Florentino-Paquetá ou aquilo a que os ingleses chamam uma situação de win/win

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No mercado de inverno, o AC Milan acalentou pela primeira vez o interesse em Florentino Luís, médio-defensivo de 20 anos do SL Benfica. Na altura, os milaneses visavam um negócio cujos moldes não agradavam aos responsáveis encarnados: um empréstimo de ano e meio e uma cláusula de compra opcional a rondar os 40 milhões.

O negócio, como sabemos, não avançou. Entretanto, o futebol na sua vertente desportiva parou, mas, como era expectável, as novelas de transferências continuaram a ocupar jornais e jornalistas e afins. A sequela do “negócio Florentino” é uma dessas novelas.

Desta feita, os moldes são diferentes. Cientes do interesse das águias em Lucas Paquetá, os administradores do histórico emblema de Milão parecem mostrar-se dispostos a avançar para a aquisição em definitivo de Florentino oferecendo aos homólogos encarnados uma proposta que inclui o passe do médio-ofensivo brasileiro e uma verba monetária.

De acordo com a imprensa italiana, com eco na nacional, a administração benfiquista já terá uma posição bem definida: 15 milhões de euros a juntar ao passe de Paquetá e negócio feito. Será a posição mais acertada? Resposta curta: sim.

Há um ano atrás, a minha resposta seria, desprovida de hesitações, “não”. Há um ano atrás, via em Florentino o potencial para se afirmar na época agora prestes a reiniciar-se como titular indiscutível e adivinhava no jovem formado no Seixal a próxima grande transferência das águias.

Não correram de feição as tentativas de Florentino mostrar serviço. Nunca pareceu encaixar na equipa e não apresentou em campo a confiança e, consequentemente, a qualidade que lhe conhecíamos do ano anterior e dos anos de formação. Ainda assim, a qualidade do jovem luso-angolano é inegável. Como tal, a sua eventual saída tem que estar bem alicerçada.

É o caso. Aliás, será o caso, se se materializar a intenção milanesa. Num cenário em que a proposta de 15 milhões de euros mais o passe de Paquetá é apresentada ao SL Benfica e é aceite pelo clube da Luz, todas as partes envolvidas ficam a ganhar. O médio brasileiro de 22 anos terá, por certo, mais espaço nos encarnados do que nos rossoneri e o médio português terá, eventualmente, mais oportunidades em Itália do que em Lisboa.

Rui Costa: “Acompanhei o Paquetá no Brasil e conheço-o bem. Queria levá-lo para o Benfica, mas não o contratei. É um jogador demasiado caro para o futebol português” (Entrevista à “Gazzetta dello Sport”, março de 2019)

Os heptacampeões europeus adquirem um jovem futebolista que aparenta agradar bastante à estrutura italiana; em contrapartida, desembolsam 15 milhões de euros – sendo que dinheiro não se tem mostrado um problema para os lados rubro-negros de Milão – e veem partir um ativo pouco ativo, uma saída que os dirigentes do AC Milan, acredito, enfrentarão como uma solução e não como uma perda, uma vez que creio ser difícil o clube italiano recuperar os 35 milhões de euros investidos no brasileiro.

Chegamos, então, à perspetiva benfiquista do negócio. Ao contrário do que acontece na relação Milan-Paquetá, a saída de Florentino não será encarada como uma solução. Será sempre uma perda. No entanto, num mundo sem certezas, tudo é um jogo de probabilidades. Se elas estiverem a nosso favor, devemos arriscar. Ora, neste negócio, os encarnados têm algo a perder, mas têm mais a ganhar.

As águias ganhariam um jogador com pinta de craque e com maior maturidade competitiva do que (o atual) Florentino Luís. Lucas Paquetá soma duas épocas de grande nível ao serviço do CR Flamengo, clube onde fez a sua formação, e duas épocas de nível não tão elevado ao serviço dos rossoneri. A isto, junta 11 internacionalizações e dois golos pela canarinha.

Pisando terrenos mais ofensivos, poderá encaixar mais facilmente no onze, como médio-ofensivo num 4-2-3-1, como segundo avançado num 4-4-2 ou como médio interior num 4-3-3 com o miolo em 1+2, do que Florentino. Bruno Lage pretende que os seus médios ofereçam ao jogo, ofensivamente, características que Florentino, por natureza, não pode dar.

No que diz respeito ao passe (curto ou longo, desde que com o intuito de queimar linhas), o médio internacional jovem português apresenta demasiadas limitações para ser aposta recorrente num futuro próximo. Por seu turno, Paquetá, pela sua classe, tem tudo para agarrar desde início a titularidade, dadas as necessidades ofensivas reveladas pelo SL Benfica nos últimos jogos antes da paragem.

Com Paquetá, Pedrinho, Dantas e Gonçalo Ramos, as águias teriam quatro opções distintas entre si para cumprir a mesma missão: ser o mais importante apoio do ponta-de-lança. Desportivamente, o campeão português saía a ganhar a curto/médio prazo. E financeiramente?

A antevisão desse aspeto da questão é mais difícil. Todavia, acredito que também nesse parâmetro os encarnados ficariam a ganhar com este negócio. Além dos 15 milhões imediatos, importantes nesta fase pós-pandemia e que poderiam dar uma ajuda na urgente aquisição de um central, o SL Benfica ainda poderá perspetivar uma venda de Paquetá por uma verba elevada.

Dada a idade e a qualidade do “39” do AC Milan, não será descabido conjeturar uma venda após duas ou três épocas de águia ao peito por valores a rondar os 65/70 milhões de euros. Nesse cenário, e somando as verbas diretas e indiretas referentes à venda de Florentino, as águias encaixariam 80 a 85 milhões de euros.

Pese embora a cláusula de Florentino se cifre nos 120 milhões de euros, não me parece razoável que o “61” encarnado seja vendido por um valor superior a 80 milhões de euros. Como tal, o Sport Lisboa e Benfica sairia desportiva e financeiramente beneficiado deste negócio, cujo “único” ponto negativo seria a perda de um dos melhores produtos do Benfica Futebol Campus.

Contudo, ao contrário do que acontece em posições como a de ponta-de-lança, a posição de médio-defensivo está a ser bem trabalhada nos escalões de formação do clube lisboeta. Dessa forma, essa posição assemelha-se de momento àquele famoso e básico truque de magia em que o mágico retira de um bolso ou de uma das mangas um lenço e depois outro e depois outro e por aí adiante.

Retira-se Florentino e surge Rafael Brito. Retira-se Rafael Brito e surge Henrique Jocú. Existindo essa salvaguarda, o impacto da saída de Tino é minimizado. Com a entrada de Paquetá e a manutenção de Rafael Brito e de Henrique Jocú, o SL Benfica salvaguardaria o presente e o futuro do seu meio-campo (do qual farão também parte jovens como Dantas e Paulo Bernardo, naturalmente), apesar da perda de Tino.

E nada mais se pede a quem está ao leme do clube: salvaguardem o imediato e o futuro do Sport Lisboa e Benfica, ainda que algumas decisões sejam difíceis e ainda que se tenha que ver partir alguém que ingressou na família do Seixal com dez tenros anos de idade.

Márcio Francisco Paiva
Márcio Francisco Paivahttp://www.bolanarede.pt
O desporto bem praticado fascina-o, o jornalismo bem feito extasia-o. É apaixonado (ou doente, se quiserem, é quase igual – um apaixonado apenas comete mais loucuras) pelo SL Benfica e por tudo o que envolve o clube: modalidades, futebol de formação, futebol sénior. Por ser fascinado por desporto bem praticado, segue com especial atenção a NBA, a Premier League, os majors de Snooker, os Grand Slams de ténis, o campeonato espanhol de futsal e diversas competições europeias e mundiais de futebol e futsal. Quando está aborrecido, vê qualquer desporto. Quando está mesmo, mesmo aborrecido, pratica desporto. Sozinho. E perde.

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