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Chamem-lhe o que quiserem

Henrique Carrilho · 3 min

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Cabeçalho modalidadesA sorte não existe. Aprendi isso ao longo dos anos em que, pelos clubes de ténis deste país, ora ia ganhando, ora perdendo, semana após semana, torneio após torneio. Um dia, num treino com aquele que foi um dos Quatro Mosqueteiros da Geração de Ouro do ténis português, e o treinador com quem mais gosto tive em trabalhar, Bernardo Mota disse-me a sua fórmula do Sucesso: Trabalho X Horas.

Retive essa equação até hoje e vejo-a como uma verdade do desporto, seja ele qual for. E quando se fala desta fórmula, é também matemático o recurso às comparações de sempre: Nadal precisa de trabalhar muito mais do que Federer (um pouco à semelhança da comparação entre o “talento” de um “predestinado“ como Lionel Messi e o “mérito” de um trabalhador incansável como Cristiano Ronaldo).

Fonte: ATP World Tour
Fonte: ATP World Tour

Não posso estar mais em desacordo com estes “rótulos” que muitos (e, em grande parte, por culpa dos media) teimam em colocar nos Grandes deste mundo do desporto. Se o termo “Talento”, aplicado ao desporto, é habitualmente objeto de conversa para largas horas, para mim resume-se à capacidade de sacrifício total pelo sonho. Talentoso não é aquele que executa amorties e half-volleys habilidosos. Esse é o tecnicista, muitas vezes apurando essa técnica ao mais alto nível. Vejo o talentoso como aquele que com 12 anos chorava todas as noites em Alcochete com saudades da mãe e dos irmãos. Aquele que, com a mesma idade, ouvia centenas de vezes o tio Toni gritar “aguenta!” enquanto os colegas de treino se divertiam naquele clube de ténis em Manacor. Ou aquele que com 36 anos, 19 títulos do Grand Slam, 94 títulos ATP e uma família já numerosa continua a acordar cedo todas as manhãs para pegar na sua raquete e entregar tudo o que tem, dentro do court.

Falar deste tema sem falar de nomes como Pedro Sousa, no ténis, ou Fábio Paim, no futebol, é quase impossível. É neste tipo de exemplos que me baseio quando digo que no desporto não há sorte. Há oportunidades e muitas vezes o timing é fundamental para saber aproveitá-las, ou não. Aí sim, é requerido o talento.

O talento de deixar a força de vontade ser maior que todas as outras e superar as adversidades. É inegável que estes jogadores, bem como os mais famosos Nick Kyrgios ou Bernard Tomic, têm condições para chegar bem mais longe do que aquilo que têm mostrado.

Como alguém já disse um dia, todos aqueles jogadores que aparecem na televisão sabem servir, bater direitas e esquerdas. A diferença é (quase) na totalidade marcada a nível psicológico – por isso algumas vezes digo que o ténis é, depois do xadrez, uma das mais exigentes modalidades desportivas a nível mental. Jimmy Connors, antigo número um do ranking ATP e, atualmente, o atleta com maior número de títulos profissionais, disse um dia, já após largos anos de “reforma”, que aquilo de que mais tinha saudades era servir com match-point contra, no tie-break do quinto set de um torneio do Grand Slam.

Fonte: Wall Street Journal
Fonte: Wall Street Journal

Aí, na capacidade de auto-controlo e resistência mental, reside tantas vezes a diferença entre Rafa, Federer, Djokovic, e todos os outros que, quando chega a hora de fechar o “encontro das suas vidas”, vêm o seu braço preso, e minutos depois vêem o encontro escapar-se-lhes por entre os dedos.

Em todo o desporto existem casos destes. A bola que bate na tela e cai do outro lado (ou se recusa a isso mesmo), a bola que bate no poste e entra (ou sai). Sorte? Chamem-lhe o que quiserem, mas se assim é só tenho a dizer que a sorte dá muito trabalho.

 

Foto de Capa: Zimbio

Artigo revisto por: Francisca Carvalho

Henrique Carrilho

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