O FC Porto encarava esta Final 8 da Liga dos Campeões de hóquei em patins embalado por uma sequência impressionante de 14 vitórias consecutivas.
Um FC Porto cada vez mais sólido, mais confiante e mais próximo da sua melhor versão no momento decisivo da temporada. Pela frente, tinha um adversário de enorme qualidade, experiente e habituado aos grandes palcos europeus: o histórico HC Liceo, que havia conquistado a Taça do Rei recentemente, e que se havia qualificado em primeiro lugar na fase regular do campeonato espanhol.
E durante largos minutos, percebeu-se perfeitamente o porquê deste ser considerado um dos jogos de maior cartaz dos quartos-de-final desta prova. Um início de muito respeito de parte a parte, extremamente táctico, e algo preclitante de ambas equipas, sem um domínio claro de nenhum dos conjuntos e dois guarda-redes a exibirem-se a grande nível.
Logo nos primeiros instantes, Gonçalo Alves acertou com estrondo no poste da baliza galega, numa stickada violenta de meia-distância. Na resposta imediata, Xavi Malián começou o seu recital particular, negando o golo a David Torres com uma enorme intervenção.
A equipa azul e branca apresentou um cinco inicial claramente ofensivo, com Hélder Nunes, Rafa, Gonçalo Alves e Carlo di Benedetto, procurando assumir desde cedo o controlo emocional do encontro. Mas esse risco também expunha espaços, e a equipa galega aproveitou várias perdas de bola portistas para criar perigo em transição.
As perdas de bola e os contra-ataques sucediam-se de parte a parte, sendo que os portistas estavam com muita dificuldade em impor o seu jogo, e em poder praticar um hóquei móvel e com constantes trocas de posição, como é o seu apanágio.
Hélder Nunes perdeu uma bola comprometedora, Gonçalo Alves teve outro erro infantil na saída, e em ambas as ocasiões surgiu um gigantesco Xavi Malián para manter a igualdade.
Do outro lado, Blai Roca não ficava atrás. O guarda-redes espanhol respondeu com intervenções de enorme nível perante Hélder Nunes, Ezequiel Mena e Gonçalo Alves, transformando os minutos iniciais num autêntico duelo de titãs entre os dois guardiões.
A intranquilidade e falhas na definição de ambas as equipas, foi obrigando ambos os treinadores a sucessivas pausas técnicas, tentando reorganizar emocionalmente os seus jogadores, e que uma das equipas se superiorizasse num determinado momento. Esse equilíbrio acabou por ser quebrado aos 20 minutos.
Nuno Paiva, defesa-médio português (e que curiosamente nunca jogou na liga portuguesa) da formação vinda da Corunha, protagonizou uma excelente jogada individual e colocou o HC Liceo em vantagem, premiando a eficácia da equipa espanhola num jogo até então extremamente dividido.
Mas este FC Porto tem revelado algo que distingue verdadeiras equipas vencedoras: capacidade de reação imediata.
Depois de duas enormes intervenções consecutivas de Xavi Malián a evitar o segundo golo espanhol, os dragões saíram rapidamente em transição e empataram a partida. Excelente condução de Gonçalo Alves, assistência perfeita e finalização simples de Carlo di Benedetto, estabelecendo a igualdade no marcador, resultado (1-1) que se registava ao intervalo.
Se a primeira parte foi equilibrada, a segunda transformou-se numa demonstração de força da equipa azul e branca. O FC Porto entrou muito mais agressivo, intenso e emocionalmente estabilizado. Hélder Nunes ainda viu um golo ser invalidado logo nos primeiros minutos, por invasão da área do do guarda-redes por parte de Rafa, mas o aviso estava dado.
Pouco depois, Carlo di Benedetto aproveitou um erro na saída de bola galega e consumou a reviravolta no marcador. E o jogo mudou completamente.
Com a vantagem no resultado, os comandados de Paulo Freitas simplificaram processos, reduziram drasticamente as perdas de bola e começaram a controlar o encontro com enorme maturidade.
O terceiro golo, apontado por Rafa através de uma poderosa stickada de meia-distância, teve um impacto psicológico evidente no HC Liceo, que acusou claramente os dois golpes sofridos em sequência.
Durante largos minutos, o FC Porto jogou a seu bel-prazer. Mais intenso. Mais organizado. Mais forte nos duelos. Mais lúcido com bola. E foi precisamente nessa fase que surgiu a genialidade de Ezequiel Mena.
O internacional argentino assinou o quarto golo portista com enorme classe, após assistência de Gonçalo Alves, e voltou a marcar pouco depois numa brilhante iniciativa individual, devolvendo imediatamente a vantagem de três golos depois do penalty convertido por César Carballeira.
Aí, o jogo ficou totalmente sentenciado. Já nos instantes finais, Rafa fechou a contagem em contra-ataque numa altura em que o HC Liceo estava totalmente balanceado para o ataque (e já jogando sem guarda-redes).
Esta foi uma vitória clara, robusta e extremamente autoritária. O mais impressionante neste FC Porto não é apenas a sequência de vitórias. É a sensação crescente de maturidade competitiva.
São já 15 triunfos consecutivos, num momento da época onde normalmente aparecem desgaste, ansiedade e oscilações. Mas os dragões parecem exatamente o contrário: cada vez mais seguros, mais compactos e mais preparados para os grandes momentos.
Não foi uma exibição perfeita. Houve perdas de bola, momentos de desorganização e alguma precipitação inicial. Mas houve algo ainda mais importante: capacidade de adaptação. E isso, nesta fase da temporada, vale ouro.
Porque quando uma equipa consegue sobreviver ao caos inicial, crescer emocionalmente durante o jogo, e terminar a dominar um adversário desta dimensão… é impossível não olhar para ela como uma séria candidata a conquistar o tão desejado título. Os dragões querem voltar a ser os reis da Europa.
BnR NA CONFERÊNCIA DE IMPRENSA
Bola na Rede: Eu sei que não gosta de individualizar as exibições dos seus jogadores, mas queria que me falasse um pouco sobre o papel do Ezequiel Mena nesta equipa. É um jogador com imensa qualidade técnica e uma considerável velocidade na sua patinagem, e com uma maneira de manusear a bola com o stick que é raro de ver actualmente. O que é que ele traz ao jogo e quais são os momentos em que considera fundamental tê-lo em pista?
Paulo Freitas: O Mena é um jogador que faz parte da equipa obviamente. E teve a sua importância na equipa como todos os outros. O Mena é um patinador nato, é um jogador com uma mobilidade muito grande e qualidade técnica e individual muito acima da média, que pode provocar esses desequilíbrios nas defesas contrárias, nomeadamente com a estratégia que nós tínhamos de atrair adversários, para gerar mais espaços para os nossos atletas. Sabemos que a equipa do HC Liceo tem muito voluntariedade no momento defensivo, e foi muito importante para podermos colocar a bola no corredor contrário, aproveitando toda essa mobilidade do Mena. Todos os jogadores fizeram um excelente jogo, não só o Mena. Mas estou satisfeito com o seu trabalho hoje, tal como de todos.
Bola na Rede: O que é que considera que a sua equipa poderia ter feito de diferente para suster a intensidade e o ritmo tão alto do FC Porto no início da segunda parte?
Juan Copa: Era fundamental termos evitado sofrer o golo do empate antes do intervalo. Se fôssemos em vantagem no marcador, certamente que o FC Porto poderia correr ainda mais riscos, e nós podíamos tirar partido disso em transição. Fomos atrevidos e ambiciosos, tentamos marcar o segundo golo, e fomos apanhados em contrapé. Na segunda parte, tentamos não nos abrir tanto, mas não conseguimos aguentar a intensidade e o ritmo da equipa do FC Porto. Mas dou total mérito à contundência do FC Porto. Os quatro primeiros golos do FC Porto na segunda parte foram autênticos golaços. É uma equipa com muitíssima qualidade individual, e há que felicitá-los, pois foram superiores a nós.

