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(Tentando) Descortinar a entrevista de Rui Costa | SL Benfica

Márcio Francisco Paiva · 6 min

descortinar Rui Costa SL Benfica
Foto: SL Benfica

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E tu, o que retiraste das declarações de Rui Costa?

Três dias demorou Jesus a reaparecer. Rui Costa demorou três meses – foi lá quase. O que conta é que apareceu para que se fizesse luz… com a Luz apagada.

O local da aparição não podia ser outro que não o canal do clube (era o que mais faltava ser num lugar neutro, isto era uma entrevista, não uma final da Taça). Então, chegou, viu e… convenceu?

Eu diria que não – pelo menos, não total e cabalmente. Deu-nos a conhecer, no entanto, uma ou outra coisa com o seu quê de interesse. A primeira foi a de que não acompanha o Dicionário Online Priberam.

Se acompanhasse, saberia que a palavra do dia de ontem era “henequém” e não “abdicar”. Na primeira meia hora de entrevista, Rui Costa empregou mais este verbo do que o SL Benfica emprega jogadores que nunca vão calçar…

Abdicou de muito por amor ao SL Benfica – eu diria que abdicou até do dom do conhecimento em certos momentos dos últimos 12 anos. Não está preocupado com casos jurídico-legais, todavia. “O que me preocupa como presidente é olhar para o futuro do SL Benfica”, diz, escapulindo-se de seguida pela caminho do “ainda ninguém foi acusado de nada”.

De resto, toda a gente sabe que no mundo do futebol vale o “assino eu e assinas tu” – ou, noutras palavras, “assino eu como assina qualquer administrador, não quer que dizer que esteja envolvido em conluios”.

Até porque reitera que “era incapaz de lesar o SL Benfica. Isso jamais” (leia-se “jamais” e não “jamé”). Aliás, para lesar o SL Benfica estão cá os… sócios?

Pois bem, parece que Rui Costa acha que sim – alguns sócios e adeptos não têm defendido o clube. Se calhar convinha olhar para a separação de Estado e Igreja e promover uma mais clara distinção entre clube e direção.

Fazendo-o, diria que é bastante provável que o presidente encarnado venha a descobrir que afinal é a direção e não o clube que os sócios não defendem.

Mas Rui Costa deu-nos mais a conhecer. Por exemplo, ficámos a saber que herdou de Vieira o gosto pela construção civil – tem imensos projetos (que estão, claro, ainda no segredo dos deuses).

Sabemos, contudo, que nem os deuses são bons a manter segredos e alguns viram-se parcialmente descobertos pelo levantar do véu. Um deles é a Cidade Benfica, um projeto de enorme envergadura e único no mundo (com esta não contava o Flamengo).

Convém esclarecer: Rui Costa gosta de construção civil, mas não propriamente de andar de picareta na mão. É picareta na mão e microfone na boca – detesta! “Não pretendo esconder nada aos nossos adeptos, mas também não pretendo andar sempre de microfone na boca”, afirma. Está, no entanto, “à vontade para explicar tudo” – às autoridades, claro.

Não quero, todavia, ser injusto. Houve momentos de sepulcral silêncio que têm justificação. Por exemplo: o presidente do SL Benfica não falou aos benfiquistas na semana da saída de Jorge Jesus “para não criar mais atrito e deixar a equipa melhor preparada para o jogo no Dragão”. Correu bem, não correu? De uma semana para a outra, fomos de um 3-0 a um 3-1!

Pronto, não, não correu bem. Dezembro foi um mês “fatídico”, como o apelidou Rui Costa. Daqui para a frente será melhor, no entanto. Ele promete. E repromete as promessas prometidas.

Vai correr bem. E não é só no futebol – as modalidades também vão ter uma época 22/23 muito melhor do que a atual e é Rui Costa quem se vai chegar à frente.

Só não se chegou à frente com a auditoria… Mas a culpa não foi dele, atenção! A empresa que a realizou é que só a entregou a 22 de dezembro e, claro, depois meteu-se o Natal…E também estava tudo bem, não havia necessidade de preocupar ninguém.

Ainda assim, pelo sim, pelo não, a sua direção decidiu “estender esta auditoria aos 55 contratos que estão a ser investigados pelas autoridades”. É aguardar, pode ser que esta saia mesmo em outubro.

Ora bem, que mais… Ah, é verdade, Rui Costa disse que “uma das coisas que quero no SL Benfica é clareza”. Lá está, daí a divulgação dos resultados da auditoria (a próxima, claro está). Enfim, coisas da vida administrativa… Talvez seja melhor focar atenções na vida desportiva.

Bem, em resumo: Jesus saiu em coordenação com Rui Costa após ambos terem chegado à conclusão de que “o caminho ia ser muito mais difícil” após a “desavença” com Pizzi e, sobretudo, após o grupo ter tomado o partido do capitão.

Acabou assim mais cedo uma ligação que ambos esperavam manter até ao fim do contrato. Quer dizer que as coisas estavam a correr bem, infiro eu.

Ou não… Parece que, afinal, “era preciso dar um choque térmico no paradigma” e é assim que surge Nélson Veríssimo, “um jovem treinador com uma ambição enorme, que já conhecia parte do plantel” e que “além disso, é um benfiquista ferrenho”. Sai ao seu predecessor, sai…

Veríssimo vai ter agora a missão de conquistar… tudo. Isto porque Rui Costa admitiu que exige “que dentro do Seixal ninguém baixe os braços” e que acredita “que esta época ainda vamos ser muitos felizes” – vai acabar a pandemia? O timoneiro ex-Benfica B terá igualmente que conciliar duas faces da mesma moeda: projeto e conquistas.

“No SL Benfica tem que se ter projeto e apresentar resultados”, asseverou o presidente, acrescentando mais adiante que “aquilo que queremos todos é ganhar”. Ótimo, Rui, concordo. Quando é que começamos? Quando e como? Bem, à segunda parte ele parece ter respondido.

“Queremos criar uma estabilidade que não criámos nos últimos 2 anos” é uma boa premissa, Rui. E mais? “Quero acabar com a contratação de muitos jogadores”. Boa, boa.

Haverá Jesus no Natal do SL Benfica?
Jesus teve uma saída atribulada
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Continua, por favor. “Um dos objetivos é reduzir o plantel, gosto de plantéis curtos e permite abrir espaço para os jogadores da nossa formação”. Gosto, finaliza. “O projeto de futuro passará sempre por um misto de formação e contratações”. Apoiado! Mas é para cumprir, Rui.

Também o Estádio da Luz mereceu reflexão e vai merecer melhorias, sendo que “no início da próxima temporada, os adeptos já vão encontrar mudanças” (eu começava por tirar o lugar cativo ao André Almeida, mas isso sou eu). Para tais mudanças contribuirá a situação financeira do clube, que, segundo Rui Costa, se encontra estável.

O que não se manterá estável serão os estatutos do clube, que estão a ser revistos por uma comissão composta por membros de vários movimentos da nação benfiquista. O presidente eleito em outubro conta ter a revisão nas suas mãos em finais de fevereiro (espero que não seja a 29, que não estamos em ano bissexto).

Como tradição é tradição, não pôde faltar o apelo à união (quem tinha cinco euros nesta?), com Rui Costa a pedir que nos “juntemos cada vez mais. (…) É um momento da nossa vida em que nos unimos ou nos partimos”.

E, num momento em que “a ambição é grande” e “há muito para fazer e para mudar”, o presidente do Sport Lisboa e Benfica não quer que nos partamos.

Compreendo as palavras, Rui. Não obstante e mais do que nunca, ter-nos unidos depende muito mais de vocês do que depende de nós.

Nós por cá teremos sempre um ponto muito forte de união – o amor ao SL Benfica, amor que se sobrepõe a qualquer outro interesse de qualquer outra índole (“Um tão singelo amor, que aumenta na ventura;/Um amor tão leal que aumenta no sofrer”, citando Pessoa). E vocês por aí?

Márcio Francisco Paiva

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