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Topo Sul

Quando se processa a habitual paragem dos campeonatos, para se cumprirem os jogos de qualificação das selecções, é a altura em que se fazem as primeiras reflexões (ou mais ponderadas) sobre o início de época das equipas, o que de melhor e pior se fez e aquilo em que se deve melhorar. Estou certo de que todos os treinadores, dirigentes, jogadores e muitos adeptos de futebol praticam este exercício e tiram as suas próprias conclusões, e eu incluo-me nesse lote.
Com tanta coisa que tem acontecido a este Benfica era normal e lógico que as minhas conclusões girassem em torno de abordagens tácticas mal conseguidas pelo treinador ou pelo sub-rendimento de alguns jogadores. No entanto, as minhas atenções recaíram especialmente num ponto que merece total reflexão: a formação do nosso clube. Aquilo a que chamo o “sumo vermelho-e-branco”.

Os compromissos internacionais que se disputam por esta altura não têm que ver somente com a qualificação para o Mundial no Brasil. Aliás, por todo o mundo se compete por vagas em torneios jovens de nomeada no futebol internacional, como os campeonatos europeus de Sub-17, Sub-19 e Sub-21. Ao mesmo tempo que a nossa Selecção A vai sofrendo para chegar ao Mundial 2014, jovens selecções lusas vão brilhando em palcos menores, onde despontam extraordinários talentos, muitos deles com carimbo e selo benfiquista.

Se olharmos para as convocatórias das selecções jovens portuguesas, facilmente nos salta à vista a quantidades de pupilos encarnados que as completam. Só nesta geração de sub-17, que caminha a passos largos para o Europeu de 2014, são dez os jogadores benfiquistas que entram nas contas do seleccionador nacional. No escalão acima – os sub-19 – também é o Benfica que normalmente conta mais representantes nas escolhas do seleccionador Hélio Sousa. Na selecção que serve (ou deve servir) de rampa de lançamento para a selecção principal – os sub-21 – figuram nomes como André Gomes ou Ivan Cavaleiro. No topo da pirâmide, na selecção A, Nélson Oliveira, aquele que não tem espaço no nosso plantel, tem lugar cativo nos planos de Paulo Bento.

André Gomes na Seleção / Fonte: www.abola.pt
André Gomes na Selecção
Fonte: A Bola

Este preâmbulo serviu para nos apercebermos do potencial que paira pelo Caixa Futebol Campus e para dar conta que estes meninos serão o futuro do futebol português e a próxima linha geracional da selecção principal. Os seleccionadores jovens, como mostram as convocatórias, estão a contar com eles para isso e agora é esperar que os altos responsáveis do Benfica não interrompam o processo e desperdicem a benesse, como tão bem o sabem fazer.

Todos estes indicadores parecem ser mais do que suficientes para se perceber que a cantera encarnada está bem e recomenda-se e que, mais cedo ou mais tarde, estes jovens acabarão por cumprir o sonho que os guia e envergar a camisola principal do Sport Lisboa e Benfica. No entanto, parece que esse processo não é assim tão simples como aparenta e (vá se lá saber porquê) há quem pense que o futebol destes pequenos craques não chega para entrar nas contas do treinador que, por isso, tende em apostar no jogador estrangeiro. Como diz o ditado, “o que de fora é que tem valor”, e num clube como o Benfica essa premissa é imperativa. Assim sendo, valores seguros e portugueses perdem espaço de manobra e voam para outras paragens, mesmo que essas paragens sejam clubes como o Manchester City, candidato ao título em Inglaterra, ou clubes de primeira água em Espanha ou Itália.

Marcos Lopes é o maior exemplo do desperdício benfiquista no que à formação diz respeito. Apesar de ter descendência brasileira, “Rony”, como é conhecido na esfera futebolística, é internacional pelas selecções portuguesas e um dos maiores talentos do futebol nacional. Há dois anos atrás transferiu-se do Benfica para o Manchester City a troco da módica quantia de um milhão de euros. Hoje, com apenas dezoito anos, é capitão dos juniores da formação inglesa e até já se estreou na equipa principal, ao lado de craques como Agüero ou David Silva. Histórias como esta são um habitué no universo encarnado e um dos factores para que hoje tenhamos apenas seis portugueses num plantel principal composto por vinte e cinco jogadores.

O sumo vermelho-e-branco parece ser mesmo ácido para os responsáveis do Sport Lisboa e Benfica e nem com os melhores ingredientes à disposição se produz a receita de qualidade nacional.

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