A luz de Vieira e a valorização do Seixal

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De contradições e delírios se fez sempre a gestão de Luís Filipe Vieira ao comando do Benfica, valendo nos momentos-chave o discernimento de quem o rodeia. Apesar da melhora substancial ao nível dos campeonatos ganhos e da retoma da disputa com o FC Porto pelo domínio do futebol português, realidade perdida desde o príncipio dos 90, as janelas para transferência na Luz perfilam-se como verdadeiras Twilight Zone, com muitas das decisões tomadas sem qualquer lógica aparente e a política de recrutamento completamente aleatória, acabando geralmente de forma macabra para os masoquistas adeptos encarnados.

A 22 de Maio, Vieira era peremptório na sua ambição europeia: «A conquista deste título foi também a vitória de um projeto, de uma visão e de um rumo que há uns anos defini como prioritário e como única forma de o Benfica, no futuro, poder competir com as principais equipas das cinco mais fortes ligas europeias. Estão assim criadas as bases para, com a estabilidade e visão do projeto desportivo, solidez financeira, riqueza de recursos e competências técnicas, dar um novo salto qualitativo e ganhar outra ambição em termos europeus…» Abrindo leque á demagogia, abre também novos horizontes ao sonhador Terceiro Anel, pouco se importando agir em conformidade com as suas palavras.

Para o justificar, zero. Um valente e bonito zero, a uma semana de começarem os trabalhos de pré-temporada encarnada. Garantido está, há muito, Jhonder Cádiz, ponta-de-lança que pouco mais que cumpriu ao serviço do Vitória sadino. Quanto á novela Félix, ainda longe de estar resolvida, abriu vagas na frente para soluções realmente sérias: Raúl De Tomás é nome que agrada á exigente massa adepta, ainda que a ilusão Ángel Correa na Luz seria a mais animadora notícia, só possível numa inclusão do argentino na transferência do jovem português para o Wanda Metropolitano e contornando assim o suposto pagamento da cláusula a pronto, truque de magia que faria Luís de Matos corar de vergonha.

Domingos Soares de Oliveira, administrador da SAD, tenta explicar da melhor forma as intenções dos dirigentes: «Se algum dos titulares sair, o objetivo é que alguém bata a cláusula de rescisão. Com sinceridade, não queremos que isso aconteça, queremos manter a equipa. Se aparecer um clube que bata os 100 milhões por João Félix a intenção é não vender (…) O nosso objetivo à data de hoje é ganhar no relvado, tudo o que tivermos de fazer para manter os jogadores que nos dão melhores condições para o conseguirmos, vamos fazer. Se a cláusula é 120 milhões, se não aparecer ninguém com esse valor, seja 100, 90 ou 80, o jogador fica». Tornar-se-ia na maior transferência de sempre do futebol português e na 5ª maior de sempre. Visões e desejos ambiciosos.

No próximo ano os encarnados querem voltar a festejar, apesar de já não contarem com a ajuda do amigo Félix
Fonte: SL Benfica

Numa tentativa de tudo meter em perspectiva, é-nos necessário recuar exactamente um ano: o Benfica iria começar a quarta temporada com Rui Vitória ao leme e o projecto de “Reconquista” ganhava novos intervenientes. Ferreyra, Castillo chegavam para dar concorrência ao debilitado Jonas, relegando o suiço Seferóvic para segundo (ou quarto…) plano. Gabriel, Alfa Semedo e Chiquinho aterravam na Luz para completar o miolo na ausência prolongada de Krovinovic e para a defesa foram requisitados os dois centrais do ano na Liga Argentina, Conti e Lema. Ebuehi, jovem nigeriano lesiona-se assim que chega a Lisboa, obrigando os responsáveis a chamar Corchia para colmatar a lateral direita, com bilhete de ida e volta para Sevilha no final do ano.

25 milhões de euros e nove meses passados, apenas o médio brasileiro resgatado ao Leganés é titular, enquanto que Ferreyra, Castillo, Lema, Alfa Semedo e Chiquinho já não fazem sequer parte do plantel. Depois da rábula do despedimento de Rui Vitória e das luzes inspiradoras, toda a estratégia é novamente repensada: dispensa das contratações de Verão e a aposta (agora sim) completa nos jovens do Seixal, subindo com Lage à primeira equipa os imberbes Zlobin, Ferro, Florentino e Jota. A 14 de Janeiro, era notória a mudança de estratégia encarnada, na voz do seu presidente: «O que está para trás é passado, mas quero dizer que estamos muito gratos a Rui Vitória pelo trabalho que desenvolveu no Benfica», assegurando que «o Benfica nunca contactou com nenhum empresário ou treinador. A primeira opção é o Bruno Lage», contradizendo-se no espaço de semanas depois do namoro a José Mourinho em plena televisão, chegando a perguntar “quem não gostaria de ter Mourinho? Se amanhã ele disser que sim, virá logo em seguida” até porque, na Luz, “… dinheiro não é problema”. Sintomático.

Este Verão, e com o pressuposto de uma linha de continuidade do final da temporada passada, a equipa respira confiança sob o comando de Bruno Lage. A aposta na cantera encarnada valeu o título de campeão e a ideia é continuar: Pedro Álvaro, Tiago Dantas, Nuno e David Tavares estão confirmados nos trabalhos de Verão, com grandes hipóteses de se manterem a trabalhar na equipa A durante toda a época. Esta aposta nos jovens distancia-se da outra face no planeamento desportivo do Benfica, um clube cheio de vícios superflúos no que toca ao mercado de há 15 anos a esta parte.

O jogador-comissão, elemento apreciado nos corredores da Luz, também marca presença este ano: até o mais optimista dos adeptos tem dificuldade em ver um bom futuro nas supostas contratações de Rashid, Schettine, Pedro Neto e Jordão. Estes dois últimos, agenciados por … Jorge Mendes, custariam 20 milhões de euros aos cofres encarnados, o que se traduziria num verdadeiro caso de polícia.

Faltando brilho nesta postura do Benfica no mercado, o rejuvenescimento do plantel é uma realidade assegurada e motivo de contentamento para todos os adeptos, existindo a esperança de que Rui Costa tome conta desta pasta, função que voltaria a fazer dele alguém útil dentro da estrutura e que corrigiria o ofuscar da sua presença nos últimos anos.

Foto de Capa: SL Benfica

Pedro Cantoneiro
Pedro Cantoneirohttp://www.bolanarede.pt
Adepto da discussão futebolística pós-refeição e da cultura de esplanada, de opinião que o futebol é a arte suprema.

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