paixaovermelha

Gosto de vencedores. Há qualquer coisa nos vencedores que, de facto, me fascina. Suponho que seja aquela sensação de grandeza, de triunfo e glória. Sim, sem dúvida que é isso.

Mas ganhar também faz mal. Há vencedores a quem o êxito deturpa a visão, baralha o intelecto e, pior, enche em demasia o ego, como um rio que transborda água.

Num nível de vencedores distinto, para o qual ainda não consegui encontrar classificação, há José Mourinho. O grande vencedor. O mítico. O único. O Special One.

O ‘Zé”, mais do que ninguém, gosta (um eufemismo, claro) de ganhar. Se o ego de Mourinho fosse um rio, o Nilo não seria suficiente para tanta água. Mas, pelo menos (e como justificativa), tem razões para isso. Foram tantas as vitórias que seria preciso um texto à parte para as enumerar.

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Depois, ainda longe desse nível de vencedores para o qual não encontro classificação, mas ainda assim já com todos os defeitos e virtudes (principalmente humanas), há Jorge Jesus.

Ora, o meu querido JJ, sendo um excelente treinador, não tem, infelizmente, uma elevada capacidade de articulação no seu discurso, e é, muitas vezes, alvo de chacota por dar vários pontapés na gramática. Certamente que se o leitor for afeto ao Benfica não verá nisto uma descomunal falha técnica que incapacite JJ de alcançar o sucesso.

Por falar novamente em sucesso, Jorge Jesus tem, um pouco à imagem de Mourinho, um “ego especial”. E tal como o treinador do Chelsea, Jorge Jesus não sente um grande apelo pelo partilhar da glória, exceto, claro está, com os seus jogadores.

A relação entre Jorge Jesus e José Mourinho já teve melhores dias Fonte: Reuters
A relação entre Jorge Jesus e José Mourinho já teve melhores dias
Fonte: Reuters

A história de sucesso do D’Artagnan aka Talisca conta-se em quatro atos. No primeiro, Mourinho elogia a qualidade de Talisca e afirma que o jogador brasileiro era seguido por vários clubes ingleses. No segundo ato, Jorge Jesus ridiculariza e põe em questão as afirmações de Mourinho (sobre o scouting dos clubes ingleses), reclamando para si todo o crédito da descoberta do ex-jogador do Bahia. No penúltimo ato, Mourinho ataca furtivamente Jorge Jesus, utilizando a ironia fácil, realçando as lacunas gramaticais do treinador do Benfica e, como se não bastasse, distinguindo a perfeição do seu português – ah, Zé, como te enganas, como te enganas! No último, e menos excitante ato, Jorge Jesus mete água na fervura (talvez pressionado pela direção do Benfica) e destaca a boa relação que sempre teve com o “treinador especial”.

Sobre Jorge Jesus, surpreende-me apenas (com mesmo muita estupefação) que pense que nenhum clube inglês tenha, no seu departamento de scouting, uma avaliação sobre o Talisca. Querer gabar-se de o ter contratado, de o ter lançado e de (quem sabe) fazer dele jogador é legítimo. Achar que nenhum clube inglês conhecia Talisca é estupidamente incrível.

Sobre Mourinho, desenfeitiça-me a facilidade com que desce de nível (aquele nível que eu não consigo classificar) e perde toda a classe. Como é óbvio, Mourinho mantém-se fiel a si mesmo: gosta tanto de ganhar como de fazer inimigos (e não, não falo de clubes). Por último, e não menos importante, sugiro que (re)vejam a última entrevista de José Mourinho à TVI, que, garanto-vos, não está isenta de erros gramaticais. Certamente não tão dramáticos como “bode respiratório” ou “assunto do forno interno”, mas que lá estão, estão.

Não se atira pedras assim, Zé, diria, certamente, Dumas.

Nunca irei descurar a importância da gramática, seja no futebol, na literatura ou na medicina, mas, aos dois, deixo um humilde conselho: limitem-se a vencer.