

O Dragão Arena viveu uma noite de emoções cruzadas. De aplausos que vinham da memória, de respeito que vinha da história e de competição que vinha do presente. Ricardo Ares voltou a uma casa que conhece como poucos, a um pavilhão onde escreveu páginas douradas da história do FC Porto, conquistando três campeonatos nacionais e uma Liga dos Campeões. Regressou agora como treinador do Barcelona, mas nunca deixou de ser, aos olhos do público portista, um dos seus.
A receção foi apoteótica. Não houve assobios, não houve frieza. Houve reconhecimento. Houve gratidão. Houve a certeza de que certos homens ultrapassam as cores que vestem no momento, porque ficam para sempre ligados à identidade de um clube. E Ricardo Ares é um desses nomes.
Este encontro carregava simbolismo extra. FC Porto e Barcelona são dois colossos do hóquei em patins europeu. Dois históricos que se encontraram em sete finais (!) europeias, todas vencidas pelos catalães. Cada duelo entre ambos transporta décadas de rivalidade, respeito e uma competitividade quase genética.
Em pista, o Barcelona entrou mais afirmativo, a querer assumir a iniciativa do jogo desde os primeiros segundos. O FC Porto, mais paciente, apostava nas transições rápidas e quase marcou logo aos três minutos, quando Carlo di Benedetto, isolado, atirou por cima da baliza num desperdício que viria a ganhar peso simbólico ao longo da partida.
Hélder Nunes tentou responder de meia distância, Xavi Malián começou desde cedo a justificar o estatuto de guarda-redes de elite ao negar sucessivas oportunidades a Marc Grau, Sergi Aragonés e Ignacio Alabart. O jogo tinha ritmo de final europeia, mesmo tratando-se de uma fase de grupos. Cada ataque parecia decisivo, cada defesa arrancava aplausos das bancadas.
Chencho Fernández respondeu do outro lado com igual protagonismo. Defendeu remates de Gonçalo Alves, Carlo di Benedetto, Hélder Nunes, Telmo Pinto. Era uma batalha de guarda-redes de nível absolutamente extraordinário, onde cada erro podia ser fatal.
O Barcelona acabou por chegar à vantagem perto do intervalo, por Marc Grau, num lance de enorme classe técnica, atrás da baliza, aproveitando um ressalto defensivo. Um golo que castigava o desperdício portista e premiava a eficácia catalã. Ao intervalo, 1-0 para os visitantes.
A segunda parte começou com o FC Porto a tentar corrigir a história do jogo. Telmo Pinto falhou o empate, Xavi Malián voltou a salvar a baliza, mas foi o Barcelona a aumentar para 2-0, com Xavi Barroso (regressando a uma casa que bem conhece), após remate ao poste de Sergi Llorca. A partir daí, o encontro começou a fugir do controlo emocional dos dragões.
O terceiro golo, por Sergi Llorca, surgiu numa fase em que o FC Porto estava claramente desorganizado, a acusar psicologicamente o segundo golpe. Ainda assim, a equipa azul e branca nunca desistiu. Carlo di Benedetto reduziu, devolvendo esperança, mas o Barcelona respondeu sempre com frieza cirúrgica.
Chencho Fernández transformou-se na muralha que impediu a recuperação portista. Defendeu livres diretos, stickadas violentíssimas de Hélder Nunes e tentativas consecutivas de Gonçalo Alves. Quando o FC Porto parecia aproximar-se emocionalmente do jogo e tendo já desperdiçado um livre directo que foi executado de forma algo displicente por Gonçalo Alves, surgiu a eficácia catalã para matar qualquer impulso.
Xavi Barroso bisou no seguimento de uma grande jogada individual de um inspirado Marc Grau e Sergi Aragonés marcou o quinto a passe de Xavi Barroso, que não teve piedade dos seus antigos colegas, realizando uma segunda parte de grande nível.
E o resultado tornava-se pesado para aquilo que foi o equilíbrio exibicional durante largos períodos da partida. Hélder Nunes ainda reduziu para 4-2 com uma stickada soberba e Ezequiel Mena acabaria por fazer o 5-3 final, num jogo que teve mais emoção do que o marcador sugere.
Os ânimos terminaram exaltados, devido à forte contestação do FC Porto à equipa de arbitragem, que teve algumas decisões controversas, quase todas elas a favor da equipa do Barcelona, tal como mencionou o técnico portista Paulo Freitas em declarações ao Bola na Rede.
Com este resultado, o Barcelona assumiu a liderança do grupo A com 13 pontos, enquanto o FC Porto caiu para o segundo lugar, com 12. Mas o resultado não apagou aquilo que se viveu fora das quatro linhas.
A noite foi, acima de tudo, de Ricardo Ares. Do treinador que voltou ao Dragão Arena não como inimigo, mas como parte viva da história do clube. Foi recebido como alguém que construiu, que venceu, que deixou marca. E que agora, inevitavelmente, tenta vencer do outro lado.
O futebol e o hóquei são feitos disto: da capacidade de honrar o passado sem abdicar de competir no presente. O FC Porto perdeu o jogo, mas venceu no respeito. O Barcelona ganhou em pista, mas nunca apagará que esta também é, para Ricardo Ares, uma casa que será sempre sua.
O Bola na Rede esteve presente no Dragão Arena, e pôde fazer algumas questões a ambos treinadores:
Bola na Rede – Como foi para si gerir as emoções neste regresso a uma casa que bem conhece?
Ricardo Ares – Foi um jogo especial, com muitas emoções. Serei sempre um portista, e foi muito impactante para mim ter a reação que tive por parte de toda a estrutura do hóquei do FC Porto, assim como de todos os adeptos. Foi muito importante sentir esse carinho do público. Foi difícil para mim estar do outro lado, mas temos de ser profissionais.
Bola na Rede – Qual é que considera que foi o factor-chave para esta vitória da sua equipa?
Ricardo Ares – A efetividade foi o factor primordial. O FC Porto teve várias oportunidades em contra-ataque, mas não foi tão eficaz como nós. Desperdiçaram dois livres directos, que os podiam ter recolocado no jogo, e nós fomos mais clínicos em frente à baliza do Xavi Malián. No outro dia para o jogo da nossa liga, tivemos 35 aproximações à baliza, o adversário teve 8 e perdemos esse jogo por 4-1, assim é o nosso desporto. Claro que devido ao que disse anteriormente, há um conhecimento muito profundo de ambas as equipas, e isso faz com que o jogo tenha sido demasiado táctico até termos conseguido inaugurar o marcador. Espero um FC Porto com uma postura ainda mais agressiva e intensa no próximo jogo em Barcelona. O nosso objectivo é estar na fase final, mas obviamente que queremos continuar com esta dinâmica de vitória.
Bola na Rede – A primeira parte foi bastante táctica. O grande conhecimento que ambas as equipas têm uma da outra, foi determinante para esse facto?
Paulo Freitas – Concordo com a sua análise. Jogo muito táctico na primeira parte, dado o conhecimento que ambas equipas têm uma da outra. Não há segredos entre as duas equipas, e isso condiciona a estratégia e a nossa maneira de jogar, tanto a nossa como a deles. Na primeira parte, fomos penalizados com um golo contra a corrente do jogo, quando eles apanharam o Xavi desposicionado, numa excelente finalização do Marc Grau. Não merecíamos ter saído a perder ao intervalo. Na segunda parte, não entramos tão bem, sofremos dois golos num curto espaço de tempo, mas mesmo assim a equipa não desistiu e continuou a lutar com as armas que temos. Reagimos, mas perdemos muitas segundas bolas, que deram muitos ataques ao Barcelona. Uma arbitragem que foi igualmente prejudicial para nós, e que nos tirou do jogo, mas mesmo assim tivemos oportunidades para voltar a entrar na discussão do encontro. Faltou-nos efetividade e sermos mais intensos.
Bola na Rede – Como projecta o próximo jogo em Barcelona?
Paulo Freitas – O foco é no próximo jogo da liga contra os Carvalhos, mas daqui a duas semanas em Barcelona, vamos certamente corrigir os erros que cometemos hoje e dar uma grande resposta, saíndo de lá com uma vitória.

