Roland Garros #2: Mirra Andreeva confirmou o génio; Maja Chwalinska desafiou a lógica | Ténis

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O ténis feminino adora surpreender. Mas mesmo num circuito habituado ao imprevisível, poucos imaginariam que a final de Roland Garros seria disputada entre Mirra Andreeva e Maja Chwalinska.

Uma menina prodígio anunciada há vários anos na tenista russa com apenas 19 anos recém cumpridos, mas com imensa margem de progressão, sendo que este Roland Garros não terá sido seguramente o único título na carreira desta brilhante tenista, chamada a deixar a sua marca neste desporto tão apaixonante.

Do outro lado, uma qualifier que entrou no torneio sem estatuto, sem pressão e sem qualquer expectativa mediática. Uma jogadora que depois de derrotar a tenista da casa Diana Parry na quarta ronda do certame francês, admitiu que não sabia se teria dinheiro para pagar um hotel na segunda semana do torneio.

Apesar da derrota, a tenista polaca sai deste torneio com vários motivos para sorrir e com a confiança reforçada, ela que parou de competir durante vários anos por questões relacionadas com a sua saúde mental, tendo superado uma depressão.

A primeira tenista vinda da fase de qualificação (que havia ganho em Abril deste ano o WTA 125 de Oeiras) a disputar a final de Roland Garros, sai de Paris com o bolso recheado de mais de um milhão de euros, e já com várias propostas de patrocinadores.

Entrou no torneio como a nº 114 mundial, e galga quase 100 (!) posições no ranking, estabelecendo-se como a nº 21 mundial quando o ranking for atualizado na próxima segunda-feira. Uma ascensão impressionante numa tenista com vários recursos (apesar da sua baixa estatura) para fazer uma boa temporada em relva e quem sabe, também chegar às rondas finais de Wimbledon.

No final, foi a jovem russa Mirra Andreeva a erguer o troféu. Esta edição do torneio feminino de Roland Garros ficará para a história pelas duas protagonistas que chegaram ao último sábado parisiense.

Mirra Andreeva conquistou o primeiro Grand Slam da carreira e fê-lo com uma autoridade quase insultante. A russa perdeu apenas um set durante toda a competição e apresentou um nível exibicional digno das maiores campeãs da modalidade.

A final foi apenas mais uma demonstração do seu enorme potencial. Variou ritmos, controlou as trocas de bola, mostrou maturidade emocional muito acima da idade e dominou grande parte do encontro. 

Chwalinska é uma jogadora com um estilo de jogo muito peculiar, “puxando” várias vezes as adversárias à rede, fruto do seu excelente toque de bola, mas Andreeva é muito rápida, e também ela tem um talento inato para jogar ténis.

A receita de uma esgotada Maja Chwalinska (ninguém disputou mais jogos do que ela nesta edição) não foi suficiente para uma muito focada e sempre muito presente Mirra Andreeva, com uma clarividência muito grande ao longo de todo o encontro.

O único momento de hesitação surgiu quando serviu a 5-1 para fechar o título. Uma pequena tremideira perfeitamente compreensível para uma adolescente que estava a poucos pontos de conquistar o título mais importante da sua carreira até ao momento. Mas mesmo aí, encontrou soluções. Porque os grandes campeões também se definem pela forma como reagem aos momentos de pressão. E Andreeva reagiu como uma campeã, quebrando o serviço de Chwalinska em branco, garantindo assim o seu tão desejado primeiro título de Grand Slam.

Não é possível dissociar esta vitória da tenista russa, do nome da sua treinadora Conchita Martínez, que já havia feito um excelente trabalho com a antiga tenista espanhola Garbiñe Muguruza, conduzindo-a dois títulos do Grand Slam em Roland Garros e em Wimbledon (derrotando as campeoníssimas Serena e Venus Williams na final respetivamente), e a outras duas finais, uma em Wimbledon e outra no Open da Austrália.

A treinadora espanhola é a timoneira ideal para guiar Andreeva, a quem já vimos por diversas vezes (fruto do seu temperamento e juventude) chorar durante as partidas, e desabar emocionalmente quando perde um jogo no qual se sente favorita e melhor do que a sua oponente. Conchita é a calma na tormenta, e isso mesmo reconheceu a tenista cazaque na cerimónia de entrega de troféus.

A verdade é que o triunfo da russa representa muito mais do que uma simples vitória num Grand Slam. Representa a confirmação de algo que o circuito já suspeitava há bastante tempo: o ténis feminino encontrou uma das suas próximas dominadoras.

Mas se Andreeva era uma candidata ao estrelato, a presença de Maja Chwalinska na final desafia qualquer lógica. A polaca escreveu uma das histórias mais improváveis da história recente de Roland Garros.

Construiu uma caminhada absolutamente memorável e deixou lampejos de uma tenista genial. Ficará na retina todo o virtuosismo do seu ténis e o seu sorriso contagiante. Pelo caminho deixou para trás nomes como Zheng Qiwen (campeão olímpica em título, ganhando precisamente na terra batida de Paris, e que já foi top 4 mundial), Elise Mertens, Maria Sakkari, Anna Kalinskaya, e Diana Shnaider.

Curiosamente, foi precisamente contra Shnaider que produziu uma das exibições mais importantes da carreira. Ao derrotar a russa, impediu uma final entre duas melhores amigas e parceiras habituais de pares.

Mas a sua campanha merece ainda mais destaque quando analisamos o contexto. Chwalinska perdeu apenas um set durante todo o torneio até chegar à final, contra a grega Maria Sakkari. Num quadro recheado de cabeças de série, foi avançando ronda após ronda, alimentando um conto de fadas que parecia impossível.

E talvez o mais extraordinário seja perceber que chegou à final sem nunca dar sinais de que a ocasião era maior do que ela. Jogou sempre de igual para igual. Sem medo. Sem complexos. Sem estatuto, até que o seu físico e a superior qualidade de Andreeva impediram o seu conto de fadas.

Enquanto Andreeva e Chwalinska brilhavam, o torneio foi ficando marcado por uma sucessão de quedas inesperadas. Iga Swiatek, quatro vezes campeã em Paris e considerada por muitos a rainha da terra batida, ficou pelo caminho nos oitavos-de-final contra a ucraniana Marta Kostyuk, que nunca lhe havia ganho sequer um set nos outros quatro encontros disputados entre ambas. 

A ucraniana atingiu pela primeira vez as meias-finais de um Grand Slam, e apesar de ter passado completamente ao lado da ocasião (fazendo uma exibição paupérrima contra Mirra Andreeva, numa reedição da final do WTA 1000 de Madrid, ganha pela tenista de Kiev), fez um torneio fantástico e interrompeu uma série incrível de 17(!) vitórias consecutivas sob o pó de tijolo.

A norte-americana Coco Gauff protagonizou uma das maiores desilusões da competição ao cair logo na terceira ronda diante de Anastasia Potapova, russa de nascença, mas recentemente naturalizada austríaca. Nem sempre vai ganhar Grand Slams apostando que a sua adversária falhe mais. Coco vai ter de melhorar todos os capítulos do seu jogo, principalmente o serviço e a pancada de direita, onde muitas vezes apresenta um nível sofrível.

Jessica Pegula (número cinco mundial) foi eliminada na ronda inaugural pela australiana Jessica Birrell, jogadora fora do top 80 mundial. 

A talentosíssima tenista checa Karolina Muchova caiu na terceira ronda perante Jil Teichmann, fora do top 100, onde chegou a dispor de 5-1 no segundo set, para poder conduzir o jogo a uma terceira e decisiva partida. Perdeu os seis jogos seguintes, e foi sem dúvida uma das grandes desilusões do torneio.

E a vencedora do Australian Open Elena Rybakina também não resistiu à imprevisibilidade desta edição, despedindo-se na segunda ronda perante Yuliia Starodubtseva.

Mas nenhum colapso foi tão simbólico quanto o de Aryna Sabalenka. A número um mundial e finalista na edição transacta, deixou emergir fantasmas do passado, voltou a ser traída pelos nervos num dos momentos mais importantes da temporada. Com set e duplo break de vantagem (4-1), além de 30-0 no seu serviço, parecia ter o apuramento para as meias-finais perfeitamente controlado. Não teve.

O vento fez acto de presença, a confiança desapareceu e o jogo fugiu-lhe completamente das mãos. Sabalenka perdeu esse set por 7-5 e acabou por sofrer um devastador 6-0 na terceira partida diante de Diana Shnaider.

Uma quebra emocional difícil de compreender numa jogadora do seu estatuto e experiência, que admitiu querer deixar o ténis na conferência de imprensa após o final do seu encontro dos quartos-de-final, devendo sempre contextualizar que essa declaração está carregadíssima de uma enorme frustração e incredulidade perante um cenário no qual já se viu (incompreensivelmente) por diversas vezes.

No final de tudo, porém, Roland Garros encontrou a sua grande vencedora. Mirra Andreeva chegou a Paris como uma promessa. Saiu de Paris como campeã de Grand Slam.

Mas esta edição será também recordada pela extraordinária aventura de Maja Chwalinska, uma qualifier que desafiou probabilidades, rankings e expectativas para chegar onde nenhuma outra tinha chegado.

Uma conquistou o troféu. A outra conquistou os corações dos adeptos. E ambas ajudaram a escrever uma das edições mais inesperadas e fascinantes da história recente de Roland Garros. Mirra Andreeva confirmou o génio, Maja Chwalinska desafiou a lógica.

Tiago Campos
Tiago Campos
O Tiago Campos tem um mestrado em Comunicação Estratégica mas sempre foi um grande apaixonado pelo jornalismo desportivo, estando a perseguir agora esse sonho. Fã acérrimo do "Joga Bonito".

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