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Não está fácil, por esta altura do ano, passar por entre os pingos da chuva. Milagrosamente, o Benfica continua seco depois de percorrer praticamente metade do caminho, como um filho insolente que, ignorando os conselhos e cometendo erros antigos, sai de casa em dia de temporal sem casaco ou chapéu-de-chuva, regressando, mesmo assim, incólume e bem-disposto, contrariando o bom senso e a lógica. Ou seja, contra todas as expectativas – as dos benfiquistas e dos adversários –, é ainda possível, embora difícil ou até mesmo improvável, manter a crença de chegar ao destino, lá para Maio, no primeiro lugar e, dessa forma, conquistar o tricampeonato que nos foge desde 1977.

Olhando a classificação – e somando os erros cometidos na preparação desta época (já analisados exaustivamente) –, é na solidez e harmonia das nossas condições físicas e humanas que encontro as razões para explicar como nos mantemos à tona, incluídos, por esta altura, no lote de candidatos ao título, juntamente com o melhor Sporting da nossa (ou da minha) geração e o FC Porto mais caro da sua (e da nossa) história. Actualmente, um mau Benfica fica no pódio; um bom é campeão; e um assim-assim consegue manter-se a quatro pontos da liderança, faltando apenas um jogo para terminar a primeira volta. Compreendo, no entanto, que não seja possível a todos aperceberem-se desta clara evolução; devido à juventude ou, simplesmente, à falta de memória e conhecimentos.

Não me desagrada o nível de exigência que, gradual e silenciosamente, se foi instalando, passando a definir a forma de ser e de estar do benfiquista comum, agora habituado a bom futebol e, sobretudo, a ganhar jogos e títulos. Essa exigência, de resto, é bem patente em comentários que, diariamente, ouvimos e lemos (no próprio Bola na Rede), onde o autor, seja ele quem for, destaca a ideia de que o Benfica pode e deve fazer mais e que pode e deve ser melhor, bastando para isso, por exemplo, nunca esquecer o casaco e o guarda-chuva em dias nublados, evitando assim uma molha que, quase sempre, resulta numa tremenda constipação.

Rui Vitória divide opiniões – um bom assunto para debater durante a próxima festa no Marquês; Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica
Rui Vitória divide opiniões – um bom assunto para debater durante a próxima festa no Marquês;
Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica

Porém, é no discurso dos adversários que, mais facilmente, nos apercebemos da actual posição que o Benfica ocupa no panorama global. Da liderança, e mesmo com o FC Porto pelo meio, a experiente equipa de trabalho que Bruno de Carvalho reuniu e lidera – constituída por Jorge Jesus, Octávio Machado e Augusto Inácio – mantém o Benfica como alvo principal, por uma razão essencial: sabem qual o mais forte opositor nesta maratona. Outra razão, porém acessória, decorre de aspectos afectivos. À excepção do presidente anti-benfiquista, os restantes três personagens congregam aquele género de adepto e funcionário que o Sporting sempre soube criar, manter e preservar: que tanto pode trabalhar no Dragão como em Alvalade; que tanto pode comentar sobre o Dragão como sobre Alvalade; que tanto festeja no Dragão como em Alvalade (neste último ponto “festejar” trata-se, obviamente, de um exercício de retórica). É uma marca registada: herdada por décadas de insucessos e frustrações, capazes de agravar um complexo de inferioridade inato e doentio, transbordante perante a dimensão do Benfica.

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Chegados a este ponto, o que se deve pedir aos benfiquistas? Pese as lacunas, o Benfica continua na luta pela revalidação do título. Que importa, agora, discutir se Rui Vitória serve ou não para o cargo? Se Eliseu está com peso a mais? Se Mitroglou é, de facto, um goleador? Ou como foi possível contratar Taarabt? Ou se o contrato televisivo do vizinho, com início daqui a dois anos, é realmente melhor do que o nosso? Neste momento, importa, isso sim, perceber que os erros que podiam ter sido cometidos já foram, na verdade, cometidos (tal como nos explica a Lei de Murphy) e que nem a chegada de Grimaldo, para a lateral esquerda, ou as recuperações físicas de Nelson Semedo, Luisão e Salvio permitirão contornar esse facto. As causas, essas, terão obrigatoriamente de ser analisadas, mas não agora – este não é o momento para o fazer.

O orgulho, por vezes, limita a percepção daquilo que realmente importa. Podes não gostar do presidente, podes não gostar do treinador, podes não gostar deste ou daquele jogador, mas, a partir desta fase e até ao fim, mais do que querer ter razão – ou mesmo tê-la e ser legítimo afirmar “eu bem avisei!” –, importa contribuir, dentro das possibilidades de cada um, para que o Benfica vença este campeonato. Com a união e o apoio de todos – mesmo que engolindo alguns sapos. Eu quero estar no Marquês de Pombal, em Maio, e festejar com Luís Filipe Vieira, com os jogadores e, principalmente, com o treinador Rui Vitória.

O destino que levou Jorge Jesus para longe, onde se sente em casa, onde pode chafurdar à vontade contra colegas e contra o único grande clube que treinou (clube esse onde, para seu grande desgosto, como denotam as suas estratégicas conferências de imprensa, nunca mais entrará, nem sequer como aguadeiro), onde deu as mãos a quem sempre o ridicularizou e ofendeu, a quem exigiu a sua irradiação e prisão, e onde, no fundo e sem mais, pode ser ele próprio, ganhe o que ganhar… esse destino só pode ser bom e justo.