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A cada defeso regressam e recrudescem nos corações benfiquistas sensações de desconfiança e temor – é um sinal positivo e, sobretudo, frutífero. Significa, essencialmente, que o benfiquista comum continua atento e que ainda não se cansou de vencer (e alguma vez se cansará?). Significa que o benfiquista comum compreende a natureza do seu clube, os seus princípios e objectivos fundadores e tudo aquilo que o rodeia; que conhece as verdades indesmentíveis e universais quanto à existência de campeões antecipados, permanecendo consciente do quão indispensável é, a cada ano e momento da competição, colocar ênfase em critérios de sucesso transversais e intemporais: humildade, dedicação, trabalho e superação.
Há um ano, por esta altura, o Benfica alterava o seu rumo – drástica e grosseiramente –, abdicando dum paradigma alicerce de vitórias, com futebol dominador e tantas vezes avassalador. Uma alteração com a qual, à época, discordei com veemência. Hoje, felizmente, permito-me confessar alegremente tais estrondosos equívocos, pois, ao contrário daquilo que prognosticava (tal como a esmagadora maioria dos benfiquistas), as coisas correram pelo melhor. O Benfica provou, em Portugal e na Europa, como divergem os misteriosos caminhos para o sucesso; e como no futebol não há bons e maus modelos, mas apenas aqueles que ganham e aqueles que perdem.
Luís Filipe Vieira ganhou a aposta, calando os críticos (onde lamentavelmente me incluo), com uma estratégia economicamente viável, financeiramente rentável e – atentando ao que realmente importa – desportivamente bem sucedida. Aos títulos alcançados, somaram-se as receitas milionárias obtidas através da prestação na Liga dos Campeões e das vendas de Gaitán e Renato Sanches. No espaço de um ano, o Benfica reduziu a despesa e aumentou a receita não precisando, para tal, de abdicar do seu estatuto competitivo, apresentando-se como candidato/favorito em todas as provas onde está inserido, seja no desporto rei, como noutras modalidades com verdadeira relevância no panorama desportivo nacional.
Os resultados alcançados justificam a política e, por conseguinte, a continuidade da estratégia usada. A diferença, largamente positiva, reside na capacidade que o clube demonstra, no presente, em manter a parte significativa do plantel (tri)campeão em título, ao contrário do sucedido em defesos anteriores. Jamais se poderá ignorar o impacto imediato das saídas de Gaitán e Renato Sanches, porém, em comparação com as habituais revoluções às portas do Estio, Rui Vitória terá, neste defeso, mais certezas quanto à construção do colectivo. Com outra significativa vantagem: desta vez, terá à disposição o tempo e o espaço de uma pré-época digna de um clube profissional, responsável e ambicioso, resumidamente, ao nível do Benfica, em contraponto com a experiência amadora pelas Américas surrealistas que estoicamente suportou no seu ano de estreia.

Fonte: SL Benfica
O Benfica dispõe de jogadores experientes e talentosos, embora, na verdade, algo mais justifica a fome por títulos que tão bem tem sido saciada: o grupo está polvilhado de mística; um ingrediente que não se compra e muito menos se vende. Neste plantel, existem homens conscientes da grandeza do símbolo que carregam, da responsabilidade que lhes cabe, que assumiram com coragem e determinação, desde o primeiro dia de águia ao peito, a dimensão histórica deste clube, tão bem reflectida nos milhões vibrantes espalhados por todo o mundo. O compromisso assumido perante os objectivos colectivos e a sintonia com os adeptos – força fundamental, não só na Luz, como nos estádios espalhados pelo país – afiança a vontade de chegar sempre primeiro e mais alto. Para isso, o Benfica tem muitos capitães, não só Luísão, empunhando a braçadeira, mas também Júlio César, Jardel, Samaris ou Jonas, sem ela.
O actual plantel é constituído por jogadores de qualidade inquestionável, embora, situados em patamares evolutivos distintos; desta vez, a questão dos excedentários resolveu-se de forma relativamente célere e, neste momento, o grupo de trabalho encontra-se praticamente fechado e devidamente equilibrado – Rui Vitória terá a última palavra quanto aos dispensáveis após o estágio; talvez ainda saia Talisca e talvez ainda entre outro médio (substituto à altura de Renato Sanches). Os experientes Júlio César, Luísão e Salvio procuram recuperar o tempo perdido, regressar ao “onze”, ultrapassadas que estão as tormentosas e longas lesões que os afectaram. Ederson, Lindelof, Nelson Semedo, André Almeida, Pizzi e Raul Jimenez entram numa época de confirmação, após cada um deles ter demonstrado a qualidade e utilidade óbvias do seu futebol.
Mas como se vai tornando regra, é uma nova fornada de jovens que mais aguça a curiosidade do adepto e também, dada a recorrência que o bom exemplo consegue fixar, a do empresário e a do tubarão milionário, ansiosos por cada novo craque, oriundo daquela que é já uma das mais reconhecidas “rampas de lançamento” do futebol europeu e mundial. Grimaldo, Gonçalo Guedes e Jovic já ensaiaram a sensação “explosiva” da notoriedade e, em breve, poderão assumir-se como alternativas (mais) válidas. O médio André Horta e os extremos Zivkovic e Cervi entusiasmam, surgindo num processo de adaptação ao clube e à equipa (e no caso dos estrangeiros, ao país e à cidade). O médio João Carvalho e o extremo Diogo Gonçalves encontram-se na primeira linha de homens e futebolistas “nascidos” no Seixal – depois de cumprida a formação, é hora de passos mais sólidos.

Fonte: SL Benfica
Outro dos grandes trunfos do Benfica é, certamente, a permanência da produtiva dupla de ataque constituída por Mitrolgou e Jonas – capaz, com os seus golos, de resolver jogos e campeonatos. André Carrillo (ex-Sporting) e Celis, (ex-Junior Barranquilla, da Colômbia) são os reforços mais adultos e, muito provavelmente, aqueles que, neste momento, se encontram melhor posicionados para substituir as vagas em aberto – por Gaitán e Renato Sanches –, podendo entrar no imediato na equipa principal.
Os objectivos não divergem – monótona ambição, a da vida real. O Benfica tem um plantel bem pensado, com jogadores experientes em todos os sectores, titulares e alternativas de qualidade indesmentível, prontos para todos e quaisquer desafios, tanto no plano interno, como no externo. Numa segunda linha, surge uma mão cheia de jovens promessas, capaz de concentrar as atenções dos olheiros europeus, garantindo coesão e rotatividade, mas também, abrindo a porta a futuros negócios de milhões (indispensáveis para o sucesso deste projecto). O campeonato – a conquista de um inédito tetra – é, claramente, a grande prioridade; na Liga dos Campeões, o Benfica deve pensar por etapas, não devendo, porém, rejeitar a evolução progressiva do seu espaço no panorama internacional que os últimos anos têm vindo a confirmar. Resumidamente: o futebol são “onze” contra “onze”, o foco é sempre a vitória e, lá para Maio, vemo-nos no Marquês.
Foto de capa: SL Benfica














