A necessidade cria oportunidades: da Luz à Premier via White Hart Lane

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Gedson Fernandes. Médio português com 21 anos acabados de fazer. Mais um produto da excelente formação do Seixal, mais um produto das escolinhas do Sport Lisboa e Benfica.

Gedson Fernandes é um daqueles nomes que ficará sempre ligado à geração de ouro da formação encarnada – com Ferro, Rúben Dias, João Félix, Gonçalo Guedes, Florentino, Tomás Tavares, João Carvalho, Renato Sanches, Jota e até Tiago Dantas.

Começou a destacar-se na equipa B na época 2016-17 com 17 anos. Foi titular dos Sub-19 na sua campanha até à final da UEFA Youth League – perdida contra o RB Salzburgo – e com 18 anos afirmou-se definitivamente na segunda liga portuguesa. No Verão de 2018 foi chamado à pré-época encarnada e sob o comando do Rui Vitória afirmou-se como titular da equipa principal. Destacou-se logo nas pré-eliminatórias de qualificação para a Champions League.

Gedson Fernandes trouxe ao futebol encarnado aquilo que este tinha perdido com a saída de Renato Sanches – capacidade de transporte de bola e aproximação do sector defensivo ao ofensivo. A sua capacidade física permitiu-lhe preencher o meio campo encarnado, a sua confiança deu-lhe capacidade de assumir a bola e o seu pé direito desde cedo que mostrou qualidade na meia-distância. Apesar do destaque e qualidades evidenciadas, o talento de Gedson parecia ficar aquém do exigido neste novo nível competitivo. Começou a mostrar lacunas técnicas e principalmente de visão e pensamento de jogo. São lacunas que não podem existir num médio ao qual se pede maior criatividade no terço ofensivo do terreno de jogo.

A verdade é que uma época que começou a grande nível tanto para o jogador como para a equipa rapidamente descambou em más exibições e resultados: no campeonato o FC Porto cada vez mais distante e na Europa sempre em baixo rendimento. Janeiro trouxe alterações na equipa técnica e consigo uma revolução táctica, uma revolução do futebol colectivo da equipa e uma revolução nas escolhas do treinador.

Um SL Benfica com um meio-campo a dois, uma equipa com o criativo João Félix a fazer a ligação entre o meio-campo e os jogadores de ataque e um colectivo de linhas mais próximas. Gedson Fernandes eclipsou-se desta equipa. Eclipsou-se na melhoria do futebol encarnado, na conquista do título e também no lançamento da corrente época.

É um jogador de qualidade que não mostra ter talento suficiente para jogar num grande e principalmente para jogar numa equipa que assuma o jogo e que domine a bola em futebol apoiado e de construção.

Na corrente época as suas oportunidades coincidiram com o momento de maior indefinição do futebol encarnado. Bruno Lage não conseguiu substituir João Félix no 11 e ficou com um buraco central e criativo no futebol da equipa. Tentou e falhou com Raúl de Tomás. Tentou e falhou com Jota. Tentou e falhou com Gedson Fernandes. O jovem português parecia estar em campo somente para jogar na pressão sem bola, claudicando sempre no momento de posse e/ou recuperação. Não era posição nem futebol para ele.

A sua capacidade física permitia-lhe preencher o meio campo encarnado
Fonte: Carlos Silva/ Bola na Rede

Com a afirmação de Taarabt e Chiquinho no 11 e também agora com a chegada de Julien Weigl, não havia mais espaço para Gedson Fernandes.

Será sempre um jogador útil, um jogador tacticamente interessante. Como suplente oferece diversas soluções ao treinador para mexer no jogo. E possivelmente foi esta utilidade que o levou para Londres. Um empréstimo de 18 meses por 4,5 milhões de euros e opção de compra de 50 milhões.

Contexto? Em meados de Novembro Mauricio Pochettino foi despedido do cargo de treinador do Tottenham Hotspur FC e para o seu lugar foi contratado José Mourinho. As coisas não estavam a funcionar no futebol dos Spurs e Mourinho, consciente das dificuldades que teria em conseguir fazer algo de importante já esta época, sabia que o caminho da actual temporada seria o de afinar o plantel, conhecer os jogadores e sobretudo evitar um descalabro que o deixasse – e ao clube – numa posição frágil para arrancar 2020/21.

Se há coisa pela qual José Mourinho é conhecido é pela sua capacidade de fechar um jogo. Não jogar e não deixar jogar. E com isso conseguir parar as melhores equipas e se superar pela margem mínima a equipas de menor qualidade. Este estancamento exige um reforço da presença no meio campo e uma maior polivalência dos seus jogadores no decorrer dos 90 minutos.

Com as lesões dos médios Moussa Sissoko e Tanguy Ndombélé tornou-se obrigatório o ataque ao mercado de inverno.

Porquê Gedson Fernandes? Pelo seu perfil. José Mourinho chega a Janeiro a precisar urgentemente de reforços no meio-campo, de jogadores polivalentes e jogadores capazes de colocar muitos quilómetros nas suas pernas ao longo de 90 minutos. Desde cedo se percebeu que o clube londrino não estaria disposto a grandes investimentos nesta janela do mercado e assim José Mourinho teria de conseguir reforços para posições crucias a baixo custo. Uma abordagem entre o “jogar pelo seguro” e o “desenrascar”.

Assim surge a transferência de Gedson Fernandes. Com maior ou menor qualidade é um jogador com o perfil procurado, vem para uma posição em estado de emergência, é uma transferência de baixo custo na Liga Inglesa e é um jogador já bem escrutinado pelo treinador português no último ano e meio de competição. Os 50M nunca serão accionados.

Expectativas? José Mourinho espera que o jogador lhe dê um pouco de oxigénio ao meio-campo até ter outras opções disponíveis. O Tottenham Hotspur FC espera poder perceber a qualidade e desenvolvimento do jogador no próximo ano e meio. O Sport Lisboa e Benfica fazer um pequeno encaixe com um jogador que já não contava e ainda espera que se valorize na sua experiência na Premier League – Wolves à espreita -, e o jogador espera esta época jogar mais do que tem jogado, vivenciar o espectáculo que é a Premier League e abrir portas para prosseguir a sua carreira depois de 2021.

É um negócio sem grande aparato. É uma oportunidade para todas as partes envolvidas conseguirem algo de positivo sem grandes margens de lucro ou loucura.

Entretanto, Gedson já se estreou. Foram 15 minutos no terreno do Watford FC num jogo que terminou sem golos. Deu frescura ao meio-campo dos Spurs, mas apareceu ainda sem muita confiança. Ainda uma peça fora da realidade. Mais treinos e mais minutos para ele próprio começar a pedir jogo e bola aos colegas. Tem a oportunidade de uma vida. Está fora do seu nível competitivo, mas pode viver o sonho e construir bases para uma carreira que já se desvanecia no Estádio da Luz.

Uma dica: sei que lhe vai ser exigido mais jogo sem bola, mais correrias e compensações; mas que não tenha receio de ter bola, pedir bola e jogar à bola. É assim que se mostrará e que mais desfrutará do jogo.

Foto de capa: Carlos Silva/Bola na Rede

Revisto por: Jorge Neves

Daniel Oliveira
Daniel Oliveirahttp://www.bolanarede.pt
Primeira palavra bola. Primeiro brinquedo bola. E assim sempre será. É a ver jogos que partilha os melhores momentos de amizade. É a ver jogos que faz as melhores viagens. É a ver jogos que esquece os maiores problemas. Foi na paixão pelo jogo que sempre ultrapassou os outros desgostos de amor. Agora a caminhar para velho pode partilhar em palavras aquilo que sempre guardou para si em pensamentos e pequenos desabafos.                                                                                                                                                 O Daniel não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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