A 29 de setembro de 2020, o futebol português presenciava uma autêntica passagem de testemunho na Luz, com a saída de Rúben Dias e a chegada imediata de Nicolás Otamendi.
O defesa central argentino aterrou proveniente do Manchester City, a troco de 15 milhões de euros, e não perdeu tempo com discursos redondos, prometendo defender a camisola do Benfica «até à morte».
Seis anos depois, o balanço final impõe-se de forma muito clara e inequívoca, a promessa foi efetivamente cumprida com muito suor, mas a sua partida peca por ser bastante tardia.


O trajeto de Nicolás Otamendi no Benfica não começou de forma pacífica, com um penálti cometido por excesso de dureza logo na estreia frente ao Farense, mas Jorge Jesus identificou rapidamente a raiz do defesa. Aproveitando a grave lesão de André Almeida, o técnico tomou uma decisão polémica ao entregar-lhe a braçadeira de capitão num duelo europeu frente ao Lech Poznan.
Passou à frente de figuras com muitos anos de casa, como Alejandro Grimaldo, justificando o estatuto com a sua vasta experiência, fluência no idioma e capacidade de assumir a liderança imediata no balneário.
A partir desse momento, a sua disponibilidade física tornou-se inquestionável, construindo um legado estatístico assombroso de águia ao peito. O Benfica disputou 331 jogos e Nicolás Otamendi marcou presença em 281, o que se traduz numa taxa de utilização de 85% e num total superior a 25 mil minutos em campo.


No panorama nacional, apenas Ricardo Horta regista um volume de jogo superior nestas seis épocas, deixando o argentino uma marca de 18 golos, 14 assistências e quatro troféus conquistados, incluindo o título da Primeira Liga erguido sob o comando de Roger Schmidt.
Contudo, a análise puramente desportiva exige frieza e a verdade é que o peso da idade se tornou um fardo demasiado pesado para a exigência da Primeira Liga. Assistimos ao acumular de erros infantis nas últimas épocas, e nesta temporada de 2025/2026, o declínio físico e a falta de velocidade expuseram gravemente o setor defensivo encarnado. O defesa apresentou vários furos abaixo do necessário, penalizando a equipa em momentos cruciais onde a sua lentidão e precipitação custaram pontos valiosos.
Este desfecho espelha a incapacidade crónica do clube em fechar ciclos no momento exato, esticando a corda da titularidade até ao limite do razoável.


Nicolás Otamendi despede-se após uma vitória na Amoreira e deixa uma mensagem sentida onde garante ter compreendido o verdadeiro significado de lutar e levantar na Luz.
Sai com o estatuto de quem deu tudo o que tinha, mas a sua saída é desportivamente a melhor decisão para o Benfica limpar o horizonte e procurar, com urgência, um novo patrão para a defesa.

