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50 sets depois o Rei caiu, e com estrondo!

Henrique Carrilho · 5 min

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Por vezes o “destino” pode ser matreiro. Mesmo para aqueles que já há muito inscreveram o seu nome no Olimpo do ténis. Esta semana, Rafa Nadal era, mais uma vez, o centro de todas atenções no mundo tenístico. O maiorquino partia para a sua previsível e já quase anunciada vitória em torneios oficiais, e seria em Madrid que quebraria (mais um) record, daqueles que parecem impossíveis de ser alcançados. Tratava-se de ultrapassar a marca dos 49 Sets vencidos de forma consecutiva por John McEnroe, em 1984.

E foi até de forma bem natural que começou a prova madrilena para o super-campeão espanhol, com uma vitória autoritária sobre Gael Monfils na primeira ronda. O pequeno Diego Schwartzman revelou-se, porém, um grande obstáculo à supremacia Nadaliana e, apesar de não ter conseguido fazer mais de quatro jogos por set, pode dizer que a si deve esse facto. O argentino de 25 anos lutou bem e dispôs de vários pontos de break no primeiro set – desperdiçando um deles com um smash falhado que lhe podia ter dado a vantagem no marcador no início da primeira partida. No entanto, com maior ou menor dificuldade, Rafa lá foi somando mais pontos do que o seu adversário e venceu, quebrando o famoso recorde de McEnroe – mas não convenceu.

Pela primeira vez no último mês e meio, viu-se um Nadal nervoso, preso em alguns momentos mais “apertados” e menos acutilante. Como foi aqui abordado, Madrid não reúne as condições ideais para o maiorquino praticar o seu melhor estilo de jogo, mas havia “algo mais” do que isso. Dominic Thiem seria um adversário mistério nos quartos-de-final. Se por um lado o austríaco entrou para o court sabendo que havia sido ele mesmo o último a impor uma derrota em terra batida a Rafa (em Roma, 2017), por outro o jovem de 24 anos vinha de uma série de resultados desastrosos nesta superfície – incluindo um humilhante 6/0, 6/2 aplicado exatamente…por Rafa, há menos de quatro semanas.

Dominic Thiem colocou um ponto final na série de sonho de Rafa Nadal, e brilhou em Madrid
Fonte: Mutua Madrid Open

Já em Madrid, foi com “demasiada” dificuldade que Thiem ultrapassou Federico Delbonis, e precisou novamente de três sets para vencer Borna Coric. Não se augurava grande sina a Dominic Thiem. Porém, bem como na maioria das modalidades, a bola é redonda e o campo é o mesmo para os dois intervenientes, o que significa que tudo pode acontecer e Thiem fez questão de levar essa ideia ao extremo. Inspirado por defrontar o Rei no seu próprio reino, o mais novo dos jogadores entrou decidido a mudar a história do último encontro entre os dois e o que se viu foi um Thiem extremamente agressivo que ameaçou o break logo no jogo de serviço inaugural de Nadal, colocando o espanhol em sentido.

Break esse que acabou mesmo por surgir no sétimo jogo do primeiro set e, ainda que Rafa o devolvesse poucos minutos depois, acabaria mesmo por ser Thiem a quebrar a longa série de 50 sets vencidos de forma consecutiva por Rafa e selou a vitória no primeiro parcial por 7/5. A juntar a uma exibição de encher o olho por parte de Thiem, Nadal “ajudou” à festa do austríaco, mostrando por vezes um ténis irreconhecível, repleto de erros crassos e muito pouco comuns da sua parte. Certo era que à partida para o segundo set, Nadal estava nervoso e pouco confiante, contrastando com um Thiem que respirava vontade de colocar mais uma vez o seu nome na história.

O austríaco acabou por concretizar uma tarde de sonho, repleta de golpes bonitos que bem sabe executar, e castigou de forma severa os erros infantis do – até então – líder do ranking ATP e fechou o segundo set com o parcial de 6/3 a seu favor, impondo o primeiro desaire do ano a Rafael Nadal na sua superfície de eleição e consequente perda da “coroa” para Roger Federer.

Thiem acabou mesmo por estender a sua senda de boas exibições até ao último dia de competição na Caja Magica, e diante de um “omnipotente” Alexander Zverev, protagonizou uma exibição que pode bem fazer parte de uma das boas rivalidades tenísticas dos próximos anos. O alemão de 21 anos mostrou-se porém muito concentrado em vencer o seu terceiro Masters 1000 da carreira e levou a cabo essa tarefa de forma irrepreensível, apoiando o seu jogo não só na sua arma predileta que é a esquerda a duas mãos ao longo da linha, mas também se mostrou muito confortável na argila espanhola e, mostrando um exímio trabalho de movimentação no court, conseguiu algo que por vezes lhe falta nos momentos-chave: tranquilidade e equilíbrio para disferir a pancada de direita com a pujança que lhe é característica.

Legenda: Zverev, 21 anos, já leva 3 títulos de categoria ATP1000
Fonte: Mutua Madrid Open

Estando estes dois (ou três) fatores aliados Zverev sabe que, em princípio, pode confiar no seu golpe de serviço e, por isso, as probabilidades de o alemão derrotar qualquer adversário são exponencialmente maiores. Duplo 6/4 foi o parcial de um bom jogo de ténis digno de dois talentos raros do circuito mundial e que prometem continuar a dar cartas, apesar da sua (notável, e por vezes compreensível) irregularidade anual.

De destacar ainda os dois eventos que decorreram de forma paralela à grande competição masculina, que foram a competição feminina e a competição dedicada aos 4 melhores sub-16 espanhóis, que se encontram ano após ano na Caja Magica para lutar nos mesmos courts que os seus heróis por um troféu e uma oportunidade de subir ao palco para o receber lado a lado com o grande vencedor do troféu principal masculino.

Começando pelas senhoras, o destaque vai para a heroína do circuito feminino, Petra Kvitova. A tenista checa leva à letra o ditado que diz que “dos fracos não reza a história” e conquistou pela terceira vez o troféu na Caja Mágica. Absolutamente notáveis os feitos de Kvitova após o seu episódio que poderia ter colocado um ponto final precoce na sua carreira.

Não podia, por fim, deixar de dar destaque a alguém com quem tive o prazer de partilhar court, há já vários anos, em Espanha. Sob o comando do treinador brasileiro, e já entrevistado do Bola na Rede Cristiano de Oliveira Pinto, Mario Mansilla Diez (dos jogadores mais jovens de sempre a alcançar o primeiro ponto ATP, curiosamente no Future de Idanha-a-Nova) fez a Academia Oliveira Tennis Pro, sediada em Burgos, alcançar o feito de se ver representada três vezes na Final desta prova especial madrilena, nos últimos três anos.

Se há dois anos Nicolás Alvarez Varona logrou sagrar-se campeão e partilhar palco com Novak Djokovic este ano foi Mario que, depois de duas exibições típicas de quem tem tudo para singrar no mundo do ténis, levantou o troféu na Caja Mágica. Deixo os meus parabéns a toda a comitiva e, claro, em especial ao Mario que passo a passo constrói o seu futuro junto do seu treinador de sempre, o Cristiano.

O circuito segue agora para o Foro Italico de Roma, onde já se disputa o Masters 1000 romano. Irá Rafa voltar a levantar o troféu em Itália, como fez nos anos de 2005, 2006, 2007, 2009, 2010, 2012 e 2013?

Foto de Capa: Mutua Madrid Open

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro

Henrique Carrilho

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