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Não rasguem a receita!

João Amaral Santos · 3 min

Foto: Facebook oficial do Sport Lisboa e Benfica.

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Nunca concordei – tal como não concordo – com todas as decisões tomadas pelas direcções presididas por Luís Filipe Vieira. Aliás, discordei – tal como discordo – de muitas dessas opções que, directa ou indirectamente, influenciaram o desenvolvimento desportivo da instituição, nas suas mais variadas vertentes. No entanto, a memória não me permite ser ingrato, nem ignorar aquilo que tem de ser considerado, sem quaisquer dúvidas, ao longo de década e meia, como um progresso significativo: o Benfica está, actualmente, (muito) mais perto daquilo que conheci em criança e que espero, um dia – o mais rapidamente possível – ver existir de novo.

Refiro-me, obviamente, em primeiro lugar, ao futebol do clube – um tricampeonato jamais poderá ser desvalorizado (nem que seja, somente, pelo hiato de 39 anos desde o anterior). Importa, todavia, olharmos numa perspectiva mais alargada. Neste momento, o Benfica é candidato ao título de campeão, lutando por ele na prática e até ao fim, em todas as modalidades de relevo praticadas em Portugal. Resumindo: o Benfica é finalista – campeão ou vice-campeão – no futsal, hóquei em patins, basquetebol, voleibol, atletismo e, também agora, após uma alteração de paradigma muito próxima com a do futebol, no andebol. É verdade que nem sempre é possível ganhar; porém, a saúde desportiva do Benfica, a uma escala verdadeiramente eclética, é exclusiva, notável, invejável e inigualável por qualquer outro clube no nosso país (e muito rara a nível europeu).

A busca pelo sucessor de Luísão terminou no Seixal Fonte: SL Benfica
A busca pelo sucessor de Luísão terminou no Seixal
Fonte: SL Benfica

Existem segredos para o sucesso. Em todas as modalidades acima enumeradas – onde incluímos o futebol –, o Benfica atravessou períodos difíceis, afastado do lote de favoritos e, em alguns casos, do de reais candidatos ao título. Com trabalho, humildade e paciência, beneficiando do peso da marca que carrega, do apoio incondicional e característico dos seus sócios e adeptos, cada secção e cada equipa foram crescendo gradualmente até atingir o topo no seu contexto competitivo – através de projectos autónomos, bem sustentados e apoiados pela direcção, eficientes e eficazes e, acima de tudo, com um forte pendor para a formação de crianças e jovens atletas. O actual panorama não é totalmente perfeito – seria caso vencêssemos, sem apelo nem agravo, em todas estas modalidades; no entanto, não caminhamos sozinhos e, para já, ainda com muito trabalho pela frente, podemos fazer um balanço positivo e extremamente satisfatório.

Para atingirmos este ponto foi necessário fortalecer os alicerces com segurança, numa cadência regular e constante, por vezes sabiamente discreta e surpreendente mas sempre com consistência e qualidade. Não foi necessário, por outro lado, abanar a estrutura de todo o edifício, despachar com ruído e aparato treinadores ou plantéis inteiros, em busca de soluções milagrosas que, à lei da força e dos berros, não podem nunca existir. Há trabalhos para os quais a sublevação ou a revolução não servem, resultando, apenas e só, na criação de um caos contraproducente, incapaz de granjear bons resultados para o presente e, sobretudo, para o futuro do clube e da própria modalidade. O ambiente de estabilidade vivido no Benfica permitiu realizar, a cada época, acertos cirúrgicos capazes de transformar todas as modalidades em projectos desportivos de sucesso, liderados por dirigentes e treinadores competentes e atletas comprometidos com os objectivos colectivos – desta forma, a vitória, quando não está certa, estará sempre muito mais próxima.

Qual o real valor dos 32 golos e 11 assistências de Jonas? Fonte: SL Benfica
Qual o real valor dos 32 golos e 11 assistências de Jonas?
Fonte: SL Benfica

A direcção do Benfica (e Luís Filipe Vieira, na qualidade de presidente) tem a maior fatia do mérito. Recuso, todavia, a criação de mitos em torno do sucesso: no Benfica não existem reis Midas. Cabe, em primeiro lugar, aos sócios e adeptos recordar que tudo aquilo já alcançado é apenas fruto da receita redigida e colocada em prática, na última década, por um conjunto de pessoas competentes e bem-intencionadas. O Benfica encontrou uma fórmula sem drama, nem histerismos; sem demagogia ou populismo. A receita resulta – e convirá a todos os interessados evitar que a rasguem, em nome de uma invencibilidade ilusória que a vitória pode criar, mas que, ausente de realidade, resultaria, invariavelmente, em maus cozinhados.

Artigo revisto por Bárbara Mota

Foto de capa: SL Benfica

João Amaral Santos

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