Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google
Há muitos anos que um jovem jogador não gerava tanto falatório como Renato Sanches. O último? Talvez CR7, já há mais de dez anos, aquando da saída para Manchester. A prova de que Sanches é um centro magnético de atenções, como há muito não se via, foi o facto de termos um puto a correr para o relvado na estreia do jovem craque do Benfica pela selecção somente para o abraçar. Já antes, havia sido uma ovação a abrir o apetite. E até ao embate búlgaro foram incontáveis capas de jornal, artigos na net e Hosanas ou indiferença verbalizada e aziaga em relação ao rapaz.
Mas comecemos, como tudo na vida, pelo início. A chegada de Rui Vitória à Luz prometia mais oportunidades para a miudagem. O reinado de JJ foi de trevas para os jovens. A perda de gente como João Cancelo, Bernardo Silva ou Danilo Pereira é irreparável. Mas o novo timoneiro prometia mais: Nélson Semedo e Gonçalo Guedes foram os primeiros de uma série de testes, uns com mais e outros com menos sucesso. Mas sempre com o novel treinador à procura de uma fórmula que conjugasse a sua apetência pela formação com as ambições legítimas de um bicampeão.
E, à medida que algumas apostas iniciais iam perdendo fulgor (Guedes) e outras fracassavam em redondo (Clésio), a equipa não apresentava consistência e qualidade. Aliás, o futebol era mesmo mauzinho. E o golo só mesmo caído aos trambolhões, num rasgo individual de Gaitán aliado ao faro de Jonas. O resto…? Confrangedor. Alarmante, com o tribunal da Luz a coçar a cabeça, interrogando-se sobre o que se passava. E quando o meio campo persistia em ser uma manta com retalhos como Almeida, Talisca e Samaris, que entravam e saíam consoante calhava, apareceu, quase em desespero, o miúdo das rastas. Um tal de Renato Sanches, em quem muitos viam qualidade mas que tinha só 18 anos e dificilmente resolveria tudo. Soava a desespero. A atirar o barro à parede a ver se colava, tipo Victor Andrade!
Porém, à medida que Sanches se foi incorporando no 11, e foi um processo rápido (ao 2.º jogo era tudo dele), o Benfica cresceu como que por magia. O futebol não era tão rendilhado. Tão aborrecido. Com bola para o lado e para trás. A equipa ganhou verticalidade. Deixámos de demorar tanto tempo a chegar à área contrária e passámos a ter mais iniciativa. É isso que Sanches traz à equipa. Futebol em linha recta, que faz avançar as linhas a cada passada elefantina. Um verdadeiro Simplex futebolístico! Com metros e adversários galgados por corrida em posse.
Óbvio que desde o primeiro dia até hoje ele falha inúmeros passes. Tem pouco critério na altura de decidir e perdemos a posse de bola por causa dele. É normal, tem 18 anos. E por isso não façam dele uma máquina infalível. Nem para o bem, nem para o mal. É bom que os adeptos tenham consciência de que ele comete muitos erros: perde bolas e a sua impetuosidade poderia ter custado o vermelho em Alvalade. Não o elevem a super-herói. Não para já. E protegê-lo também é da nossa responsabilidade, e gostar de ver Sanches a conduzir o nosso jogo é diferente de ser autista em relação às suas deficiências. Espero que Vitória não o seja também. Que não lhe dê rédea solta. E ele tem de perceber que o seu caminho até ao topo é longo. O seu destino é esse, mas não pode queimar etapas. Nem ele, nem Vitória. Senão, perder-se-á um futebolista de eleição. Uma espécie de novo Pogba.

Fonte: SL Benfica
Sanches, pela sua qualidade e pelo modo como transfigurou a equipa, foi gerando nome. Alvo de entrevistas e curiosidade, manteve sempre uma postura tranquila e não mudou o seu ser de jogador. Isso é importante. Há uns meses atrás era quase anónimo e hoje é titularíssimo no Benfica e internacional A, e tudo aos 18. O falatório? Enorme… E veio a Selecção. E veio a clubite. Os muitos que dizem “aquilo” quando se referem à equipa da FPF, ou que não querem saber daquilo para nada, são os mesmos que exigem, a todo transe, Sanches como titular. E já! Outros, nunca! Os dos outros clubes… Se Renato merece o 11 nacional não sei! É uma questão táctica, pura e simples. De que merece ir a França não duvido. É um futebolista de qualidade, mudou o Benfica e por isso tem lugar naquele avião. Agora… O 11? Depende do que Santos quer. Do modo como quer que a equipa jogue. É que a Selecção não tem avançados como os do Benfica. Nem tão pouco joga do mesmo modo. É tão simples quanto isso. Não façamos, benfiquistas, de Sanches um imprescindível. Para já, pelo menos.
Por fim, a parvoíce. Nunca vi em Portugal uma campanha tão sarnenta contra um jogador como a que vejo contra Sanches por parte de comentadeiros e adeptos, sempre afectos ao mesmo clube! Nem o “Mauzinho” Santos foi vítima de uma coisa assim. O espalhar na TV de dúvidas acerca da sua idade, os memes na net acerca do mesmo assunto, a menção do mesmo lance em Alvalade vezes sem conta e o duvidar da sua qualidade roçam o nojo, tendo há muito passado do ridículo.
Um jogador português, um miúdo, alvo deste ódio? Que não se goste, tudo bem. Agora, ver um miúdo, que está a tentar percorrer o seu caminho até ao estrelato, vítima de difamação facebookiana, comentadeira e blogueira? E sempre do mesmo quadrante? É pateta. Sobretudo ver um dirigente a cuspir ódio semanalmente em relação a um miúdo. Um puto. Um rapazola… Grande homem, esse dirigente! Os valentões do teclado são uma coisa. Agora, um dirigente? Ex-futebolista? Sinceramente… Só em Portugal! De certeza que esse dirigente, no âmbito das suas funções, nas incursões nas relações internacionais do futebol, deveria elogiar e ouvir elogios da Europa toda. Mas para isso seria preciso ele efectivamente exercer um cargo no respectivo clube. Não é o caso; a sua tarefa é outra.
Renato Sanches dificilmente fica mais um ano na Luz. É pena. Mas, ao mesmo tempo, ainda bem. Pena, porque perdemos um craque e um bom rapaz. Ainda bem, pois é sinal de que a nossa academia produz (e não, não imitamos outras; a nossa dá largos milhões), e iremos vê-lo, seguramente, num tubarão europeu, num país de primeira linha, onde poderá evoluir ainda mais, cumprindo assim o seu destino. É que Portugal, para bem e para o mal, parece estar a ficar pequeno para Sanches.
Foto de capa: SL Benfica













