Humberto Coelho | 70 anos de liderança

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A alcunha “Beckenbauer Português” atribuída a Humberto Coelho nasceu da fama adquirida às cavalitas da suas capacidades enquanto futebolista de eleição, justificadas em cada acção no terreno de jogo.

A capacidade física e o apurado jogo aéreo, que desenvolveu à custa das imitações a José Águas, ídolo de sempre, provocavam o protagonismo na área defensiva ou nas subidas ao ataque, numa demonstração de total entendimento das mecânicas do jogo e da desenvoltura necessária para se tornar um ícone.

A forma natural como impunha a sua autoridade perante os colegas valeram-lhe a braçadeira durante toda a carreira, dos juniores encarnados até às últimas instâncias de um percurso de charme internacional.

Até por isso, a 7 de Agosto de 1982, já trintão, juntou-se à nata europeia em Nova Iorque para defrontar a selecção do Resto do Mundo. Num Giants Stadium com lotação esgotada, juntou-se ao craque alemão que lhe dá alcunha, Pezzey, Dino Zoff e Platini, ganha 3-2 ao Resto do Mundo e é obrigado a levantar a taça para gaúdio da comunidade portuguesa que se engalanava nas bancadas, entusiasmada com a presença do ídolo de toda uma geração e que viu nele o porta-estandarte daquele genial conjunto de jogadores portugueses (Oliveira, Néné, Jordão, Artur Jorge, Toni, João Alves, Vítor Martins, Damas, Bento, Octávio Machado ou Artur Correia), que falharam, de forma infeliz, todos os objectivos continentais e que chegaram já, poucos e moribundos, ao Euro84.

As lides de treinador nunca encantaram um homem de visão alargada: teve fugazes aventuras no Salgueiros e em Braga, comandou a Geração de Ouro no Euro2000 e percorreu África e Ásia no contexto de selecções. O intelecto superior e a consciência política levaram-no sempre à vida de gabinetes, seja no PSD, seja na Federação. Foi um dos pioneiros das escolas de futebol em Portugal, numa inovação fruto da sua visão alargada sobre o futebol e a vida.

Nasceu em Cedofeita, numa família humilde. Os pais, vítimas de uma vida díficil, sempre foram adeptos fervorosos de uma educação completa para os filhos, caminho ideal para evitar as mesmas desventuras de pobreza. Assim, as tentativas de Humberto desfilar pelos pelados revelar-se-iam sempre infrutíferas.

Aos 13 anos, é aceite no Leixões SC, mas a sua mãe impede-o: a escola industrial, onde estudou até ao quinto ano, era a prioridade. Só a mudança da família para Ramalde libertou o petiz para a prática desportiva no clube local, já nos juvenis.

Chamou tanto a atenção que surgiu o FC Porto, mas o SL Benfica acelerou os contactos nessa iminência e despachou o acordo – 40 contos para o clube, 25 para ele. Tomava assim lugar na equipa de juniores da Luz e desde logo assumiu preponderância, agarrou a braçadeira e comandado pelo bicampeão europeu Ângelo Martins foi campeão nacional em 1967/68.

No final da temporada, Otto Glória leva-o ao Brasil com o plantel principal, participante num torneio juntamente com o Belém do Pará e o Santos de Pelé. A boa exibição de Humberto no primeiro jogo levou-o à titularidade no segundo, com a missão de marcar o melhor jogador brasileiro da história. Diz quem viu que a exibição desinibida no empate a três bolas lhe valeu um forte abraço do técnico benfiquista, como que confirmando a promessa de titularidade efectiva a partir daí.

Consta que se encaixou rapidamente junto dos grandes craques seniores, já que o onze base de 1968/69 se cifra pelo seguinte: José Henrique; Adolfo, Humberto, Zeca, Jacinto; Jaime Graça, Coluna; José Augusto, Eusébio, Torres e Simões.

A partir daí coleccionou títulos nacionais e assumiu-se como uma das grandes peças da equipa, ao mesmo tempo que assumia na Selecção igual importância. A prestação sublime na Minicopa de 1972, na qual Portugal chega à final, favoreceu-o de prestígio intercontinental, arrebantando elogios a toda imprensa estrangeira e elevando o seu nome a patamares que a Liga Portuguesa já não suportava.

Em 1975, a bomba explodiu na Luz: o PSG aterrou em Lisboa pronto a levá-lo. O dinheiro falou mais alto e o menino lá foi, ao som das lágrimas da mãe. Talvez isso tenha resultado num saudosismo demasiado intenso, já que ficou por lá dois anos e logo fez questão de voltar. A inconstância do clube francês, 14.º e nono classificado na Ligue 1, não se coadunava com toda a qualidade do central, entretanto transformado em médio centro.

Uma lesão grave no menisco e os desentendimentos com o treinador Vasovic precipitaram então a saída, transformada em leilão. Internacional de Porto Alegre e Palmeiras, ainda lembrados de ’72, disputaram o português, ofereceram dinheiros inacreditáveis à época – mas Humberto, em desejo ardente de retorno à pátria e ao coração encarnado, exigiu sempre mais do que lhe davam para que o Benfica tivesse vagar de o resgatar…

Voltou então, em 1977. Não sem antes dar uma perninha a Eusébio, Simões e Toni no Las Vegas Quicksilver, na MLS pré-histórica. Voltou, devolveram-lhe a braçadeira e assim continuou com as prestações acima da média e o rendimento galático, numa área ou outra. É ainda hoje o defesa mais concretizador do futebol português: 56 golos nas competições internas, mais quatro na Europa.

Já com Eriksson, esteve perto de garantir a glória continental que o Benfica dos anos 70 nunca lhe proporcionou, mas a derrota com o RSC Anderlecht impediu-o de sonhar em termos clubísticos. Em entrevista a A Bola, tentou explicar a inoperância encarnada nessa década, acabando também por relembrar muitas das eliminações na Europa: «A estrutura do futebol em Portugal ainda não era tão profissional. As maiores equipas europeias, Liverpool, Ajax, Bayern, já estavam num patamar superior na metodologia de treino e na nutrição, por exemplo. Tínhamos sempre grande dificuldade quando apanhávamos essas equipas.»

Mas ainda haveria Euro84, onde tentava chegar na esperança de mostrar à Europa a sua qualidade de Quinas ao peito: Portugal não se qualificava para competições oficiais desde 1966, era ele ainda junior. A frustração chegou com a lesão gravíssima antes de um Portugal-Finlândia, em 1983, na preparação para a epopeia dos Patrícios. As complicações resultantes da recuperação apressada e negligente, impossibilitaram a sua convocação e precipitaram o final da carreira, no final dessa temporada.

Foi sempre valorizado fora de portas, ainda assim. Jupp Derwall, técnico que comandou a República Federal da Alemanha à vitória no Euro80 e à final do Mundial de 82, confiou nele em duas ocasiões para representar a selecção europeia. Além do jogo em Nova Iorque, organizado pela UNICEF, alinhou um ano antes na selecção europeia que defrontou a congénera checa no aniversário da Federação Checoslovaca.

No SL Benfica, será sempre lembrado como um dos melhores centrais da sua história. Quando começou a aparecer entre as primeiras escolhas, deu descanso ao Terceiro Anel quanto à sucessão de Félix e Germano, os pilares históricos do eixo defensivo até aí.

Quando foi obrigado a retirar-se, a Luz teve que esperar até 1988, com Ricardo Gomes, e 2003 com Luisão, para ver parecenças no sentido de liderança e no estilo de jogo. Por estes dias, aponta Rúben Dias como o sucessor de uma longa linhagem de centrais autoritários e comandantes no rectângulo de jogo.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

Pedro Cantoneiro
Pedro Cantoneirohttp://www.bolanarede.pt
Adepto da discussão futebolística pós-refeição e da cultura de esplanada, de opinião que o futebol é a arte suprema.

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