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Se olharmos para a lista dos números 1 do mundo do ténis, quer nos homens quer nas senhoras, rapidamente podemos verificar que muitas são as suas nacionalidades. Desde a Suíça à Bielorrússia, passando pelos Estados Unidos, muitos países tiveram (e, tradicionalmente, têm) o privilégio de poder partilhar nacionalidade com o melhor ou a melhor tenista do mundo durante um determinado período.
No artigo de hoje, venho abordar o caso dos países nórdicos e tentar esmiuçar o porquê de, salvo exceções de que falarei mais à frente, haver tão poucos nomes grandes nos circuitos profissionais masculino e feminino. Dinamarca, Suécia, Finlândia e Noruega são provavelmente olhados pelo resto da Europa como se fossem os quatro “irmãos” que são conhecidos por serem os países aparentemente mais felizes, mais ricos, com melhores condições de vida, enfim… que proporcionam mais conforto àqueles que neles habitam. Desde que embarquei, há uns largos meses, para a Dinamarca, deparei-me com algumas surpresas – umas fantásticas, outras menos. Tenho a sorte de poder aqui acompanhar de muito perto o ténis nacional, a formação e as diferentes fases de desenvolvimento de muitos atletas e nestes quase sete meses começo a retirar algumas conclusões que aqui partilho com os leitores do Bola na Rede.
Em primeiro lugar sim, em termos de infraestruturas, não vejo muitas razões de queixa para os clubes e os seus atletas. Devido ao (horrível) clima dinamarquês – nórdico em geral – os municípios consideram que a prática desportiva é indispensável para a sanidade física e mental dos seus habitantes e por isso são muitos os pavilhões, as arenas e os complexos desportivos cobertos onde, no caso do ténis, se disputam 2/3 da época, sendo que os atletas apenas “saem à rua” por volta de maio e “recolhem de novo” por inícios de setembro. Se muitas vezes a falta de apoio público é o fator apontado pelos clubes e atletas portugueses para resultados menos vistosos, aqui não é essa a realidade.

Fonte: ATP
Rapidamente reparei também na disponibilidade financeira de uma grande fatia dos atletas de todos os escalões etários – raquetes, equipamento, cordas, e sapatilhas novas são constantes com o passar das semanas, tanto nos torneios como nos treinos. A facilidade económica dos “paitrocinadores” é também notória e é uma prática comum a adição de aulas privadas às duas ou três aulas coletivas que os atletas de formação têm ao longo da semana.
Então por que raio não vingam muito mais os atletas desta região do planeta? Afinal, a indisponibilidade económica e a inexistência de infraestruturas apropriadas e disponíveis para os atletas representam uma grande fatia das razões que levam os jogadores a abandonar a modalidade, não é?
Ora bem, na minha opinião é fundamental juntar aos fatores acima referidos o fator “Conforto”. Passo a explicar. Qualquer aspirante a atleta profissional, ou mesmo os fãs mais atentos do desporto em geral sabem que, por experiência própria ou relato na primeira pessoa das maiores estrelas, um denominador comum a 99% deles é a busca incessante por alcançar um sonho distante ou uma vida confortável para eles e para aqueles que os rodeiam. Saltam-me imediatamente à memória os casos de Cristiano Ronaldo no futebol ou de Serena Williams no ténis. Pois essa realidade, em que desde jovens estes “guerreiros” se veem obrigados a contornar obstáculos atrás de obstáculos em busca de um sonho, é muito difícil de encontrar aqui, no Norte da Europa.
O (muitas vezes excessivo) mimo e conforto do qual as crianças muitas vezes não têm culpa não as obriga a suar mais que o adversário, a correr a mais uma bola distante, a fazer horas extra fora do court. O sentimento de “para quê fazer o esforço?” é muito comum aqui, entre os atletas dos 8 aos 28 anos, fazendo até por vezes lembrar o famoso caso do “talento perdido” que é Ernst Gulbis – o multimilionário tenista letão que assume jogar “apenas por diversão”. E esta questão estende-se a muito mais que a prática do ténis, é uma questão cultural e de educação que afasta os nórdicos do espírito de sacrifício porque, verdade seja dita, raro é aquele que precisa de se sacrificar para ter/conseguir algo – que a capacidade financeira consiga adquirir claro está.
É certo que é fácil encontrar exceções para esta regra – a Suécia contou com Bjorn Borg, Stefan Edberg e Mats Wilander no topo da classificação ATP e até a dinamarquesa (que, por coincidência ou não, tem um pai polaco) Wozniacki é, atualmente, a número 2 do mundo. No entanto, se tivermos em conta 23.5 milhões de habitantes (somando população de Dinamarca, Finlândia, Suécia e Noruega) a presença nos circuitos profissionais é, realmente, escassa:

Fonte: Australian Open
No ranking masculino, o melhor representante destes quatro países é Elias Ymer (128º, sueco) seguido por Casper Ruud (196º, norueguês) e pelos 545º e 546º classificados, oriundos da Finlândia e Dinamarca respetivamente. No que toca às senhoras, exceptuando Caroline Wozniacki, é preciso descermos até ao 555º posto para voltarmos a encontrar uma dinamarquesa. A melhor representante nórdica torna a ser sueca, desta vez Johanna Larsson na 73ª posição, seguida das 217ª e 569ª classificadas, vindas da Noruega e Finlândia respetivamente.
A pequena população de cada um destes países parece não servir de razão, visto que “até” Portugal – um país com 11 milhões de habitantes e pouca tradição no ténis – tem 4 atletas no top-200 ATP, a Croácia com menos de metade da população portuguesa tem 3 jogadores no top 100 ATP e 4 no top 100 WTA ou mesmo a República Checa, que com 10.5 milhões de habitantes conta com 10 atletas nos top100 somando mulheres e homens. Todos estes países têm, à partida e de forma generalizada, menos condições para fazer brotar talentos. No entanto, a conclusão a que podemos chegar depois desta breve análise é mesmo que a diferença entre produzir bem e em quantidade ou menos bem não se prende tanto à abundância no que toca a recursos, mas sim à forma como se lhes dá uso.
Foto de Capa: Ubitennis
Artigo revisto por: Rita Asseiceiro











