso para dizer que valeu São Girão.

CINCOS INICIAIS:

Argentina – Valentín Grimalt, Nicolia, Lucas Ordoñez, Matías Pascual, Matías Platero

Portugal – Ângelo Girão, Rafa, Henriques Magalhães, Helder Nunes, João Rodrigues

A FIGURA

Fonte: FPP

Ângelo Girão – Livres diretos, grandes penalidades, remates de longa distância… São Girão defendeu tudo o que havia para defender. Não tenho dúvidas em afirmar que Ângelo Girão não é só o melhor guarda-redes do mundo da atualidade, bem como o melhor de sempre. Uma lenda.

O FORA DE JOGO

Fonte: World Roller Games

Carlos Nicolía – O capitão argentino é um jogador de classe mundial. No entanto, deveria concentrar-se apenas no jogo e menos nas constantes simulações e picardias em que se envolve com os adversários. Para além disso, hoje até falhou diversas ocasiões flagrantes de golo e esteve uns furos abaixo do que é habitual.

Foto de Capa: World Roller Games

Duarte Pereira da Silva

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