O Benfica somou mais três pontos na caminhada da Liga Portugal, mas o triunfo sobre o Alverca deixou no ar mais interrogações do que certezas. Num Estádio da Luz que esperava uma afirmação categórica, a equipa de José Mourinho voltou a evidenciar uma perigosa instabilidade: uma capacidade assinalável de gerar volume ofensivo, contrariada por uma preocupante permeabilidade defensiva e uma ineficácia finalizadora que ameaçou deitar tudo a perder. Valeu a irreverência do banco, personificada no jovem Anísio Cabral, para resgatar uma vitória que o coletivo tardava em segurar.
É imperativo analisar a gritante crise de eficácia que afeta o caudal ofensivo do Benfica, onde a dependência excessiva de golos de Vangelis Pavlidis tem limitado a capacidade de fecho dos jogos. Embora a equipa de José Mourinho consiga produzir um volume de ocasiões assinalável, jogadores como Gianluca Prestianni, Georgiy Sudakov e Andreas Schjelderup têm demonstrado uma preocupante falta de «instinto assassino».
Apesar do talento técnico inegável e da capacidade de desequilíbrio no drible, este trio de criativos padece de uma lacuna comum na presente temporada: a ausência de agressividade no ataque à área. Existe uma tendência para que estes jogadores recebam a bola no pé, em zonas de construção, em vez de atacarem o espaço entre o lateral e o central adversário. Schjelderup, apesar de alguns golos recentes que indiciam uma ligeira melhoria, ainda carece da continuidade necessária no ataque à pequena área. O regresso de Rafa Silva à titularidade surge como um antídoto tático a este problema, dada a sua leitura de jogo vertical e capacidade de procurar o espaço vazio para finalizar, oferecendo uma fome de golo que contagia a manobra ofensiva.


A grande novidade tática da noite residiu na primeira titularidade de Rafa Silva desde o seu mediático regresso à Luz. Mourinho abdicou de Sudakov para injetar uma dose de eletricidade no último terço. O objetivo era claro: explorar a profundidade e encurtar distâncias para Vangelis Pavlidis, transformando o ataque encarnado numa unidade mais vertical e agressiva.
Durante a segunda fase de construção, Rafa foi, de facto, o epicentro das dinâmicas ofensivas. Muito mais na primeira parte do que na segunda, o internacional português deambulou entre as linhas, servindo de elo de ligação tanto para os extremos como para o duplo pivô composto por Aursnes e Leandro Barreiro. Esta mobilidade permitiu ao Benfica fixar o bloco do Alverca em zonas baixas, criando sucessivas situações de superioridade numérica que, contudo, morriam invariavelmente no momento da definição.
Apesar do domínio, o Benfica voltou a exibir as «dores de crescimento» que José Mourinho deseja ultrapassar. Defensivamente, a equipa revelou lacunas na transição, permitindo ao Alverca saídas perigosas que expuseram a linha recuada em situações de igualdade numérica. No plano ofensivo, o desperdício tornou-se o principal adversário das águias; foram inúmeras as oportunidades claras que esbarraram na falta de pontaria ou nas mãos e até na cabeça de Matheus Mendes.


Não se pode deixar de falar da nova joia que vem encantando os Benfiquistas. A afirmação de Anísio Cabral no Benfica não é apenas um fenómeno de entusiasmo das bancadas, mas uma resposta tática concreta às necessidades do plantel de José Mourinho. Num contexto onde a equipa tem sentido dificuldades em traduzir o domínio territorial em golos, o jovem avançado de 17 anos oferece variantes que podem redefinir o ataque encarnado no decorrer da temporada.
Anísio Cabral representa a variável que pode desequilibrar contextos de bloqueio defensivo. Enquanto o Benfica de Mourinho tem revelado dificuldades em converter o seu volume de jogo em golos, pecando por um excesso de elaboração técnica, o jovem avançado introduz uma agressividade física e uma verticalidade que obrigam as defesas contrárias a recuar as suas linhas. Esta característica é fundamental para libertar o espaço entrelinhas onde jogadores como Prestianni, Schjelderup e Rafa são mais perigosos. Além disso, a sua morfologia permite que o Benfica explore o cruzamento direto e segundas bolas com maior eficácia, algo que Pavlidis, com um perfil mais associativo, não garante com a mesma potência. Anísio Cabral dá ao Benfica a verticalidade física e a letalidade na área que a equipa tem tido dificuldade em encontrar de forma consistente.


No que diz respeito à organização do Alverca, a equipa orientada por Custódio apresentou-se no Estádio da Luz com uma solidez defensiva assinalável, estruturada para penalizar as águias através de transições rápidas e verticais. O maior destaque residiu na composição do seu trio de centrais Naves, Sergi Gómez e Meupiyou, que se revelou determinante para neutralizar a estratégia de pressão alta desenhada por José Mourinho. Ao garantirem uma superioridade numérica constante na primeira fase de construção, os defesas ribatejanos conseguiram sair a jogar com critério, desequilibrando a primeira linha de oposição encarnada e forçando o Benfica a um desgaste físico infrutífero.
Esta inteligência posicional permitiu ao Alverca não só sustentar o ímpeto ofensivo das águias, mas também explorar com eficácia o espaço entrelinhas, transformando o que se previa ser um jogo de sentido único num jogo disputado. A coesão do setor recuado, aliada à capacidade de sair sob pressão, acabou por surpreender a estrutura de Mourinho, que sentiu dificuldades em ajustar as marcações perante a mobilidade e o rigor tático de uma equipa ribatejana que se recusou a ser meramente figurativa na partida. No cômputo geral, o Alverca personificou o mérito de quem sabe sofrer com organização, criando problemas estruturais a um Benfica que, apesar do caudal ofensivo, esbarrou frequentemente nesta muralha defensiva bem coordenada.

