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Não é de agora, é de sempre

Rafael Raimundo · 3 min

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Portugal tem, salvo algumas exceções, uma forte tendência para criticar tudo o que seja de origem lusitana e para idolatrar o que vem para lá da fronteira. Para o caso cujo assunto será o guião desta pequena, e coerente, sequência de palavras pode resumir-se mais ou menos assim: um é português e o outro é estrangeiro. Falo de Bruno Varela e do mais recente menino querido da Luz, Mile Svilar.

A questão, e para que não se confunda com outros parâmetros de análise à performance individual de cada jogador, não tem que ver com a qualidade de ambos os guarda-redes, nomeadamente aquilo que os distingue. Nesse aspeto reconheço mais qualidade a Svilar – mais seguro no ataque à bola, entre os postes, e até na atrevidura (sim, esta palavra existe, e consta no Priberam, famoso dicionário da Língua Portuguesa) com que sai da baliza para ajudar os companheiros nas bolas que são colocadas nas costas dos defesas centrais. O busílis da questão é o respetivo tratamento a que tiveram direito.

Bruno Varela foi lançado como opção de recurso para substituir o veterano Júlio César e assumiu sem receios a titularidade. Esteve em forma na Supertaça e nas primeiras jornadas do campeonato. Houve adeptos que chegaram até a pensar que ali poderia estar o substituto de Ederson, pelo menos enquanto não chegasse outro guarda-redes com qualidade para se afirmar como indiscutível dono da posição. Porém, e para grande mal do jovem guarda-redes português, Rui Vitória apenas esperava a oportunidade que justificasse uma ida de volta para o banco de suplentes. Essa oportunidade não demorou muito a chegar.

Varela foi visto como uma alternativa temporária, mas depressa voltou para o banco Fonte: SL Benfica
Varela foi visto como uma alternativa temporária, mas depressa voltou para o banco
Fonte: SL Benfica

À passagem da 6º jornada da Primeira Liga, no Estádio do Bessa, Varela errou na forma como atacou um remate de Fábio Espinho e acabou por comprometer o resultado da partida, o suficiente para lhe ser retirada a titularidade. Rodeado de críticos e de treinadores de bancada, acabou por não voltar a jogar com regularidade.

Contudo, e de forma absolutamente antagónica, existe um menino de 18 anos. Um menino com imensa qualidade e com uma margem de progressão bastante considerável. Mas um menino.

Mile Svilar, numa situação algo idêntica à de Bruno Varela, caiu de para-quedas na equipa – Júlio César já não é garantia de estabilidade e Bruno Varela é carta fora do baralho. Restava o jovem, que era visto como opção de futuro, mas não a curtíssimo-prazo. Logo na segunda partida que realizou, frente ao Manchester United, foi atraiçoado por um remate venenoso de Rashford e o Benfica acabou por perder esse jogo pela margem mínima. No entanto, e ao contrário do caso de Bruno Varela, não só permaneceu como titular, como conseguiu cair ainda mais na graça dos adeptos dos benfiquistas e originou um discurso convicto, e vinculadamente defensor, por parte do treinador Rui Vitória.

Contrariamente a Varela, Svilar foi perdoado e caiu nas graças dos adeptos Fonte: Mile Svilar
Contrariamente a Varela, Svilar foi perdoado e caiu nas graças dos adeptos
Fonte: Mile Svilar

Mais do que o apoio e as críticas que os adeptos fazem aos jogadores – tão depressa estão nas bocas do mundo pela qualidade que apresentam como pela falta dela – exige-se a gestão correta, a nível pessoal e desportivo, por parte dos treinadores. Antes de gerirem componentes técnico-táticas, gerem seres humanos com tudo o que isso acarreta – motivações, estados de espírito, pressões – e fico com a sensação de que Rui Vitória se desleixou nesta componente.

O tratamento não foi o certo, nem tão pouco se assemelha à postura que o treinador apresenta ao nível da relação com os seus jogadores, e se num plantel uns são meninos queridos por virem de fora e outros são simplesmente os outros porque com os nossos podemos tudo, o resultado só pode ser um. Bruno Varela quer sair do Benfica para jogar com a regularidade que com Rui Vitória dificilmente vai ter. Este caso não é único, e muito menos é só de agora.

Foto de Capa: SL Benfica

Rafael Raimundo

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