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Lenine Cunha: Um exemplo de persistência e superação

Diogo Rodrigues · 6 min

Lenine Cunha
Foto: FPDD

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Esta semana, a escassos dias do início dos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020, falaremos daquele que ostenta o título de atleta nacional mais medalhado de sempre internacionalmente. Lenine Cunha, apesar de não conseguir obter mínimos para aquela que seria a sua quarta presença em competições do género, impressiona pela força, garra e combatividade demonstradas. Sem dúvida, um exemplo a seguir e um modelo a replicar.

UM HERÓI QUE “DERRUBA” PRECONCEITOS

Nascido há 38 anos na freguesia da Afurada em Vila Nova de Gaia, o trajeto de Lenine Francisco da Silva Cunha parecia fadado ao sucesso, assim como bastante conturbado. As primeiras dificuldades surgiriam e, por mais estranho que possa parecer, quando o “atleta mais medalhado de sempre” ainda mal tinha saído do berço. Como o próprio já confessou, o episódio data do dia do seu batizado e está relacionado com o facto de a sua família de ideais comunistas, e fortemente ligada ao mar, querer batizá-lo de Lenine. Pois bem, o padre da pequena vila piscatória somente o batizou perante ameaça da família. Mas o ato lá seria consumado e, com isto começava, um percurso, desde sempre pautado pela dificuldade,  pelo preconceito, pela discriminação, mas também pela superação.

UMA MENINGITE QUE NÃO LHE “ROUBOU” OS SONHOS

Por altura dos dois ou três anos de idade deu-se um momento aparentemente devastador para uma ainda tão curta existência. Após vários minutos de uma estagnação aterradora, o “menino” foi diagnosticado com uma meningite, que o atacou em força.

A doença, que por esses anos era, na grande maioria das ocasiões, sinónimo de morte, ou de sequelas irreversíveis, afetou-o a vários níveis: em termos intelectuais, influenciando a sua aprendizagem e na concentração indispensáveis à realização de tarefas escolares: a nível motor, visto que Lenine ficou quase que paralisado do lado esquerdo; bem como causou problemas de memorização e dificuldades em reter a informação apreendida. Tanto assim foi que mesmo, perdendo o avô que o criou, aos sete anos, revelou, de modo bastante frustrante, não possuir qualquer lembrança do mesmo.

Os anos iam passando e, mesmo apesar da débil condição por ele patenteada, os pais, percebendo que o filho era uma pessoa igual a tantas outras, que apenas necessitava de um maior apoio, conduziram-no ao ingresso no ensino primário. Aí chegado, Lenine era visto por alguns dos seus pares como alguém estranho, sendo por várias vezes discriminado e vítima de bullying pelos restantes companheiros. Algo que, na verdade, estava relacionado com a falta de educação para a inclusão registada aos dias de então.

É, precisamente como combate a um isolamento e a uma deficitária integração do gaiense na escola, bem como a conselho médico na sequência do déficit de concentração por este revelado, que a família acaba por encontrar no desporto uma forma de motivação e um escape para as adversidades com que Lenine convivia.

Após uma curta e tímida passagem pelo Andebol, rapidamente se perceberia que o Atletismo seria a sua vida. Começando na marcha, tendo, com oito anos, conquistado o ceptro de campeão regional, não seria aí o seu pouso, visto ter-se fartado da disciplina. As suas grandes paixões, as provas de velocidade, o salto em comprimento e em altura e o triplo salto, apareceram teria Lenine cerca de 12 ou 13 anos, e com resultados quase que imediatos. Por essa altura, a prática desportiva assumia apenas um papel de integração e sociabilização, mas rapidamente passaria a ser algo bem mais sério.

Foi pelos 15 anos, e após vários sucessos entre muros, nomeadamente em certames regionais, que o seu treinador de sempre, José da Costa Pereira, vendo que o seu pupilo até revelava alguma capacidade para a coisa, lhe falou da possibilidade de competir em grandes eventos paralímpicos. Inicialmente, fruto de alguma falta de noção da realidade, levou uma ‘nega’ de pronto, mas, após o responsável ter levado o jovem a vivenciar de perto um estágio da formação paralímpica nacional, a perceção errada de então mudava de modo completo, aceitando de imediato a tão tentadora e aliciante proposta.

Reforce-se que, mesmo levando em linha de conta todos os êxitos, reforçados com a obtenção do recorde mundial do triplo salto na categoria T20 no Qatar, o nortenho não se dedicava de corpo e alma ao desporto, trabalhando durante o dia como ajudante de eletricista numa empresa da zona.

UMA ESTREIA MAIS RECOMPENSADORA DO QUE QUALQUER MEDALHA

Seria no ano de 2000, quando ainda era um novato, que Lenine embarcaria rumo à sua primeira aventura olímpica, com o palco a ser a cidade australiana de Sidney. É certo que o desportista apenas conseguiria uma quarta posição na especialidade de triplo salto, mas na “bolsa” o atleta trouxe um verdadeiro ensinamento e uma inspiração.

O mesmo confessa que apenas aí começou a ter a verdadeira noção do poder e da força que o desporto paralímpico tinha de facto. Tudo após assistir a uma prova de natação em que constatou a vitória de uma praticante amputada de ambos os membros, que somente com a energia proveniente do ondular do corpo bateu as oponentes. Percebeu então que, quando queres muito algo, não existem barreiras que te possam “amputar” os sonhos.

Refira-se que, no regresso da expedição aos antípodas, Lenine, por puro amor ao desporto, perderia o já referido emprego, visto a empresa ter recusado a sua dispensa para representar a nossa bandeira.

No topo da forma, como nunca havia estado, as olimpíadas de Atenas 2004 e Pequim, quatro anos mais tarde, pareciam rimar com metal. Mas, por erro alheio, Lenine viu-se impedido de defender as suas legítimas chances. A história, essa, é fácil e simples de contar. E tem como origem a seleção espanhola de Basquetebol que, em Sidney, competira com atletas sem qualquer limitação cognitiva, numa prova na qual tal facto era condição básica. Esta infração resultaria numa suspensão de todas as modalidades e respetiva participação destes atletas, com a mesma a ser “levantada”  apenas para os Jogos de Londres 2012.

Mesmo assim, o atleta lusitano, já trintão, ainda viveria um momento supremo e inesquecível, ao arrecadar o bronze em solo britânico no triplo salto, esta que seria a sua única medalha em certames do género.

As dificuldades voltariam à sua vida, dois anos mais tarde, com a morte súbita da mãe, vítima de cancro, algo que o fez perder o “norte” e quase abdicar de competir. Mas apenas acabou por fortalecê-lo e, quase que por homenagem à sua “musa inspiradora”, subiria ao degrau mais alto do pódio, quer no triplo salto, como no heptatlo, em 2015, nuns campeonatos mundiais disputados em Doha.

Muito mais haveria a referir sobre uma carreira gloriosa, inspiradora e memorável. Lenine é o único desportista a contar mais de duas centenas de medalhas em eventos internacionais. O exemplo por ele dado deve inspirar qualquer um a “lutar” e a nunca se render à sua condição.

Dentro e fora das pistas, Lenine é um desportista fenomenal, que fez com que a jornada paralímpica passasse a carecer de maior atenção e reconhecimento no panorama desportivo nacional.

Foto de Capa: FPDD

Artigo revisto por Gonçalo Tristão Santos

Diogo Rodrigues

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