Publicidade

Fim de Linha para Jesus: Reinvenção ou acomodação?

Pedro Cantoneiro · 6 min

Haverá Jorge Jesus no Natal do SL Benfica?
Foto: Carlos Silva/ Bola na Rede

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

A lição de Rúben Amorim a um mestre que sempre teve dificuldades em reconhecer foi a machadada final no reinado de Jorge Jesus no SL Benfica.

Pelas circunstâncias da vitória leonina, pela carga dramática que o resultado tomou e pela definita certeza de que a nova fornada portuguesa de treinadores reclama total emancipação da geração anterior (e daqui nasce curiosa e repetitiva ocorrência que insiste em marcar a última década), os treinadores mais dominadores do campeonato em fases sequenciais primaram pela juventude e pela falta de experiência tão reclamada pelos teóricos como primordial para se ter sucesso no “manhoso” campeonato português.

Errado, como comprovaram os números e os títulos de André Villas-Boas, Vítor Pereira, Bruno Lage ou Rúben Amorim. Todos eles quase estreantes nas lides de comandante duma equipa sénior de elite antes de varrerem os opositores.

Bruno Lage pegou nos encarnados com a época em andamento e tornou-se campeão no final da época
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

A melhor época de sempre protagonizada pelo FC Porto é obra dos dois primeiros, projecto que levou a duas invencibilidades totais em três anos; Lage pegou nos seus meninos do Seixal para terraplanar uma Liga Portuguesa e fazer 35 vitórias nos primeiros 37 jogos, até chegar a hecatombe emocional. Amorim, não satisfeito, repete a fórmula, “remasteriza-a” e faz do Sporting CP campeão 19 anos depois e qualificado milionário ao fim de 13. Nada mau, hein?

Jorge Jesus, por seu turno, teve que esperar por uma oportunidade do mesmo género até aos 55 anos. Herdando o Benfica quase por estrear em termos táticos (mas farto do trabalho «invisível» de Quique Flores) conseguiu operar choque competitivo que elevou as Águias e as colocou num patamar sonhado desde os anos 90.

O primeiro ano (2009/10) foi uma lua de mel impensável rapidamente estragada pela segunda temporada imersiva num banho de realidade que ainda hoje perdura no traumatizado subconsciente encarnado: 5-0, 1-2, 1-3 para a Taça, queda perante o SC Braga nas meias-finais da Liga Europa, depois duma Champions League catastrófica (imaginar que o único bom apontamento, o 4-3 contra o Olympique Lyonnais, não seriam três pontos caso o jogo durasse mais cinco minutos), e a certeza da falência dum sistema de 4-4-2 losango ao alto nível – ocorre então a primeira metamorfose tática de Jesus, que incorpora um imberbe Axel Witsel para emparelhar com Javi Garcia na intermediária.

2011-12 só começa a correr mal, sabemos, quando a dupla é desfeita num jogo vital em Guimarães: derrota por 1-0 e a derrocada consumou-se nas semanas seguintes, com a cabeçada de Maicon e a morte do campeonato em Alvalade.

A campanha competente na Champions League desse ano proporcionou a venda (tardia e desconchavada) dos dois centrocampistas, originando a urgência em adaptar Enzo Pérez e assumir Matic, já trabalhado na sombra, para encarar 2012-13.

Aquela que seria a mais divertida e adulta – não necessariamente paradoxal – equipa de Jorge Jesus surgia aqui, numa afinação das versões anteriores e a criação do sistema que levaria até ás conquistas sul-americanas com o Flamengo. O interior de equilíbrios Ramires fundia-se com o “8” gestor de ritmos que era Witsel, culminando num Enzo Pérez que também aí muda a sua carreira para melhor. O Benfica perde tudo na última semana, mas o campeoníssimo de 2013-14 nasce precisamente aqui, no último grande ajustamento ao seu 4-4-2.

Os defeitos comportamentais e vícios técnicos foram sempre ofuscados pelo balão de oxigénio que representava o futebol de correrias ofegantes e transições até à exaustão que enchia de orgulho a Luz, desde sempre babada por essas referências estilísticas no trato da bola e na forma de encarar o jogo.

2014-15 – apesar dum grande campeonato nacional (até com a mudança de Enzo por Pizzi em Janeiro) já não é o mesmo Benfica, muito por culpa duma gritante desapego da roda europeia e a fixação pelo abismo sempre que viajava para fora de Portugal.

A fase de grupos é passada entre o mediano e o medíocre, como na ida a Leverkusen e na surreal aposta em Cristante, que Roger Schmidt tanto agradeceu e que certamente não esperava vingança tantos anos depois. Jesus focou-se no estritamente necessário: o título de campeão nacional e nos três (Nico, Enzo e Salvio) que sabiam o sistema de trás para a frente e o interpretavam sem recorrer a apontamentos. Isto resultou no melhor campeonato em termos pontuais e na pior prestação europeia desses seis anos.

Jorge Jesus saiu na época 2015/16 para o rival Sporting CP e só voltaria aos encarnados em 2020/21
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Sentia-se o término dum ciclo. Não só pela constante delapidação duma equipa duas vezes finalista europeia, mas pela crescente e acertada necessidade de aposta no talento do Seixal. Pelo caminho (sorte deles, como se viu depois) ficavam Bernardo Silva ou João Cancelo, preteridos na construção desse último plantel por nomes como Bebé, Luís Filipe ou André Almeida.

Confirmadas seriam as desconfianças dos adeptos e de Luís Filipe (o Vieira), que soube atempadamente renovar o projecto benfiquista com a inclusão de Rui Vitória. Este último alavancaria as prestações internas (88 pontos em 2015-16, recorde nacional de pontos) e a as rotinas de Liga dos Campeões – conseguindo duas passagens seguidas ao Oitavos, algo que Jorge Jesus não conseguiu em oito anos de Benfica (só passou uma vez).

O histo-categó-trágico erro que representou o regresso de Jesus no verão de 2020 pesará tanto no currículo benfiquista como o da rejeição a José Mourinho. Não que Lage tenha conseguido ainda o mesmo impacto mediático ou desportivo, mas por toda a acumulação de circunstâncias histo-categó-trágicas que se originaram em catadupa e provocaram uma fractura quase geracional na massa adepta.

Como aceitar de bom grado a sabotagem dum projecto de futuro que dera um título milagroso a favor do regresso de alguém que tiveram relação acalorada com o rival e que, sobretudo, se previa anacrónico tacticamente em contexto europeu?

Os títulos no Rio [de Janeiro] que estimulavam o imaginário dos mais saudosistas serviam como base duma apoteótica fachada de recepção na Luz, ensombrada pela opinião dos mais cínicos que discerniam as futilidades inerentes. Nunca voltou consensual e o prazo de validade do seu 4-4-2 – ainda aquele engrenado em 2012-13 – expirou pouco depois.

Os adeptos do CR Flamengo ainda pedem o regresso do “Mister” ao Rio de Janeiro

A influência dum dos seus bombeiros táticos na primeira passagem de Benfica acentuou-se: Jesus cedeu à supremacia do 3-4-3 de Amorim e o Benfica conseguiu melhorar. Teve talvez o seu auge no 3-0 ao FC Barcelona – uma das únicas assinaláveis vitórias de Jorge Jesus contra equipas de igual ou superior valia (em confrontos contra FC Porto e na Liga dos Campeões ao comando dos encarnados, Jesus soma 20 vitórias em… 62 jogos), mas rapidamente se esgotou.

Jorge Jesus voltou descontextualizado e continua assombrado pelo passado que o persegue e pelo futuro que não se desenvolve nas suas próprias previsões de elite europeia. Estagnado, custa-se a reinventar a sua identidade e a adaptar-se aos novos tempos.

Num possível regresso ao Flamengo, vê a sua aura mística comprometida em parte pelo sucesso de Abel Ferreira. Assinar pelo Mengão será a desistência total de qualquer carreira numa grande liga europeia. A grande encruzilhada de Jorge Jesus implica o sucesso dos encarnados e quanto mais cedo decidir o seu futuro, mais celeremente poderá o Benfica reencontrar-se com o seu projecto interrompido. E, consequentemente, reconciliar-se com os seus adeptos.

Pedro Cantoneiro

Redação Bola na Rede · ver artigos