A hora de Andreas Schjelderup | Benfica

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Ainda não chegamos ao solstício de primavera, mas a hora já mudou: é hora de Schjelderup. Face à ironia, porque jovens como o extremo nórdico precisam de tempo. Tempo de jogo, tempo de treino e tempo para errar, crescer, aprender e mostrar o talento que os clubes julgam que o jogador dispõe (ou não). Há sempre quem diga que não há tempo a perder, mas o tempo é o maior arquiteto da realidade e também se dá tempo ao tempo.

Nos últimos tempos, Andreas Schjelderup tem subido de rendimento, mesmo que isso nem sempre seja notório com golos e assistências. Ainda assim, foi recompensado por um jogo de grande qualidade frente ao Real Madrid com um bis e já chegou a marcar para o campeonato depois desse mesmo jogo. Friso esta relação com a baliza porque, muitas vezes, Schjelderup é acusado de “não ter golo”- volta a ironia, porque o melhor jogo de Schjelderup com a camisola do Benfica foi no passado sábado, frente ao AFS, onde nem marcou, nem assistiu.

Antes de mais, ressalvo que qualquer jogo contra o AFS não é um barómetro ideal para a avaliação de um jogador. Os oito pontos em 23 jogos que o AFS soma traduz a realidade desta equipa e, depois de conseguir milagrosamente a manutenção na temporada passada, vamos mesmo descobrir quantas vidas tem a equipa da Vila das Aves.

Andreas Schjelderup Enzo Barrenechea Benfica
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Não obstante, Schjelderup mostrou as suas melhores qualidades neste encontro. Não acho que seja um jogador com capacidades físicas extraordinárias e não tem uma mentalidade competitiva afiada o suficiente para chegar ao pico da montanha do futebol, mas pode acrescentar do ponto de vista técnico e no prisma da leitura de jogo: é um jogador que raramente perde a bola em zonas baixas e não solta a bola apenas porque sim, mas procura passar a bola com uma ideia por trás do passe, o que é uma característica difícil de encontrar no plantel encarnado.

O Benfica tem demasiados jogadores que precisam de um coletivo funcional e coeso para mostrarem o seu melhor rendimento, e o norueguês é definitivamente um deles. Defendo que este foi o melhor jogo de Schjelderup no Benfica mesmo porque este encontro teve rasgos desse mesmo coletivo, principalmente pela ala esquerda, o seu lado.

Andreas Schjelderup Benfica
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Especialmente na primeira parte, o extremo foi capaz de se intrometer em zonas interiores e ter sempre um ou mais colegas de equipa a potenciar movimentos de ataque à linha contrária: José Neto subia tanto pelo flanco como por zonas interiores, Rafa atacava a profundidade e Pavlidis descaía para a ala esquerda e tentava combinar com Schjelderup.

É um jogador que precisa destes movimentos e destas opções de passe, para que então possa decidir da melhor forma e criar oportunidades de golo. Não é autossuficiente, como Lukebakio, a exemplo, que é capaz de tirar facilmente um adversário da frente e bater na baliza, mas é um jogador de tabela, de último passe e que acrescenta critério e melhor definição no último terço.

Nesta ótica, Schjelderup sai de um jogo onde foi positivo em posse de bola, não apressou a equipa com bola, mas liderou-a com a calma necessária para furar um bloco baixo. Acrescentando a isso, conseguiu quase sempre encontrar os companheiros que faziam movimentos inteligentes de ruptura.

Andreas Schjelderup Benfica
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Ainda sobre a tal relação com a baliza, as estatísticas não o mostram, mas o marcador abre depois de uma jogada onde Pavlidis cai para a esquerda e combina com Schjelderup, acabando por Bah marcar no seguimento dessa mesma jogada. O terceiro golo sai de um lance onde Schjelderup bate o seu opositor direto e força o guarda redes a uma grande defesa, acabando Rafa por marcar um golo consequente de um excelente gesto técnico na insistência desse lance. Além disso, junta dois passes para finalização de Pavlidis e dois cruzamentos que isolaram Richard Ríos na cara do guarda redes: estão aqui quatro assistências que não o foram.

Creio que a avaliação real do Schjelderup flutua num limbo. Não é tão bom quanto as redes sociais acham que é, mas também não é tão mau como o terceiro anel pensa que é. É um jogador que precisa de treinador e de colegas de equipa que falem a mesma linguagem futebolística… ah, e de tempo.

Rui Gonçalves
Rui Gonçalves
Licenciado em Sociologia, o Rui Gonçalves aborda o futebol dentro e fora das quatro linhas. Através de um olhar crítico, escreve sobre tática, gestão desportiva e os seus impactos individuais e sociais.

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