Depois do recente exemplo dado pela ginasta norte-americana nos Jogos de Tóquio 2020, Simone Biles será alvo de destaque neste artigo, no qual daremos a conhecer o seu brilhante e entusiasmante percurso no mundo da artística bem como os motivos que a levam a ser um exemplo no mundo do desporto.

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UMA MULHER QUE NÃO TEVE TEMPO DE SER MENINA

Nascida há 24 anos em Columbus, EUA, foi ainda em criança, pelos quatro ou cinco anos, que Simone Arianne Biles começaria a participar em competições de ginástica, deixando desde logo escapar o talento enorme e invulgar para alguém ainda tão precoce, que ombreava com algumas atletas de escalões bem acima do seu. Estávamos perante uma predestinada, um verdadeiro fenómeno.

Biles foi crescendo e, aos 11 anos, já participava nos campeonatos nacionais americanos, competição muito exigente e que conta apenas com as melhores das melhores.

Se os êxitos por ela colecionados nos maiores certames internacionais, nomeadamente a partir de 2013, conquistando cinco ouros em concursos gerais individuais aos quais somava outros tantos – no solo, nos saltos de cavalo, na trave e nas paralelas assimétricas – se iam sucedendo em catadupa, já o “modelo” imposto pelo técnico nacional norte-americano, Béla Károlyi, restringia a liberdade da atleta. O técnico impunha humilhações, implementando rigorosos processos de treino que privavam as jovens de usufruírem de uma liberdade plena. Esta matriz incidia ainda sob a alimentação das mesmas, sendo que este apregoava que a comida era um “veneno”, promovendo, assim, uma magreza extrema que não raras vezes acabava em anorexia, levando Simone e as demais a crescessem sem poderem de facto viver a sua infância e adolescência como pessoas “normais”.

Diga-se, a título de curiosidade, que Károlyi foi o responsável pela criação do “mito” Nadia Comaneci, ginasta romena que é a única da modalidade a somar nota máxima num exercício, feito que a fez entrar para os arais da história do desporto.

Voltando a Biles, e mesmo com todo o desgaste mental, fruto das condicionantes referidas e da exigência necessária para se manter constantemente no topo, a afro-americana de 1,45m, sob a orientação de Laurent Landi, treinador, e de Dominic Zito, coreógrafo, continuava a escrever história,  arrecadando medalhas atrás de medalhas. Simone é a mais medalhada de sempre do seu país em mundiais, somando já 25 metais, sendo considerada uma das cinco melhores ginastas de todos os tempos.

NA CIDADE MARAVILHOSA, SIMONE SERIA DESTAQUE

Com uma trajetória plena de conquistas e em que o sucesso parecia caminhar de mãos dadas com Biles, 2016 era ano da estreia no maior palco do desporto à escala global,:claro está, os Jogos Olímpicos, agendados então para o Rio de Janeiro.

Inserida num conjunto de formidáveis intérpretes da modalidade, esperava-se, contudo, que Biles fosse a grande estrela da artística do lado feminino, e a norte-americana não esteve com meias medidas, arrasando a concorrência. Resultado: cinco subidas ao pódio, das quais quatro medalhas de ouro, em competição por equipas, concurso geral individual, saltos de cavalo e solo, aos quais fez ainda questão de juntar um bronze obtido na trave olímpica,  aparelho no qual conta menos sucessos.

O ESCÂNDALO DE 2017 E A REVOLTA

Corria o ano de 2017 e vinham a lume as acusações a Larry Nassar, então médico responsável da equipa norte-americana feminina de ginástica, que abusara de mais de 250 jovens, muitas delas silenciadas pelos mais altos organismos internacionais, entre os quais a Federação norte-americana de ginástica e a própria Federação Internacional, que ignoravam tais queixas.

Foi por todas elas e pelos danos causados, obrigando as vítimas a abandonar a competição, que se ergueu um grito que fez levantar uma “tempestade” no seio da artística mundial. Seria a voz de Biles, afro-americana e, por isso, discriminada, que ousou juntar-se ao movimento, relatando o terror vivido às mãos de um “monstro” que seria condenado a mais de duas centenas de anos de prisão.

Contudo, e depois do clamor de revolta, a atleta seria novamente destaque em Tóquio, só que, desta feita, não pelos êxitos desportivos, mas sim pela lição e alerta que lançaria. Tudo aconteceu após a primeira “rotação” do concurso geral por equipas, em que Biles, nos saltos de cavalo, ao rubricar uma prestação que então lhe valera uma nota de cerca de 13 pontos, a mais baixa de sempre no referido aparelho, daria sinais de exaustão, abandonando a competição. A mesma, quando questionada sobre os motivos de tal decisão, acabou por alertar para o facto de o corpo não ser uma máquina e que, acima de tudo, deveríamos preservar o bem estar físico e mental. De resto, esta ausência faria a sua nação perder as chances de ouro.

A praticante, à semelhança da tenista japonesa Naomi Osaka, serviu como embaixadora para uma questão fundamental aos dias de hoje: a saúde mental, ou falta dela.

O exemplo de Biles foi, para muitos, não só uma prova de que os ginastas não são mais as crianças caladas e assustadas da era Károlyi, em que eram vítimas de agressões e humilhações, sofrendo em silêncio por medo das consequências.

Simone venceu em terras nipónicas a maior medalha da sua vida: a recuperação da sua saúde mental. Com a galardoada com o prémio “Laureus” para melhor desportista feminina em 2017 a referir que era urgente parar, dando dois passos atrás por forma a cuidarmo-nos para depois podermos seguir em frente.

Exemplos como este fazem do desporto algo essencial na afirmação e defesa de valores fundamentais.

Foto de Capa: Olympics

Artigo revisto por Gonçalo Tristão Santos

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