Benfica: Sobreviver enquanto candidato ao título

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Benfica

A tarefa do Benfica de José Mourinho não se adivinhava fácil perante um FC Porto em grande forma neste início de temporada. Os azuis e brancos, liderados por Francesco Farioli, mostraram desde cedo ser uma equipa entusiasmante, e era preciso um jogo de concentração máxima para o Benfica não sair do Estádio do Dragão a sete pontos da liderança.

Nos últimos anos da sua carreira profissional, José Mourinho tem mostrado um lado mais pragmático nas suas equipas, sem a necessidade de se impor completamente aos adversários. Ciente do contexto atual do Benfica, o técnico voltou a demonstrar o porquê de ser tão eficaz na objetividade. Com a larga experiência que possui no futebol europeu, José Mourinho não inventa: avalia contextos e realidades, por mais complexas que sejam, e age consoante as necessidades da equipa, sejam elas táticas, técnicas ou psicológicas.

Na antevisão ao encontro, o técnico das águias já deixava transparecer ao que vinha, admitindo mesmo que um empate poderia ser um resultado aceitável, após uma questão sobre as declarações de Rui Costa (o presidente do Benfica tinha afirmado que a equipa não iria perder diante do FC Porto).

José Mourinho
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

No plano tático, as águias começaram por utilizar Pavlidis e Sudakov para fechar a zona central, conseguindo controlar as ações de Jan Bednarek, Jakub Kiwior e Alan Varela. O médio argentino tem sido um dos grandes focos de atenção dos adversários. Sabendo da sua importância no processo de construção portista, equipas como o Gil Vicente, Salzburg, Nacional e Sporting já procuraram anular as suas movimentações nos jogos desta temporada.

Para além dessa nuance tática, tal como já acontecera em Londres, com Richard Rios a perseguir e a condicionar Enzo Fernández, Mourinho aplicou uma estratégia semelhante, desta vez envolvendo Victor Froholdt e Gabri Veiga. A irreverência dos médios interiores do FC Porto é uma das grandes armas do processo ofensivo dos dragões, pois tanto lateralizam (mais Froholdt), como se colocam entre linhas (mais Veiga), como pedem bola no espaço para as diagonais. Sabendo disso, as funções defensivas de Richard Rios e Enzo Barrenechea passaram muito por controlar esses movimentos e limitar a ‘criatividade’ dos dois jogadores portistas.

Com essa abordagem, o processo defensivo do Benfica manteve-se estável durante todo o encontro, embora tenha naturalmente sacrificado parte das ideias ofensivas da equipa, algo que, ao que parece, não incomodou José Mourinho. Mais do que ganhar, era importante não perder. E o técnico português cumpriu o plano. O pragmatismo, que o próprio destacou em conferência de imprensa após o jogo, foi fielmente executado pelos jogadores. O treinador das águias fez ainda questão de elogiar Richard Ríos e Enzo Barrenechea, em resposta ao Bola na Rede.

FC Porto x Benfica
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Importa referir que José Mourinho e a sua equipa técnica chegaram inesperadamente ao Benfica, depois de dois desaires dos encarnados na era de Bruno Lage frente ao Santa Clara e ao Qarabag (até então, o Benfica tinha sofrido apenas um golo). Já com a temporada em andamento e perante a exigência competitiva do futebol moderno, será difícil para o treinador setubalense implementar dinâmicas com tempo e treinos regulares num plantel que nem foi escolhido por si.

É um plantel que, muitas vezes, custa perceber, tendo em conta o dinheiro investido e a produtividade apresentada. O Benfica tem um onze de enorme qualidade individual, mas parece faltar sempre algo quando se olha para o banco. Com os milhões que Rui Costa tem gasto em contratações, esperava-se mais soluções, sobretudo no meio-campo. Resta perceber como Mourinho e o próximo presidente do Benfica se vão movimentar no mercado de inverno e a reconstrução que será feita no clube (caso Rui Costa perca as eleições).

Jogadores Benfica
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

A próxima paragem de seleções também não ajudará, já que muitos jogadores internacionais representarão as suas seleções. Como o próprio treinador já referiu, será através da componente teórica e da análise em vídeo que o Benfica procurará ganhar rotinas, perante a falta de tempo útil de treino no relvado.

Veremos como os encarnados se comportarão nas próximas semanas, mas, no primeiro teste de exigência máxima, José Mourinho e o Benfica saíram com um Satisfaz, uma nota que dá esperança para as contas do título e uma miragem para o Excelente, a conquista do campeonato nacional. No fundo, José Mourinho fez o essencial: sobreviveu enquanto candidato ao título.

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: A estratégia do Benfica passou muito por anular o Alan Varela, e tanto o Richard Ríos como o Enzo Barrenechea acompanharam de perto as movimentações do Gabri Veiga e do Fróholdt. Com esse acompanhamento, foi surgindo algum espaço na zona central em certos momentos para o Porto atacar. Acha que uma melhor ligação e associativismo entre Samu e os médios poderia ter ajudado o Porto a criar mais situações de perigo, sobretudo na primeira parte?

Francesco Farioli: Sim, acho que em certos momentos conseguimos conectar, mas é verdade que nos faltou alguma progressão atrás da linha. Acho que o jogo foi muito bem jogado pelas duas equipas, já dei os meus parabéns pela forma como abordaram o jogo, o esforço que dois grandes jogadores como Vangelis Pavlidis e Sudakov fizeram para fechar as linhas de passe. Acho que foi incrível o trabalho do treinador e a forma como os jogadores o aplicaram em campo. Ainda assim, fizemos o suficiente para ganhar o jogo, porque as melhores oportunidades foram nossas. Talvez não tantas como estamos habituados, mas é assim.

Bola na Rede: O Benfica tratou de marcar o Alan Varela de forma cerrada, no primeiro momento de construção por parte do FC Porto, o que levou a que os centrais dos dragões passassem a bater a bola para a frente de ataque. Sente que esta marcação foi fundamental para anular a zona central do adversário principalmente na primeira parte?

José Mourinho: Não era, era jogo para jogar zonalmente, podes defender zonalmente ou ao homem. Ao homem corres mais riscos, de faltas, de cartões, zonalmente conseguimos com dois [Pavlidis e Sudakov] matar três e posicionalmente controlámos o jogo. Conheço bem os dois centrais do FC Porto, um estava em Itália quando treinei em Itália [Kiwior], o outro em Inglaterra quando estava em Inglaterra [Bednarek] as coisas boas, as limitações. O Enzo e o Ríos fizeram um excelente jogo a controlar o Froholdt que hoje que não se viu por culpa nossa, a mesma coisa com o Gabri. Não criaram situações de perigo na área. Eles têm uma grande oportunidade com o Rodrigo, mas se tivesse eu na baliza em vez do Trubin durante os 90 minutos era a mesma coisa, que o Trubin não tocou na bola. A equipa jogou muito bem.

Rodrigo Lima
Rodrigo Limahttp://www.bolanarede.pt
Rodrigo é licenciado em Ciências da Comunicação e está a frequentar o mestrado em Gestão do Desporto. Trabalha na área do jornalismo desportivo, com particular interesse pela análise de futebol.

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