Rams e Bengals: A história improvável | NFL SuperBowl

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Existe quem acredite que a história se repete, era após era, século após século, momento após momento. Como se vivêssemos num eterno ciclo que está destinado a se repetir e onde acabamos por deixar de observar as nuances, perdemos as coincidências e ficamos presos aquilo que parece óbvio.

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É, portanto, óbvio que comece esta história por mencionar o momento que talhou o destino dos Los Angeles Rams e dos Cincinatti Bengals, momentos que não são convergentes, momentos que foram realizados em datas diferentes, mas que acabariam por promover um encontro com o destino, no próximo dia 13 de Fevereiro de 2022.

Para os Rams esse momento foi no dia 30 de Janeiro de 2021, quando fizeram uma troca com os Detroit Lions pela aquisição de Matthew Stafford. Stafford haveria de ser o culminar de todas as necessidades de execução ofensiva e do brilhantismo que faltava aos Rams.

Para os Bengals esse momento foi no dia 23 de Abril de 2020, quando com a primeira escolha do Draft de 2020 escolheram Joe Burrow. Burrow era visto como o encontro perfeito de expectativas e o encaixe perfeito nas aspirações da organização dos Bengals.

A história foi-se desenrolando, em paralelo, com protagonistas próprios, sempre com uma intensidade particular e com as expectativas que vão marcando um ritmo único.

Quando no início da temporada de 2021 olhávamos para a equipa dos Rams, com todo alinhamento que tinham, era expectável que pudéssemos dizer que eles poderiam estar aqui, a viver este momento, no topo da montanha.

Sean McVay tem sido brilhante. É uma das mentes ofensivas mais geniais da NFL, o seu legado está na família, corre-lhe no sangue e tem sido apurado ao longo das gerações. Vou-me arriscar a dizer que deriva de outra era, uma era mitológica onde o seu antepassado, Dédalo, genial arquiteto e inventor do labirinto do minotauro, na ilha de Creta, onde apenas Teseu aprendeu a entrar e sair, sem se perder nos seus corredores.

Foi nesse caminho e nessa criação perfeita de um sistema de jogo, que é o labirinto de McVay, que Stafford se tornou o seu Teseu. Ao longo de apenas uma temporada aprendeu a navegar um labirinto tão complexo, mas tão brilhante, aprendeu a equilibrar o jogo quando necessário e a empurrar um ímpeto avassalador que acabaria por dar protagonismo a uma maré de estrelas – Cooper Kupp, Odell Beckham Jr., Van Jefferson, etc.

Foi essa mestria que tornou os expectáveis Rams, nos prováveis favoritos. Uma equipa repleta de estrelas, onde não cabe espaço a dúvida, dúvida nenhuma de que o dia 13 de Fevereiro será o dia de celebrar um feito que apenas uma de trinta e duas equipas pode celebrar, vencer o SuperBowl.

Mas, agora voltemos ao início, ao momento em que vos disse que temos a tendência de deixar de observar as nuances, perdemos as coincidências e ficamos presos ao que parece óbvio.

Os Bengals não deviam estar aqui. As expectativas no início da temporada de 2021 assim o determinavam, por mais especialistas que possamos dizer que somos, por mais análises que possamos fazer, por mais jogos que possamos observar, a realidade é que os Bengals foram o número fora da equação, foram a expectativa superada, foram a surpresa de uma temporada.

Zac Taylor tem sido resiliente. Por vezes não apreciamos quem trabalha nas sombras, quem cura a mágoa de uma tripulação em plena tempestade e sustenta a criação de algo maior do que ele próprio, alguém capaz de invocar uma estrutura que eleva uma equipa até planos que pareciam outrora impossíveis de navegar.

A realidade é que se Sean McVay é um brilhante arquiteto, sinto que podemos dizer que Zac Taylor encerra em si também um tipo de brilhantismo incomum. O tipo de brilhantismo de ter identificado em Joe Burrow a pessoa certa para contagiar a crença, vestir as asas e levar os Bengals a voarem.

Impera agora a grande questão, será que Joe Burrow vai conseguir evitar o erro de Ícaro, que quando vestiu as asas não evitou a tentação e voou demasiado próximo do sol? Todos sabemos que o seu final foi trágico, será que teremos novo desfecho impróprio?

Esse será para mim o grande segredo para o sucesso destes Bengals. Encontrar o doce equilíbrio de não voarem demasiado perto do sol, mas também não ficarem demasiado agarrados ao chão. Sinto que depois de terem conquistado o demónio que os atormentava ao longo dos últimos 31 anos, de não vencerem um jogo nos playoffs, esta equipa transpira a calma e tranquilidade suficiente para saberem que Joe Burrow não é Ícaro nenhum, é Hércules encarnado e tem 12 trabalhos para culminar e um SuperBowl para vencer.

Independentemente da narrativa que queiramos seguir, da mitologia que queiramos visitar, ou mesmo aquilo que queiramos acreditar, existe algo que todos temos em comum, todos gostamos de ver história a ser escrita.

Como tal, vamos aguardar que esta história improvável, ainda por ser escrita, se realize diante dos nossos olhos, numa cidade dos anjos, no topo de uma montanha, dentro de um labirinto mágico e com os protagonistas a voarem alto, bem alto, fazendo-nos sonhar com o fantástico.

Foto de Capa: NFL Brasil

André Amorim
André Amorimhttp://www.bolanarede.pt
O André é treinador e especialista de NFL. Atualmente, é comentador na ELEVEN e escreve crónicas sobre a modalidade para o Bola na Rede.

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