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O court de ténis é, provavelmente, um dos locais mais solitários do mundo. Porém, não se limita a ser um espaço solitário; é-o, curiosamente, enquanto se está na companhia de outra pessoa num recinto com pouco mais de 260m2. Num grande palco, como o de Wimbledon, aos atletas soma-se o público; com quase 16 mil pessoas nas bancadas nada muda para quem está no court: a solidão é a mesma, as dúvidas, o autoquestionamento constante, a insegurança, a angústia face aos consecutivos erros não forçados, o pânico face à sensação de se ser incapaz de dar a volta aos acontecimentos, o trémulo nas pernas aquando do segundo serviço para se evitar um set point potencialmente decisivo.
Num court de ténis “não há rede”, o jogador confronta-se solitariamente com cada winner, com cada erro não forçado, com cada ás, com cada dupla falta, com cada bola que bate na tela e cai do seu lado do court, com a sensação de exaustão física, com as dificuldades para manter a concentração, com a espiral de descrença nas suas capacidades quando os erros se sucedem. Mas há um tenista para quem estes diferentes momentos parecem não existir; esse tenista dá pelo nome de Roger Federer.

Fonte: Facebook Oficial Roger Federer
O suíço é um fora de série, é alguém que se enquadra num restrito grupo de grandes campeões como Michael Jordan, Michael Phelps, Usain Bolt ou Muhammad Ali. O que diferencia Roger Federer de todos os demais é que enquanto estes usam uma raquete, o Maestro tem-na enquanto extensão natural do seu corpo. Federer joga como respira, desliza no court ao invés de correr, substitui pancadas em slice, amorties e volleys por fouettés, grand jetés e pliés. O ténis do suíço é um bailado no qual não há lugar ao esforço ou ao cansaço. Pés, tronco, raquete e bola assemelham-se a uma peça única, a um fenómeno natural caraterizado por uma peRFeição aparentemente incontrolável. A cada deslocação no court, a cada pancada na bola, a cada ponto ganho fica a sensação de se estar a assistir a um momento ímpar, a estória na história do ténis. Fica a ideia de que quem criou o ténis fe-lo na esperança de que, um dia, surgisse alguém como Federer para ensinar como este deve ser jogado.
Quando Federer enfrenta outros tenistas, comuns mortais, a sensação que fica é a de que o encontro é injusto, porque nunca um ser humano deveria ser colocado em posição de tentar derrotar um extraterrestre. Não é natural, não é humano, não é possível. Quando o suíço está bem fisicamente, tenistas como Djokovic, Murray ou Wawrinka parecem vulgares, tal é a facilidade com que FedEx devolve pancadas que parecem destinadas a terminar em winner, coloca-se numa posição de domínio do ponto, e acaba por vence-lo.

Fonte: ATP Melbourne
Sempre que Federer lança a bola para servir, a sensação é a de paragem do tempo, semelhante à que se sente quando Ronaldo se eleva entre os centrais ou quando Michael Jordan se suspendia no ar em direção ao cesto. O pânico estampado na cara dos adversários assemelha-se àquele que os guarda-redes não conseguem esconder quando Messi avança, isolado, em direção à baliza. O que irá sair dali? Serviço chapado? Em slice? Ao corpo? Para o “T”? Bola no ar, movimento imaculadamente coordenado, braço bem levantado, contacto com a raquete…ás. A cara de pânico do adversário transforma-se em expressão de impotência, em misto de reconhecimento da superioridade do suíço com incredulidade pelo facto de ter que defrontar alguém tão esmagadoramente superior.
Dentro e fora dos courts, Roger Federer é um exemplo para várias gerações. Muito mais do que um tenista, o Maestro trata-se de um desportista de eleição, alguém capaz de criar e recriar a arte da modalidade que pratica, alguém cujos gestos fora do court fazem perceber que há vida para além da atividade profissional e que é também (ou sobretudo?) na família e no altruísmo que se constrói o caminho para a felicidade. O mundo há-se sentir a falta de Federer, do seu ténis e do seu exemplo enquanto ser humano. Enquanto isso, o suíço conquista mais um título, ergue os braços e sorri, abraça Mirka Federer, olha para os seus quatro filhos e chora. É assim no ténis, como na vida, e é essa a capacidade maior de Roger Federer: ser um Deus da sua modalidade e, na sua condição de divindade, permitir que nos sintamos mais próximos daquilo que é terreno. Obrigado, campeão!
Foto de Capa: ATP Wimbledon












