Não foi orgulho o que sentimos em Munique…

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Uma derrota do Benfica nunca pode ser motivo do nosso regozijo. No Benfica, a vitória moral, ainda tão cara hoje em dia graças a vários anos de erros e péssima gestão, tem de começar a ser expurgada de vez. Tem-no sido ao longo dos últimos quatro anos. Daí ter considerado a nossa campanha europeia do ano passado insultuosa para a nossa história. O nosso passado merece tanto noites como a de Vigo como uma derrota por um a zerinho, fechadinhos cá atrás, ante um adversário poderoso.

E por isso também o escrevi e afirmei de viva voz: ser eliminado pelo Zenit não seria escandaloso, mas também não seria de acordo com o Benfica de sempre. Um lendário 14 da Holanda said it best: um saco de dinheiro não marca golos. E a História também pesa. Mais que não seja na escolha dos elencos que sobem à relva, bem como a seriedade com que encaram a camisola, que tem de ser maior que qualquer novo-rico. Depois o resto, logo se vê… Mas com este Zenit, nunca!

Porém, há derrotas e derrotas. Perder por um em Munique não é o mesmo que perder por um em Moscovo, Leverkusen ou Istambul. Existem derrotas onde se perde de pé, com honra. Sem deslustrar toda uma história. E nem se fala só em números, mas também em coragem e classe. Que foi o que faltou, recentemente, a outros (mas também ao nosso Benfica num passado não tão recente…). E depois falamos no Bayern de Munique, que não tem apenas um conjunto de grandes jogadores, como outros, mas sim uma grande equipa. E é orientado por um dos maiores estrategas de sempre do futebol europeu, Josep Guardiola.

Um clube, um treinador e uma gigante e fervorosa massa de adeptos sequiosos de vencer a Champions League. E no meio deste turbilhão de classe, devoção e qualidade, o Sport Lisboa e Benfica (e cinco mil bravos). Com este cenário, a derrota por 1-0, onde também tivemos as nossas chances, parece bem diferente!

Jonas foi um dos melhores em campo no jogo de Munique Fonte SL Benfica
Jonas foi um dos melhores em campo no jogo de Munique
Fonte SL Benfica

Num “cemitério” onde já pereceram amargamente grandes equipas (e outras não tão grandes), perder de olhos nos olhos como ontem com o Bayern de Munique tem de ser encarado não como uma vitória moral, mas sim como um atestado de grandeza. Da nossa e do Bayern. Dois titãs da história europeia, não apenas um, como quiseram fazer passar. É que o Sport Lisboa e Benfica não se fez de derrotas, não. Nem tão pouco de vitórias morais. Fez-se sim de grandes noites europeias. De finais e meias-finais. A bater-se com gigantes. Com mais dinheiro, mais recursos, mais de tudo. Ou quase tudo… A alma pelo menos tinha de ser a nossa. Umas vezes ganhou, outras nem por isso.

Mas o que se exige a um clube assim como o nosso é apenas isso: a oportunidade de se bater com (outros) gigantes. E olhá-los de frente. E o que se festejou ontem foi isso, o reconhecimento de nos termos batido com gigantes.

E é a afirmação que do outro lado estava um clube grande demais para podermos exigir mais do que vimos. E o que vimos não foi pouco… Não se fez a festa moral, mas sim a de tributo a um grupo de atletas que souberam dignificar a nossa camisola. A nossa História. E festejou-se a sensação de que na próxima quarta-feira podemos estar prestes a viver uma epopeia. E até lá vai-se sentir esse calor. Da hipótese de mais uma noite à antiga. Eusébio, ante o Real Madrid em 1962, sabia que um jogador espanhol ganhava mais do que o plantel do SLB. Mas não interessava: ele queria ganhar. Que, pelas 19h30, mais coisa menos coisa, essas palavras do Rei ecoem no balneário… Poderemos exigir mais na segunda mão? Não sei… Mas podemos, sem dúvida, sonhar com mais. Podemos, justamente, querer mais do que tivemos ontem.

Consubstanciando este texto, li muita vez a palavra orgulho no durante e pós jogo. Permitam-me que vos corrija a todos: o que eu senti foi normalidade. A normalidade de mais de 100 anos de história feita de grandes embates. Na Europa, o que ganhou foi ante gigantes! E o que perdeu, contra gigantes foi! O que vimos foi meramente o Benfica a cumprir-se: um velho senhor europeu num duelo contra outro. O que vimos foi o concretizar daquela foto onde o capitão do AC Milan baixa a cabeça para Coluna. Foi isso que viram. Foi isso que sentiram… “Só”.

Foto de Capa: SL Benfica

John Aguiar
John Aguiarhttp://www.bolanarede.pt
Apaixonado pelo Benfica desde que se conhece, descobriu a paixão pelos encarnados ao ir pela mão do pai ver os jogos na sede social da terrinha. Desde cedo habituou-se a ler A Bola em formato gigante e coleccionava anualmente os Cadernos do dito jornal. Desde 1993 que não falha um…                                                                                                                                                 O John não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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