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Super Bowl LII: O Diário de um Super Bowl histórico

Daniel Felício Silva · 8 min

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Domingo, 4 de Fevereiro, cinco amigos juntam-se para ver o superbowl 52. No grupo, quatro são repetentes do ano passado, com dois fanáticos dos Patriots, um adepto dos Giants que gosta de picar os amigos, um que está a ver o seu primeiro superbowl e outro que, sendo adepto dos Patriots, tem um artigo para escrever no dia seguinte.

21:00 – Chegamos ao restaurante previsto, temos mantido a tradição nos últimos anos mas desta vez, os preços são demasiado altos e está tudo lotado. Tentamos ligar para outro sports bar mas sem sucesso. Pelos vistos este superbowl vai ter muitos olhos a vê-lo em Portugal. Finalmente alguém se lembra de outro local que pode ser interessante. Ligamos, “Desculpe vão passar futebol americano? O quê o superbowl?” – respondem do outro lado, toda a gente está pronta para o superbowl – “sim, isso mesmo. Estão abertos até que horas? Até o jogo acabar” – Fantástico! Seguimos caminho, morre uma tradição, nasce uma tradição nova.

21:30 – Não há nachos, não há guacamole. Há bifanas e há rissóis. Há cinco pessoas satisfeitas com a decisão.

22:30 – Começam a chegar mais pessoas, por momentos pensámos que só nós íamos ver o superbowl, enganámo-nos redondamente. Começam as apostas quem vai ganhar, qual o resultado final, qual a estratégia a utilizar.

23:00 – Começa a transmissão do jogo, Pink canta o hino americano. Por algum motivo neste cenário o hino americano parece sempre mais épico. Já está tudo entusiasmado para começar o jogo.

23:25 – Moeda ao ar ganham os Patriots, escolhem caras (escolhe-se sempre caras) e decidem chutar para o adversário. A ideia é receberem a bola no início da segunda parte.

23:30 – Kickoff!!

7 minutos de jogo e os Eagles têm possibilidade de marcar os primeiros pontos, várias conversões de terceiro down (Nick Foles veio para ganhar) e uma rotação de backs com Blount, Ajayi e Clement que causa confusão na equipa dos Patriots. Ao fim do quinto passe uma pergunta assola os fãs dos Patriots: Onde está Malcom Butler? O herói do superbowl 49 não é titular. Voltando ao jogo, field goal Eagles. 3-0

Entra Tom Brady. É neste momento que uns jovens ao pé da nossa mesa nos decidem abordar. “São todos fãs dos Patriots?” perguntam eles. “Quase todos” respondemos nós, “eu não tenho equipa só quero é que o Tom Brady perca”. No fundo é isto, os Patriots são a equipa que todos adoram odiar.

Ao fim de três minutos já Brady tinha feito o que Brady faz ao colocar os Patriots na red zone mas desta vez não houve touchdown. Gostowski faz o 3-3. Todos comentámos que o pontapé foi um bocado próximo do poste, sinal do que vinha aí…

Drive seguinte de total domínio do ataque dos Eagles com uma grande corrida de Blount e um passe de 40 jardas de Nick Foles para o touchdown de Jeffery. 2:34 para se jogar no primeiro quarto e 9-3. Os Eagles falham o pontapé de conversão. “Foi o vento”, diz ironicamente um dos meus amigos, o superbowl joga-se num estádio coberto, lá fora estão -16ºC.

Antes do primeiro quarto terminar os Patriots voltam à redzone mas esperam pelo início do segundo período para tentarem marcar. O jogo é longo e todas as jogadas contam.

Na primeira jogada do segundo período, numa situação de terceiro down, 2 jardas motion de Cooks e corrida para o lado direito. Ao ver o adversário tenta saltar por cima deste antecipando o tackle baixo… enganou-se e é placado no ar. A cena parece saída da WWE, só faltou o powerbomb final. Tentativa de pontapé para três pontos. Mau snap +  mau hold = desastre Gostowski atira ao poste e posse de bola para os Eagles. “Kickers are people too” Os Kickers também têm direito a falhar.

Aos dois minutos do segundo período, o momento triste do jogo. Já depois dos Patriots recuperarem a posse de bola, Brandin Cooks recebe um passe isolado mas na tentativa de ganhar mais jardas é “atropelado” por um defesa dos Eagles. Logo à primeira vista percebeu-se que tinha doído. Não voltou ao jogo. A NFL tem vindo a reforçar o seu protocolo concussões e este lance nunca iria deixar Cooks voltar ao jogo. Os Patriots perdem um dos seus receivers mais perigosos.

Mas este é o superbowl, não há desculpas, e como dizia o Quinito “é altura de pôr a carne toda no assador”. Trick-play dos Patriots e no reverse para Amendola passe para Brady isolado no lado direito mas este não conseguiu receber a bola (será que a mão lesionada prejudicou?). A verdade é que não conseguiu receber a bola. O drive terminou numa jogada de quarto down com passe para Gronkowski (esta decisão revelou alguma desconfiança em relação ao kicker de New England) que não conseguiu fazer a receção: turnover on downs.

Do lado dos Eagles a eficiência era tremenda com um running game inspirado e Blount a marcar à antiga equipa 15-3. Gostoski responde com um pontapé aos postes, 15-6.

Ainda antes do intervalo os Eagles continuam a carregar e a concretizar terceiros downs (acabaram com uma eficiência de 62% em terceiros downs, com 10 em 16, e 100% em quarto down 2 em 2). Mas isso não impede a interseção dos Patriots a cinco minutos do fim do segundo período a três jardas da endzone por Harmond. 97 jardas depois, James White, o herói da última superbowl, marca numa corrida pelo meio 15-12.

Os Patriots conseguiam reduzir a diferença para um field goal e iam receber o pontapé no início da segunda parte. Faltavam dois minutos e a defesa só precisava aguentar os Eagles. Mas um passe em 3ª e 3 nas 47 jardas para Clement originou uma corrida de mais de 50 jardas, e só à terceira placagem conseguiram parar o running back dos Eagles. A bola estava agora a 12 jardas da endzone. Matt Patricia era o homem em foco na linha lateral dos Patriots, o coordenador defensivo não estava a encontrar a fórmula para parar os homens de Filadélfia. Mesmo quando parecia que tinham conseguido parar o ataque dos Eagles, estes conseguiam arranjar uma forma de marcar. E numa trick play muito semelhante à dos Patriots, Foles fez o que Brady não conseguiu e recebeu a bola para touchdown. 22-12 Eagles.

Doug Pederson conquista o seu primeiro superbowl enquanto treinador e o primeiro dos Philadelphia Eagles Fonte: NFL
Doug Pederson conquista o seu primeiro superbowl enquanto treinador e o primeiro dos Philadelphia Eagles
Fonte: NFL

Uma hora da manhã e intervalo, tempo para mais uma tosta, idas à casa de banho, e para alguns, uns cigarros nervosos. Não estava fácil para os Patriots. No intervalo o espectáculo do costume com Justin Timberlake a apresentar alguns dos seus sucessos rodeado de dançarinos e coreografias épicas. No final uma homenagem a Prince, artista originário de Minnesota, e com o estádio em tons de roxo todos se preparavam para o início da segunda parte.

Que ajustes fariam os Patriots? Conseguiriam os Eagles continuar a ter todo o tempo do mundo para atacar? Iria Belichick assumir o play-calling da defesa dos Patriots? Do lado dos Eagles tudo corria bem, era só preciso manter. Ao contrário do que seria de esperar na primeira parte os Patriots optaram por jogar na expectativa, a minha aposta seria que iriam tentar retirar o jogo de passe a Foles e obrigar a correr mas tal não se verificou. No regresso do intervalo parecia que os Patriots tinham feito os ajustes do costume mas, mais tarde, viu-se que o ataque dos Eagles continuava imparável. Teria de ser Tom Brady e o ataque dos Patriots a ganhar este jogo.

O primeiro drive mostrou essa intenção. Se na primeira parte Gronkowski recebeu 9 jardas, no primeiro drive recebeu quatro passes para 63(!) jardas e o touchdown 22-19. Por esta altura o jogo já estava a ser histórico em termos de total de jardas das duas equipas e a realidade é que terminou como sendo o jogo com mais jardas jogadas na história da NFL com 1151 jardas.

Eagles continuam a sua marcha no terreno e Clement, outra vez em terceiro down, marca num wheel route de 30 jardas. Muitas repetições foram necessárias, na realidade nos tempos que correm ninguém sabe se uma receção vale ou não por causa do jogador ter de “sobreviver ao chão”. Mas o touchdown contou e 29-19 para os Eagles. Patriots respondem e touchdown para Chris Hogan 29-26, resultado com que termina o terceiro quarto.

Chega a altura das decisões. Os últimos quinze minutos da época, o tudo ou nada. Os Patriots conseguem aguentar os Eagles obrigando a um pontapé de Elliot para o 32-26. É um jogo de seis pontos e para os Patriots isso quer dizer que podem passar para a frente do marcador pela primeira vez no jogo.

Se Gronk é complicado de marcar, mais o é na red zone e num passe de fade para o fim da endzone coloca os Patriots finalmente na frente, para gáudio dos fãs no restaurante que nesta altura tinham abandonado as tostas por unhas dos dedos. 33-32 para os Patriots com 7 minutos para se jogar.

Um minuto depois os Patriots forçam o quarto down aos Eagles, e tudo parecia prestes a ficar resolvido, mas Doug Pederson e Foles tinham ideias diferentes e um passe para Zach Ertz concretiza o quarto down e garante pelo menos que os Eagles vão ter hipóteses para marcar novamente. A dois minutos e vinte do final, Ertz volta a ser decisivo e marca o touchdown que coloca o marcador em 38-33 para os Eagles! Em vez de chutarem aos postes, os Eagles tentam a conversão de dois pontos mas sem sucesso. Fazia sentido esta jogada, ganhar por cinco ou ganhar por seis nesta fase significa praticamente a mesma coisa e os kickers dos Patriots têm um grande histórico de ganharem superbowls no último pontapé.

Dois minutos e vinte para o final e um desconto de tempo é normalmente mais que suficiente para Tom Brady e os Patriots marcarem, por isso o jogo estava longe de estar terminado. Mas a defesa dos Eagles tinha outras ideias. Apostando num rush só com os quatro linhas defensivos e garantindo que Brady não tinha linhas de passe rápidas os Eagles conseguiram forçar um fumble por Graham, recuperado por Barnett. Bola para os Eagles e possibilidade de se fazer História. Agora era preciso gastar tempo e se possível marcar ou fazer um primeiro down. Elliot marcou um pontapé de 45 jardas e colocou os Eagles a ganhar por 41-33. Oito pontos de diferença, uma margem inultrapassável. Certamente Tom Brady não ia conseguir repetir o que fez no superbowl anterior e concretizar uma jogada de 8 pontos.

Os Patriots ainda tentaram um Hail Mary de 65 jardas mas no meio do molho de jogadores e mãos a bola acabou por cair desamparada no chão e o jogo terminou. Os Eagles ganharam a sua primeira superbowl e uma cidade desesperada por uma vitória conseguiu fazer a sua festa.

No final o sentimento era que tinha sido uma grande final, os Patriots desta vez não ganharam mas pelo menos uma coisa é garantida daqui a 365 dias há outra superbowl e por todo o mundo amigos e famílias irão reunir-se para mais uma edição deste jogo.

Foto de Capa: NFL

Daniel Felício Silva

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