Publicidade

Mundial de Snooker 2021 | Capítulo 4: As meias-finais

Márcio Francisco Paiva · 12 min

Foto: World Tour Snooker

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

A CRÓNICA: FINAL DE BOM PRENÚNCIO E DE PRONÚNCIA INGLESA

And then there were two… Shaun Murphy e Mark Selby são os sobreviventes da edição de 2021 do Campeonato do Mundo de Snooker. Os dois ingleses vão em busca do seu segundo e quarto título mundial, respetivamente. Com a vitória nestas meias-finais, “The Magician” Murphy garantiu a sua quarta final, tendo vencido a de 2005 e sido derrotado nas de 2009 e 2015, e garante a quarta vitória em cinco meias-finais do Mundial de Snooker (só foi batido nesta fase da competição em 2007, por… Mark Selby).

É precisamente o “Shark” que vai estar do outro lado da contenda derradeira pelo cetro. O “Jester from Leicester” vai em busca do tetra que lhe permitiria igualar John Higgins, na sua quinta final (só perdeu a de 2007, para… John Higgins). Murphy e Selby agendaram, então, encontro a quatro sessões (em teoria) após baterem Kyren Wilson (17-12) e Stuart Bingham (17-15), respetivamente, nestas meias-finais.

Das três meias-finais de Mundial que Murphy venceu anteriormente, uma também havia sido por 17-12; Shaun viria a vencer a final. Das quatro que Selby venceu até aqui, três também haviam sido conquistadas pelo homem de Leicester por 17-15; Selby viria a vencer as três finais. Isto significa que os resultados alcançados por ambos nestas meias-finais foram os mesmos que conseguiram em todas as ocasiões em que se sagraram campeões.

A série de um vai continuar, a outra irá ser quebrada. Já a Maldição do Crucible não o será tão cedo. A queda de Kyren Wilson garantiu que não teremos campeão inédito este ano e que, por consequência, não haverá quem possa quebrar no próximo Mundial a maldita Maldição (que dita que nenhum campeão mundial inédito consegue revalidar o título no ano seguinte – na Era Crucible, iniciada em 1977, nunca aconteceu).

A grande final terá lotação máxima e esgotada, com 980 pessoas de olhos fixos no pano verde a ver as bolas rolarem e precipitarem-se para os bolsos da mesa até um dos jogadores granjear para si o 18º e vencedor frame. Crucible com público, recorde de centenárias numa fase final do Campeonato do Mundo já quebrado (103), jogadores em forma e ex-campeões do Mundo em confronto, Snooker de enorme qualidade e emoção… What else?

Que venha a final e que traga consigo os 35 frames possíveis. E que ganhe o melhor. Nós, apaixonados da modalidade, já vencemos. Entretanto, vamos olhar para as meias-finais que nos deram esta grande final entre Mark Selby e Shaun Murphy.

A PRIMEIRA MEIA-FINAL

Stuart Bingham (15-17) Mark Selby: Bingham soube nadar com o Tubarão, mas não o conseguiu matar

Mas. Que. Batalha. Neste embate, houve de tudo um pouco: jogos de domínio de uma das partes, jogos plenos de equilíbrio decididos na bola preta, bolas longas pejadas de técnica, bolas curtas recheadas de sorte, bolas embolsadas em jogadas de combinação de múltiplas vermelhas, reagrupamentos (sim, plural) das bolas vermelhas, reações para a história, centenárias do mesmo valor, do mesmo jogador e em sequência e… uma quinta sessão, que veio a ser de um frame apenas.

Num encontro que teve tanto de arrastado e moroso, pelas várias batalhas táticas travadas, como de absolutamente espetacular e entusiasmante, Mark Selby foi mais forte que o “Ball-run” e segue para a final depois de eliminar Kurt Maflin, Mark Allen, Mark Williams e Stuart Bingham. “The Shark” passou, assim, por um campeão e por um tricampeão mundial.

Mark Selby havia concedido apenas onze frames nas três rondas anteriores, mas viu Bingham “roubar-lhe” 15 jogos. O “Jester from Leicester”, que começou o torneio no quarto lugar do ranking mundial, mas que já garantiu a subida ao segundo posto, terá capacidade para levantar o tão desejado troféu pela quarta vez na sua ilustre carreira?

Primeira Sessão

Stuart Bingham partiu na frente da contenda, amealhando o primeiro jogo por 71-7, fazendo inclusive uma entrada de 60 pontos. Segundo e terceiro frames completamente diferentes: bastante divididos, com Selby a levar a melhor por 58-56 e por 67-36. A vitória no quarto frame por 77-4 deixou o “Shark” confortável no marcador e na partida.

Bingham viria a responder no reatar da sessão, com três jogos vitoriosos em sequência (faz uma entrada de 92 pontos no quinto frame). Selby somou apenas sete pontos nestes três jogos, mas acabou por fazer pender para o seu lado o oitavo e último frame da sessão, por 73-42. Nota dominante na primeira sessão: o equilíbrio. Foi com um empate a oito que abandonámos a primeira de quatro (aliás, cinco) partes do encontro.

Segunda Sessão

A segunda sessão começou como havia terminado a primeira. Bingham embolsou uma vermelha, mas não foi capaz de dar sequência. Mark Selby acabou por fazer 52 pontos numa entrada apenas, que se revelaram insuficientes, após o break de 62 de Stuart Bingham. Estava de novo na frente o campeão mundial de 2015.

Respondeu como o campeão que é Mark Selby, com 84 pontos em mais de uma entrada; respondeu como o campeão que também é Stuart Bingham, com 83 pontos numa entrada só. O “Ball-run” de novo na dianteira, por pouco tempo. O “Shark” conquistou três frames consecutivos – com o intervalo da sessão pelo meio –, vencendo os dois últimos com entradas de 134 em ambos.

O que fez Bingham? Um break de 127 (para um total de 135 pontos) no frame imediatamente a seguir. Todavia, as saudades daqueles jogos “apertadinhos” apertavam e o último da sessão trouxe nova batalha dura, que Mark voltou a vencer, desta feita por 68-51. Sessão dois encerrada com um 9-7 favorável ao “Jester from Leicester”.

Terceira Sessão

A terceira sessão desvendou-nos um Bingham de qualidade inegável. Entradas de 131 e 96 – esta numa tentativa de tacada máxima, travada pela que seria a 13ª bola vermelha embolsada – deram-lhe o empate a nove. 19º frame… Histórico, emblemático, memorável. Com uma hora de frame, Selby liderava por três pontos, após uma entrada de 52 pontos (52-49). Bingham, na mesa, tinha uma bola rosa para o canto da amarela de relativo grau de dificuldade, mas de todo embolsável.

Bingham embolsou-a… no canto da bola verde. A rosa dobrou os cantos do bolso esquerdo superior da mesa e, num percurso em que beijou mais três tabelas, dirigiu-se para o buraco superior direito. Bingham fazia 55 pontos, mas perdia a colocação para a decisiva bola preta. Escolheu defender e, mérito lhe seja atribuído, venceu o duelo com uma bola preta fantástica, embolsada… no canto superior esquerdo. Foram 63 minutos de frame, marca recorde no atual Campeonato do Mundo.

Stuart vencia assim o terceiro jogo consecutivo, venceria na ressaca o quarto frame da primeira parte da sessão e, no regresso após intervalo, venceria o quinto jogo em sequência e chegava ao 12-9. Selby conseguiu evitar a dilatação do resultado, vencendo os frames 22 e 23, com entradas de 62 e 51.

O último jogo da sessão decidiria se abraçaríamos a derradeira sessão com uma igualdade a doze ou com um 13-11 a favor de Bingham. Este último, com um break de 63 e um total de 74 pontos, superou Selby, que somente chegou aos 22 pontos. O homem que ao longo do torneio foi magnetizando favoritismo via-se em desvantagem ao cabo de três sessões.

Quarta Sessão

A fortuna que havia assistido Bingham no 19º frame retornou ao Teatro dos Sonhos para auxiliar Mark Selby no 26º. O jogo de abertura da quarta sessão (25º frame) havia visto Selby levar a melhor por 69-41 e reduzir para 13-12. Seguiu-se, então, o jogo 26, que viu o “Ball-run” permitir que o “Shark” tentasse uma bola vermelha longa para abrir as hostilidades. Selby fez pontaria ao buraco inferior direito, a bola, mais uma vez, dobrou os cantos, foi beijar outras duas tabelas e precipitou-se… para o buraco correto (ainda tocando ambos os lados da abertura do bolso).

A colocação da bola branca, contudo, não foi a desejada e a entrada do “Jester” ficou por aí. Selby haveria de retornar para, com uma tacada de 125 pontos, selar o empate a 13. Do outro lado, já percebemos, estava um verdadeiro campeão, que respondeu com uma entrada de 100 pontos, recuperando a dianteira do marcador.

Mark restabeleceria o empate, seguindo-se o intervalo. No regresso, os dois gladiadores travaram mais uma batalha fantástica, que o tricampeão mundial levou de vencida – de novo, um dos fatores que fez pender a contenda a favor de Selby. 76 pontos chegaram para bater a tacada de 51 de Bingham e para colocar Mark a vencer por 15-14. O “Shark” faria o 16-14 com um break de 132 pontos.

Jogar-se-ia o 31º frame, mas não se jogariam mais. A tarde já ia longa e Murphy e Wilson tinham encontro marcado às 19 horas. Selby estava a um jogo da final e teve-a na ponta do taco ali e então: fez 44 pontos. Cometeu um erro; Stuart aproveitou – fez 85 pontos de uma assentada e obrigou a uma mini-sessão após o término da outra meia-final.

Quarta sessão e meia

16-15. Haviam sido disputados 31 dos 33 frames possíveis. Selby precisava de vencer um para atingir a final, Bingham para forçar a “negra”. A tensão era palpável e os erros visíveis. O mais grosseiro foi de Stuart Bingham, quando este levava 54 pontos de entrada e 59 de total. Mark Selby alcançaria os 81, que seriam suficientes para confirmar o 17-15 que tantas alegrias lhe deu no passado.

A SEGUNDA MEIA-FINAL

Kyren Wilson (12-17) Shaun Murphy: Só pode ser magia!

Uma partida de duas caras, em que a primeira sorriu a Kyren e a segunda sorriu a Murphy. Confirmando o provérbio, a que sorriu por último sorriu melhor e “The Magician” acabou por vencer com uma reviravolta no marcador digna de um campeão. Shaun viu-se por duas vezes num fosso que aparentava ser inescapável, tendo estado a perder por 6-2 e por 10-4.

Todavia, deste último resultado em diante, Wilson apenas venceu dois frames, enquanto via Murphy movimentar as bolas no pano de forma… mágica! Shaun parece ter trocado o taco por uma varinha em pleno encontro e esta revelou-se mais capaz do que a espada do “Guerreiro” Kyren Wilson, que cai na meia-final pela segunda vez em três presenças nesta fase da competição, meses após ter estado na final de 2020.

Shaun Murphy segue, assim, para a final tendo deixado pelo caminho Mark Davis, Yan Bingtao, Judd Trump (Campeão Mundial em 2019) e Kyren Wilson. “The Magician” superou, desta forma, três jogadores do top-10 mundial em quatro rondas, cedendo 37 frames no total. Murphy, que à entrada para o torneio era sétimo na hierarquia mundial, já garantiu, pelo menos, a subida ao quinto posto. Teremos bicampeão?

Primeira Sessão

Shaun Murphy parte na frente, superando os 25 pontos de Wilson com um break de 74, que lhe dá o 1-0. Kyren responde com o empate a um (79-29, mas com várias idas à mesa) e, daí, descola: o “Warrior” vence quatro frames em sequência, com três centenárias (110, 127 e 121) e uma entrada de 72 pontos. Resultado pesado para o “Magician”, que, todavia, consegue responder com uma entrada de 71 pontos, num total de 105, para reduzir para 5-2.

Joga-se o último frame da primeira sessão, com a pressão do momento longe de estar dividida equitativamente. Murphy precisava do 5-3, mas é Kyren quem arrecada o oitavo jogo, fazendo mais uma entrada acima de 50 pontos (70), num total de 104 que superou largamente os 37 pontos que Murphy havia sido capaz de somar. 6-2 no fecho da sessão inaugural.

Segunda Sessão

Shaun precisa de entrar melhor do que o seu adversário, mas só consegue entrar igual. Frame cá, frame lá e 8-4 ao intervalo da sessão, favorável a Kyren, que, nesta primeira parte, faz duas entradas de mais de 50 pontos, 69 e 52 (Murphy efetua uma de 88), mas dá 53 em faltas a Shaun… no mesmo frame. Foi no 10º que Wilson, em posição de snooker atrás de uma bola azul perdida perto da zona do “D”, somou sete faltas de sete pontos (por contacto com a bola preta) e uma falta mínima de quatro pontos (por não ter feito contacto com qualquer bola vermelha).

“Agora é que é”, deverá ter pensado “The Magician” no regresso dos bastidores. Não foi. “The Warrior” entra de taco em fogo e arrecada os primeiros dois frames da segunda parte com entradas de 60 (para um total de 117) e 131 pontos, permitindo apenas seis pontos a Murphy no somatório dos dois jogos. 10-4 para Wilson e o peso do mundo a baixar em avalanche sobre Murphy.

Um 10-6 era o melhor que o campeão do Mundo de 2005 podia levar para a sessão número três e consegue-o com duas entradas de 50 pontos para cima – 59 e 86. Início de pesadelo para Kyren Wilson.

Terceira Sessão

A penúltima sessão começa bem para Wilson, que tenta mostrar aos fãs presentes no Crucible que não vai permitir veleidades a Murphy. 87 pontos, alcançados em mais de uma entrada, batem os 15 de Shaun e dilatam para cinco frames a vantagem do Guerreiro. É, então, Kyren quem granjeia para si o primeiro jogo das duas últimas duas sessões. Viria a ser o seu penúltimo frame conquistado.

Sem grande virtuosismo, “The Magician” cresce em consistência e solidez de jogo e, com três jogos consecutivos para o seu lado, aproxima-se do líder do marcador (11-9). Intervalo de sessão. No reatar do embate, mais um bom início de Wilson. Os 86 pontos numa só entrada permitiram-lhe vencer o frame e deixar Murphy em branco. Sol de pouca dura.

Shaun volta a vencer três jogos seguidos – fazendo, inclusive, breaks de 120 e de 76 pontos – e leva para a derradeira sessão um empate a 12 que chegou a apresentar-se como uma distante e inalcançável quimera.

Quarta Sessão

Uma quarta sessão equilibrada, era palpável, dependia do estado psicológico de Kyren Wilson. O desperdício de seis frames de vantagem poderiam ter um peso insuportável para o vice-campeão mundial de 2020 e Murphy podia fazer trabalho parco do compatriota. Pois bem, foi precisamente o que sucedeu.

Entradas de 78, 91, 117, 77 e 58 (a que acresceram alguns pontos obtidos em idas à mesa mais curtas) da parte de Murphy possibilitaram-lhe a conquista de cinco jogos sem resposta e um 17-12 a lembrar a meia-final de 2005, frente a Peter Ebdon. Na última sessão, Wilson pontuou em todos os frames, mas apenas por uma vez ultrapassou os 10 pontos, somando 54 em toda a sessão (quatro, 35, seis, três, seis).

A GRANDE FINAL

Mark Selby (4) vs Shaun Murphy (7)

À melhor de 35; 18-0 a 18-17: 2 de maio (13h e 19h) e 3 de maio (13h e 19h)

Foto de Capa: World Tour Snooker

 

Nota: números de cabeças-de-série não refletem ranking mundial

Márcio Francisco Paiva

Redação Bola na Rede · ver artigos